O terror cômico Prontos ou Não 2: Lá Vou Eu (Ready or Not 2: Here I Come) chegou aos cinemas cercado de expectativa. Elenco estrelado, divulgação pesada na SXSW e a chancela da dupla Radio Silence formavam a equação perfeita para repetir o êxito do primeiro filme.
Na prática, contudo, a continuação encarou uma recepção mais sangrenta que qualquer armadilha do roteiro. Com apenas US$ 9 milhões no primeiro fim de semana, o longa ficou atrás do épico indiano Dhurandhar: The Revenge, que já soma US$ 10,5 milhões e quebrou recordes em seu país.
A disputa nos números: quando o marketing não basta
As projeções iniciais apontavam um arranque confortável para Prontos ou Não 2, sobretudo porque o filme foi impulsionado pela Disney durante todo o festival de Austin. A realidade dos ingressos vendidos, porém, revelou um público disperso, que preferiu encarar a ficção científica Project Hail Mary ou o fenômeno indiano conduzido por Aditya Dhar.
Enquanto o terror americano ficou restrito ao mercado doméstico com seus US$ 9 mi, Dhurandhar: The Revenge mostrou força global. A produção de quatro horas agradou nomes de peso como S. S. Rajamouli, que enalteceu o “escopo e a alma” do novo capítulo. A declaração viralizou no Instagram e terminou de empurrar o público para as salas exibidoras do concorrente.
Elenco de peso, resultado leve: atuações salvam a experiência?
Samara Weaving retorna como Grace com a mesma energia frenética que arrebatou fãs no primeiro filme. A atriz não perde o timing cômico nem quando o sangue escorre em litros, mantendo o espectador envolvido mesmo nos momentos de repetição narrativa.
Kathryn Newton, agora como a irmã afastada Faith, ganha sequências próprias de tensão e sustenta boa química com Weaving. Já Sarah Michelle Gellar e Elijah Wood funcionam mais como presenças de luxo: entregam momentos divertidos, mas sem o espaço necessário para brilhar. O resultado é um elenco afinado que, ainda assim, não consegue mascarar a sensação de “refrito” apontada em críticas iniciais.
Direção e roteiro: Radio Silence no piloto automático
Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, parceiros conhecidos por Scream (2022), voltam a combinar sustos e humor negro. A fórmula está lá: montagem ágil, violência estilizada, piadas que aliviam a tensão. O problema surge quando cada golpe parece menos inventivo que o anterior; a comparação feita por Gregory Nussen—“se o original era um jogo de xadrez, a sequência é um jogo da velha”—resume a percepção de simplicidade.
No texto, Guy Busick e R. Christopher Murphy expandem a mitologia da família persecutória, mas deixam pontas soltas. A nova dinâmica entre Grace e Faith até gera faíscas, contudo o risco dramático diminui à medida que o filme recorre a saídas fáceis. A duração enxuta de 108 minutos impede a história de se alongar, porém sacrifica camadas que tornariam os personagens mais do que alvos ambulantes.
Imagem: Pief Weyman
Comparação inevitável: por que Dhurandhar seduz mais que Grace?
Parte do fascínio pelo épico indiano está na escala. Segundo Rajamouli, a continuação ampliou cenário, trilha e densidade emocional. O público respondeu não apenas com curiosidade cultural, mas com engajamento genuíno em uma narrativa de vingança que dura quatro horas sem perder o fôlego.
Prontos ou Não 2, por outro lado, investe na mesma estrutura de “caça humana em mansão” em ritmo acelerado. A repetição de ganchos diminui o impacto dos sustos, e a bilheteria reflete a fadiga. Quem procura algo mais inédito acaba migrando para opções como a já citada Project Hail Mary, apontada pelo Salada de Cinema como espetáculo humano disfarçado de aventura espacial.
Vale a pena assistir?
Mesmo com tropeços, Prontos ou Não 2 entrega diversão para quem curte humor ácido misturado a litros de sangue. Samara Weaving domina a tela, e Kathryn Newton ganha espaço para mostrar versatilidade. Ainda que a direção pareça em piloto automático, há energia suficiente nas cenas de perseguição para manter a atenção durante pouco mais de hora e meia.
Se a meta é reviver a catarse do original, talvez a experiência deixe um gosto de “já vi”. Porém, para quem quer conferir atuações carismáticas e ver como a dupla Radio Silence mantém o controle da carnificina, o ingresso pode valer. Basta não chegar esperando a reinvenção do género—nem o mesmo impacto financeiro que Dhurandhar alcançou.
No fim, o saldo nas bilheterias mostra que criatividade e escala ainda contam muito. Resta acompanhar se o boca a boca melhora o desempenho do terror nas próximas semanas ou se Grace ficará de fora do pódio definitivo de 2026.


