Sam Raimi nunca escondeu o quanto gosta de brincar com criaturas sobrenaturais. Mesmo assim, parte dessa ousadia ficou de fora de Doutor Strange in the Multiverse of Madness. O diretor contou que uma quarta dimensão, completa e com direito a luta de demônios, foi eliminada da montagem final.
O trecho perdido destacava Christine Palmer, vivida por Rachel McAdams, em um combate solo. A atriz teria encarnado uma versão da personagem com novas camadas dramáticas, enfrentando seres do submundo sem a ajuda de Stephen Strange. A seguir, destrinchamos como essa decisão afeta a leitura do filme e o trabalho do elenco.
A dimensão descartada e seu impacto narrativo
Doutor Strange in the Multiverse of Madness já viaja por três realidades: a familiar Terra-616, a avançada Terra-838 e o universo corrompido onde o protagonista encara sua contraparte dominada pelo Darkhold. Raimi, porém, revelou a existência de um quarto cenário desenvolvido durante a produção, completo com história própria para Christine.
Segundo o cineasta, toda uma sequência de ação foi filmada: demônios irrompiam de um portal, atacavam a cientista e eram repelidos por manobras acrobáticas que lembram velhos filmes de terror pulp – marca registrada de Raimi desde A Morte do Demônio. A cena, no entanto, acabou na ilha de edição, tendência comum em blockbusters com cronogramas apertados.
Rachel McAdams rouba a cena mesmo fora da tela
O diretor descreveu a performance de McAdams como “um concerto de violino em três tonalidades”. A metáfora reforça a versatilidade da atriz, que precisou mesclar vulnerabilidade, coragem e um toque de humor físico para tornar verossímil a luta contra criaturas invisíveis no set.
Aos olhos de Raimi, a entrega profissional da intérprete fez toda diferença. Mesmo quando as instruções pareciam exageradas – “o demônio te dá um soco no queixo e você voa para o divã” – ela respondia com questões práticas: ângulo de entrada, tempo de queda, coordenação de pernas. Esse comprometimento lembra o zelo que Sam Rockwell costuma demonstrar em papéis de ação, motivo pelo qual rumores o ligam a Armor Wars no MCU.
Decisão de corte: ritmo acima do fan-service
Manter o filme em 126 minutos exigiu escolhas duras. O roteirista Michael Waldron e a equipe de produção priorizaram a jornada emocional de Stephen Strange e Wanda Maximoff. Adicionar mais um universo poderia diluir o foco, além de estender efeitos visuais já complexos.

Imagem: Divulgação
O próprio Raimi admitiu receio de que a luta soasse “ridícula” no contexto final. Ao sacrificar a sequência, a narrativa ganhou ritmo, mas perdeu espaço para explorar outras versões de Christine. Para o espectador, resta imaginar como seria testemunhar a personagem enfrentando horrores dignos de um filme B do diretor.
Análise de direção, roteiro e efeitos
Mesmo sem a tal dimensão, Doutor Strange in the Multiverse of Madness carrega a assinatura de Raimi: câmera nervosa, cortes rápidos e humor macabro. O roteiro de Waldron costura referências ao cânone da Marvel com o terror fantasioso que o cineasta domina. A química entre texto e mise-en-scène se confirma em sequências como o duelo musical entre dois Stranges.
Os efeitos práticos permeiam a produção, algo raro em blockbusters recentes. O departamento de maquiagem abusou de próteses para criar a versão corrompida de Stephen, reduzindo dependência de CGI. O resultado se alinha ao estilo artesanal que Raimi consagrou nos anos 1980 e que ressurge em relançamentos nostálgicos, como o retorno em 4K de Teenage Mutant Ninja Turtles II.
Vale a pena assistir?
Para quem acompanha o Universo Cinematográfico da Marvel, Doutor Strange in the Multiverse of Madness segue indispensável. A combinação de terror leve, multiverso e atuações comprometidas — com destaque para McAdams mesmo nos bastidores — sustenta a aventura. A curiosidade sobre a cena perdida só reforça a vontade de revisitar o longa, disponível no Disney+. Aqui no Salada de Cinema, seguimos atentos a qualquer material extra que confirme o potencial dessa dimensão cortada.









