O vampiro mais célebre da literatura voltou aos cinemas em grande estilo — pelo menos à primeira vista. Dracula: A Love Tale, o romance de terror francês comandado por Luc Besson, já acumulou US$ 33,6 milhões pelo mundo e garantiu o maior faturamento da história da distribuidora Vertical Entertainment.
Apesar do feito, o longa estrelado por Caleb Landry Jones e Christoph Waltz ainda não recuperou o orçamento estimado em pelo menos US$ 50 milhões. Entre aplausos à ousadia de Besson e questionamentos sobre o fôlego financeiro, Salada de Cinema reuniu os principais números e analisou as forças — e fraquezas — dessa nova investida na figura do Conde.
Luc Besson retorna ao horror romântico com visão autoral
Conhecido por unir estética ousada e narrativa pulsante em obras como Léon: O Profissional, Luc Besson assina roteiro e direção de Dracula: A Love Tale. Aqui, ele mescla romance trágico e terror gótico para acompanhar a eterna busca de Drácula por sua amada através dos séculos. A duração de 129 minutos dá espaço para set pieces elaboradas e para uma atmosfera que passeia do sombrio ao melancólico.
O contraste entre cenas de violência estilizada e passagens contemplativas traduz a assinatura visual do cineasta. Ao lado da produtora Virginie Besson-Silla, o diretor investe em figurinos de época, fotografia carregada de tons frios e trilha que alterna coros clássicos e batidas eletrônicas discretas. O resultado divide opiniões: a nota de 53% no Rotten Tomatoes revela recepção morna, ainda que parte da crítica destaque a coragem de Besson em abraçar o kitsch sem medo.
A familiaridade do público com Drácula, revigorada pelo êxito de Nosferatu em 2024, também pesa. Enquanto Robert Eggers tratou o mito com horror expressionista, Besson prefere o caminho do delírio romântico, o que gerou comparações inevitáveis — o crítico Brandon Zachary, por exemplo, classificou o filme como “bizarro o bastante para divertir”.
Caleb Landry Jones e Christoph Waltz dominam a tela
Caleb Landry Jones veste a capa do vampiro-título com arrojo físico e olhar febril. Seus trejeitos alongados, às vezes quase animalescos, reforçam a longevidade maldita do personagem. Sem recorrer a charme sedutor convencional, o ator aposta em fragilidade emocional, revelando um Drácula dilacerado pela saudade de um amor perdido.
A química oposta surge na figura do padre vivido por Christoph Waltz. O austríaco empresta ironia ao religioso que persegue o conde ao longo dos séculos, criando duelos verbais cheios de cinismo. A dinâmica entre os dois sustenta grande parte da narrativa, compensando momentos em que o roteiro se alonga em subtramas históricas.
Mesmo com elenco enxuto, Besson coloca a câmera a serviço das performances. Close-ups prolongados ressaltam microexpressões e, quando o sangue jorra, a lente não se afasta. Essa escolha amplifica o impacto dramático e agrada quem busca terror gráfico, embora possa alienar espectadores sensíveis.
Recorde de bilheteria anima a Vertical Entertainment
Segundo o Box Office Mojo, os US$ 33,6 milhões contabilizados até 13 de fevereiro já superam qualquer número anterior da Vertical. Para efeito de comparação, a mesma distribuidora lançou We Bury the Dead em janeiro, que encerrou com modestos US$ 3,8 milhões, e Eden, suspense de época de 2025, que parou em US$ 2,4 milhões.
O salto é expressivo e demonstra a força do nome Drácula no mercado. No entanto, o orçamento de pelo menos US$ 50 milhões ainda coloca o projeto no vermelho. Isso explica a aposta da empresa em ampliar o alcance do longa em streaming, estratégia que funcionou com Eden após a chegada ao catálogo da Netflix.
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Enquanto isso, outros títulos seguem fortes no circuito. Wuthering Heights promete abalar o ranking com projeções robustas, ao passo que Send Help mantém a ponta doméstica. A própria Vertical vai testar a sorte em breve com animações empolgantes como GOAT, mostrando que heroísmo esportivo também tem público fiel.
Concorrência intensa reduz o espaço de Dracula nas salas
Com a chegada simultânea de GOAT, Crime 101 e Good Luck, Have Fun, Don’t Die, a disputa por salas e atenção do público espreme ainda mais Dracula: A Love Tale. Send Help segue dominante, e analistas de mercado não veem margem para que o vampiro francês recupere o ritmo inicial nas próximas semanas.
A queda de bilheteria, contudo, não apaga o feito histórico para a Vertical. A distribuidora, acostumada a lançar produções independentes de menor alcance, agora exibe um case que pode atrair novos parceiros. Se o título migrar cedo para plataformas, a fama de “filme estranho porém divertido” apontada por Brandon Zachary tende a impulsionar maratonas curiosas e memes online.
No saldo final de caixa, o futuro permanece incerto. Mas, artisticamente, o longa ganha vida própria graças à abordagem maximalista de Besson e ao embate de egos entre Jones e Waltz. O mito de Drácula, afinal, vive de reinvenções — e esta acaba de cravar seu nome no livro de recordes da Vertical.
Vale a pena assistir a Dracula: A Love Tale?
Para fãs de Luc Besson, o filme oferece tudo o que se espera do diretor: visual extravagante, ritmo que oscila entre contemplação e explosão, além de personagens excêntricos. Caleb Landry Jones entrega um conde vulnerável e violento, enquanto Christoph Waltz injeta sarcasmo elegante, criando duelos magnéticos.
Quem procura terror gótico clássico pode estranhar a mistura de humor involuntário e romance melodramático, refletida na pontuação mediana do Rotten Tomatoes. Ainda assim, a produção tem charme justamente por abraçar o exagero e não temer o absurdo. Assim, a sessão vale pelo espetáculo visual e pela curiosidade de ver Drácula cantado em francês, com sangue e poesia lado a lado.
Se o bolso permitir uma ida ao cinema antes que o longa seja engolido pela concorrência, a experiência de tela grande amplifica cenários, maquiagem e trilha. Caso contrário, a provável rota para o streaming transforma Dracula: A Love Tale em opção certeira para madrugada regada a pipoca — e algumas risadas surpresas.



