Jason Blum deve embolsar aproximadamente US$ 17 milhões com Obsessão — mais do que qualquer pessoa que efetivamente fez o filme. O terror de baixíssimo orçamento virou o estudo de caso mais surreal de 2026: rodado por US$ 750 mil, vendido por US$ 15 milhões à Focus Features e hoje com mais de US$ 230 milhões arrecadados no mundo, o longa expõe uma lógica financeira onde quem chegou depois pode sair na frente.
O acordo que Blum fechou sem ter filmado um único plano
A entrada da Blumhouse na história de Obsessão aconteceu cerca de um mês após a aquisição pela Focus Features, braço da Universal Pictures. Nesse ponto, o filme já estava praticamente pronto — filmado, montado e elogiado no Festival de Cinema de Toronto. Blum entrou como produtor executivo com uma função bastante específica: impulsionar a campanha de marketing.
O que torna o caso incomum é a estrutura do contrato que ele negociou. Além de um salário-base, a Blumhouse garantiu um bônus de US$ 2 milhões caso o filme ultrapassasse US$ 25 milhões de bilheteria nos Estados Unidos — o que aconteceu com folga — mais US$ 500 mil adicionais para cada US$ 5 milhões arrecadados ao redor do mundo. Com o desempenho atual, a conta fecha perto dos US$ 17 milhões para Blum.
Para efeito de comparação: a produtora original, a Capstone Pictures, deve receber entre US$ 45 milhões e US$ 50 milhões no total — mas esse valor será dividido entre toda a equipe criativa do projeto. O diretor e roteirista Curry Baker, responsável por cada decisão criativa do longa, ainda não tem um número confirmado, mas a fatia que lhe caberá ficará abaixo dos US$ 17 milhões de Blum.
US$ 750 mil de investimento, US$ 230 milhões de retorno: a aritmética que Hollywood não esperava
O caso de Obsessão já vinha causando desconforto nos bastidores antes mesmo dessa revelação sobre os lucros dos produtores. A diretora de arte do filme havia divulgado que recebeu apenas US$ 6 mil pelo trabalho — um número que, posto ao lado dos US$ 17 milhões de Blum, ilustra com crueza como a divisão de ganhos funciona no sistema de aquisições de festivais.
O terror psicológico, que acompanha a trama de um objeto capaz de realizar desejos, liderou a média de espectadores por sala no Brasil na semana de 26 de maio de 2026 e chegou aos cinemas brasileiros em 21 de maio. O desempenho rendeu ao filme o rótulo de fenômeno de bilheteria e candidato ao título de melhor terror de 2026, ao lado de Nosferatu, de Robert Eggers, que arrecadou cerca de US$ 95 milhões nos Estados Unidos e mais de US$ 180 milhões no mundo após seu lançamento.
A Focus Features, distribuidora do filme, deve lucrar aproximadamente US$ 125 milhões apenas com a exibição cinematográfica — o que torna o investimento inicial de US$ 15 milhões na aquisição um dos melhores negócios do estúdio nos últimos anos.
O que o caso Blum revela sobre o modelo de aquisição pós-festival
Há uma leitura possível aqui que vai além do escândalo dos números: o acordo da Blumhouse com Obsessão expõe como funciona o mercado de aquisição de filmes independentes quando um estúdio compra uma obra pronta. Quem chega depois — com poder de distribuição, rede de contatos e marca reconhecível — tem capacidade de negociar participações nos lucros que os criadores originais, sem esse poder de barganha, raramente conseguem.
Curry Baker, em seu primeiro longa-metragem, entrou nessa negociação sem histórico de bilheteria, sem estúdio por trás e sem o tipo de alavancagem que Blum construiu ao longo de décadas produzindo franquias como Paranormal Activity, Insidious e Halloween. O resultado é que o estreante que concebeu o projeto do zero verá a maior fatia individual dos lucros ir para alguém que assinou contrato depois que o filme já tinha virado sensação em Toronto.
Isso não é necessariamente ilegal ou surpreendente para quem conhece Hollywood — mas a escala do lucro de Obsessão torna a assimetria visível de um jeito que filmes menores jamais tornariam. O longa segue adiando sua chegada às plataformas digitais justamente para maximizar a arrecadação nos cinemas, o que significa que os números — e essa conversa — ainda não terminaram.









