Por mais de uma década, Kathleen Kennedy comandou a Lucasfilm e, consequentemente, aprovou cada filme e série live-action de Star Wars lançados nesse período. Entre acertos retumbantes e tropeços dolorosos, o saldo artístico de sua gestão mistura ousadia, nostalgia e muitas discussões acaloradas entre fãs.
Para enxergar essa fase com lupa, o Salada de Cinema preparou uma análise que coloca o holofote nas atuações, nas escolhas de direção e no trabalho de roteiro. A lista vai do pior ao melhor, sempre destacando como cada peça funciona — ou falha — na tela.
Do naufrágio emocional de “A Ascensão Skywalker” ao potencial desperdiçado de “O Livro de Boba Fett”
“Star Wars: A Ascensão Skywalker” (2019) encerra a saga Skywalker com grandiosidade visual, mas derrapa quando o assunto é coerência dramática. Daisy Ridley entrega intensidade genuína como Rey, ainda que o roteiro tropece ao reintroduzir Palpatine sem fio condutor sólido. A direção de J. J. Abrams opta por ritmo frenético para mascarar pontas soltas, criando espetáculo brilhante, porém vazio.
Já “O Livro de Boba Fett” (2021) tinha tudo para ser um mergulho no passado sombrio do caçador de recompensas. Temuera Morrison abraça o papel com carisma estoico, mas o seriado se perde em desvios narrativos. Episódios inteiros trocam o protagonista pelo Mandaloriano, e o resultado é colcha de retalhos: boas sequências de ação isoladas, enredo sem foco e fan service que raramente aprofunda personagem.
Altos e baixos do streaming: de “Obi-Wan Kenobi” a “Ahsoka”
No meio do caminho surge “Obi-Wan Kenobi” (2022), minissérie que vale cada minuto quando Ewan McGregor e Hayden Christensen dividem a tela. A química dos ex-padawans ressurge com força, culminando em duelo carregado de culpa e ódio. As subtramas, contudo, carecem de urgência: a caçada ao pequeno Leia e a jornada de Reva soam protocolares diante do drama central.
Em 2023, “Ahsoka” chega como sequência espiritual de Rebels. Rosario Dawson captura a serenidade guerreira da personagem, enquanto Natasha Liu Bordizzo injeta vitalidade em Sabine. O criador Dave Filoni, no entanto, distribui as melhores motivações aos antagonistas: Ray Stevenson hipnotiza como Baylan Skoll, deixando os heróis em segundo plano. A fotografia capricha em enquadrar sabres laranjas contra céus azul-quase-roxo, mas algumas lutas tropeçam em coreografias lentas.
Quando o risco compensa: “Solo”, “Skeleton Crew” e a reconexão com a aventura
“Solo: Uma História Star Wars” (2018) é lembrado pelo fracasso de bilheteria, mas Alden Ehrenreich confere charme irreverente ao jovem Han. A dinâmica com Donald Glover (Lando) abraça a leveza de faroeste espacial, sob batuta de Ron Howard. Falta impacto no cânone? Falta. Ainda assim, a aventura funciona como sessão da tarde galáctica, com destaque para a trilha de John Powell que ecoa temas clássicos sem parecer xerox.
Imagem: Walt Disney Studios Moti Pictures via MovieStillsDB
“Skeleton Crew” (2025) repete o espírito jovial, agora nos anos da Nova República. Jude Law serve como mentor misterioso, mas quem conduz a trama é o quarteto de adolescentes perdido em região desconhecida. A mistura de clima Amblin com estética Star Wars refresca a franquia. Aqui, a ousadia vem do tom: menos laser, mais descoberta. Jogos de câmera baixos aproximam o espectador da perspectiva infantil, recurso que garante empatia imediata.
O topo da galáxia: “O Despertar da Força”, “The Mandalorian” e “Rogue One”
“Star Wars: O Despertar da Força” (2015) precisou provar que a marca sobreviveria sem George Lucas. J. J. Abrams consegue renovar o mito ao escalar trio magnético: Daisy Ridley, John Boyega e Oscar Isaac constroem química instantânea, enquanto Harrison Ford revisita Han Solo com melancolia nunca antes vista. A fotografia prioriza locações reais, devolvendo textura orgânica à saga.
Na TV, “The Mandalorian” (2019-atual) virou fenômeno cultural sobretudo pelo trabalho de Pedro Pascal. Mesmo atrás do capacete, o ator comunica fragilidade e honra apenas com a voz e sutis inclinações de cabeça. A direção de Jon Favreau e Dave Filoni aposta em narrativa de velho oeste, apresentando Grogu, pequena criatura que mistura fofura e mistério. As duas primeiras temporadas entregam arcos fechados e inventivos; a terceira perde fôlego ao dividir protagonismo, mas não compromete o conjunto.
Completa o pódio “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016), drama de guerra que costura heroísmo e sacrifício. Felicity Jones lidera elenco afinado, onde Diego Luna, Donnie Yen e Ben Mendelsohn brilham em papéis focados e viscerais. A direção de Gareth Edwards combina long takes com sujeira de campo de batalha, resultando em clímax brutal nas praias de Scarif. Mesmo com bastidores turbulentos, o filme entrega catarse pura quando os planos da Estrela da Morte finalmente escapam pelos corredores iluminados em vermelho por Vader.
Vale a pena assistir aos projetos de Kathleen Kennedy?
Embora irregulares, as produções de Kathleen Kennedy oferecem recortes variados do universo Star Wars. Dos deslizes narrativos de “A Ascensão Skywalker” ao frescor de “The Mandalorian”, há experiências que valem o tempo investido, principalmente para quem deseja observar como diferentes vozes — diretores, roteiristas e elencos — reinterpretam a galáxia muito, muito distante.



