O live-action de Mestres do Universo estreou nos cinemas brasileiros em 4 de junho de 2026 com uma proposta que poucos filmes de franquia têm coragem de adotar: abraçar de frente a extravagância do material original em vez de tentar “consertar” o que nunca precisou ser consertado. Sob a direção de Travis Knight, o resultado é imperfeito — mas honesto de um jeito que importa.
Mestres do Universo vale a pena assistir?
Sim, especialmente para quem cresceu com os brinquedos e o desenho animado. O filme opta por não se levar a sério o tempo suficiente para estragar a diversão, e essa consciência da própria excentricidade é seu maior trunfo. Não é um blockbuster redondo, mas entrega o que promete: Eternia colorida, vilão caricato e herói musculoso dizendo frases de efeito.
O que diferencia este He-Man do longa de 1987 começa já na decisão de cenário. A versão anterior levava os protagonistas para a Terra por limitações de orçamento. Aqui, a trama permanece quase inteiramente em Eternia, o que permite explorar as criaturas bizarras e as tecnologias impossíveis da franquia com muito mais liberdade visual. Knight não esconde os visuais clássicos dos personagens — Esqueleto, Teela, Mandíbula, Homem-Fera surgem reconhecíveis, sem o filtro de realismo sombrio que engole boa parte das adaptações contemporâneas.
Quem é quem no elenco de Mestres do Universo?
O elenco reúne nomes conhecidos em papéis que variam bastante de peso narrativo:
- Nicholas Galitzine como Príncipe Adam / He-Man — protagonista absoluto do filme, carrega uma ingenuidade sincera que funciona melhor como Adam do que como o herói transformado
- Jared Leto como Skeletor — abraça sem pudor a extravagância do vilão e entrega algumas das cenas mais divertidas da obra
- Camila Mendes como Teela — recebe desenvolvimento além de coadjuvante por sua proximidade com Adam
- Idris Elba como Duncan / Man-At-Arms — mesmo tratamento de Teela, com arco ligado à família de Adam
- Alison Brie como Evil-Lyn — presença marcante, mas limitada pelo espaço que o roteiro reserva ao elenco de suporte
- Morena Baccarin como A Feiticeira — aparição que fica aquém do potencial do personagem
- James Purefoy como Rei Randor e Charlotte Riley como Rainha Marlena — inseridos nos dramas familiares que ocupam uma fatia considerável do segundo ato
A promessa do título — uma aventura dos Mestres do Universo — acaba sendo cumprida só pela metade. Com exceção de Teela e Man-At-Arms, o restante do elenco opera como figurantes de luxo.
Por que Jared Leto como Skeletor funciona quando ninguém esperava?

Porque o ator entende que o personagem não pode ser interpretado com seriedade absoluta — e também não pode virar paródia descartável. Leto encontra um equilíbrio estranho e eficaz: uma caveira afetada e musculosa tentando dominar o universo precisa de alguém disposto a habitar esse absurdo sem piscar. O resultado são as sequências mais memoráveis do filme. Para quem quer saber mais sobre a história do vilão, vale conferir o perfil do Esqueleto que publicamos aqui no Salada.
Qual é o maior problema do filme?
A transformação de Adam em He-Man nunca convence do ponto de vista dramático. O roteiro — assinado por Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee e Dave Callaham — opta por preservar no herói a mesma ingenuidade do príncipe, o que reduz a metamorfose a algo puramente físico. Falta imponência. A escolha pode ser intencional — o filme claramente brinca com ideais de masculinidade do material original — mas o efeito colateral é um protagonista que nunca ocupa o espaço que o nome exige.
Os quarenta minutos iniciais concentram o melhor do filme: cores vibrantes, enquadramentos criativos, cenas de ação com noção real de espaço. Conforme a narrativa avança, esse ímpeto se dilui. As sequências de combate seguem frequentes, mas perdem a inventividade das primeiras. Soma-se a isso um segundo ato pesado em dramas familiares que contrastam com o humor adotado no restante — e que esticam a duração sem acrescentar muito.
O que Mestres do Universo representa para o cinema de franquia em 2026?
Mais do que parece à primeira vista. Numa indústria que passou anos tentando tornar tudo sombrio e psicologicamente denso, um filme que simplesmente se recusa a ter vergonha da própria fonte é, em alguma medida, um ato de resistência estética. He-Man nunca precisou ser levado totalmente a sério para funcionar — e Travis Knight parece ter sido o único numa sala de desenvolvimento que acreditou nisso com convicção suficiente para manter o tom até o fim.
Isso não torna Mestres do Universo um grande filme. Mas torna a experiência genuína de um jeito que poucos blockbusters conseguem ser hoje.









