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    CRÍTICA | Algo Muito Ruim Vai Acontecer explora maldição familiar com doses certeiras de paranormalidade

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    By Thais Bentlin on março 26, 2026 Séries

    Camila Morrone veste a aura de paranoia como quem coloca um véu nupcial. Em Algo Muito Ruim Vai Acontecer (Something Very Bad Is Going to Happen), nova aposta de terror da Netflix, a atriz conduz o espectador por uma espiral de presságios, sangramentos nasais e déjà-vus familiares que, pouco a pouco, deixam de soar supersticiosos para ganhar contornos de destino escrito.

    Produzida e roteirizada por Hayley Z. Boston em parceria com os irmãos Duffer, a minissérie cruza horror psicológico com elementos claramente sobrenaturais. O fio condutor é a maldição que sentencia mulheres da linhagem Harkin à morte caso se casem com alguém que não seja a metade exata de sua alma. Como se o casamento já não fosse suficiente para gerar ansiedade, a narrativa amplifica o temor com uma série de sintomas físicos e premonições que atingem a noiva Rachel.

    Camila Morrone traduz o pavor com naturalidade

    Morrone compõe Rachel como alguém eternamente em estado de alerta. Nos dois primeiros episódios, a protagonista oscila entre pânico contido e tentativas de racionalizar os próprios medos. Quando o roteiro aponta para sangramentos repentinos e vislumbres de desgraça, a atriz evita o exagero e trabalha microexpressões — um tremor nos lábios, o olhar vagando pelo avião antes da turbulência emocional que antecede o encontro com Nicky.

    Esse cuidado sustenta a virada dramática da série: o momento em que a “noiva neurótica” revela ter razões muito concretas para o desespero. A performance se torna ainda mais valiosa depois da reviravolta, pois o público precisa sentir que cada sensação física experimentada pela personagem é real e, pior, inevitável.

    Victoria Pedretti se destaca ao expor a genealogia do medo

    Quando Ali surge em cena, interpretada por Victoria Pedretti, o roteiro amplia o alcance da tragédia. A personagem materna compartilha dos mesmos sangramentos e sonhos proféticos, reforçando a noção de que o terror é hereditário. Pedretti, que já explorou luto e assombração em outras produções, injeta uma energia inquietante na série: suas falas vêm carregadas de memórias que ela própria não compreende por completo.

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    O quarto episódio, responsável por revelar os dons premonitórios de Ali, torna-se um divisor de águas. Nele, a atriz navega entre a culpa por não ter protegido a filha e a urgência em explicar que o destino de Rachel pode ser pior do que qualquer crise de ansiedade.

    Esse elo entre mãe e filha também fundamenta a progressão dramática. A capacidade de enxergar passagens da própria linha do tempo — para frente ou para trás — confere dimensão épica à maldição e prepara terreno para a tensão no altar.

    Haley Z. Boston une suspense íntimo e espetáculo sobrenatural

    O texto de Haley Z. Boston evita explicar demais. Ao invés disso, a roteirista deixa que frases partidas e imagens recorrentes (o logo da Coldies, por exemplo) plantem dúvidas até o espectador juntar as peças. A decisão de conceber a obra como minissérie favorece a construção gradativa do medo; cada episódio adiciona mais um sintoma, mais um mau presságio, até o estopim sanguinolento do casamento.

    CRÍTICA | Algo Muito Ruim Vai Acontecer explora maldição familiar com doses certeiras de paranormalidade - Imagem do artigo original

    Imagem: Divulgação

    Nos bastidores, a presença dos irmãos Duffer garante familiaridade com o terror de atmosfera, algo que quem acompanha Salada de Cinema já percebeu ao destacar a mescla de subgêneros. Aqui, o trio investe pesado na convergência entre paranoia e paranormalidade, criando momentos em que a realidade parece reverberar a própria maldição.

    Adam DiMarco muda o jogo ao encarnar o noivo enigmático

    Conhecido por papéis mais leves, Adam DiMarco surpreende como Nicky, candidato a marido perfeito que, aos poucos, revela falhas perigosas. A interpretação transita entre simpatia e comportamento dúbio, deixando o público tão confuso quanto Rachel sobre quem realmente ameaça sua vida.

    A aura sombria ganha força em cenas de convivência com a família do noivo, quando gestos sutis — uma pausa antes de brindar, um sorriso fora de hora — ressaltam que há algo fora do lugar. O terror, portanto, não provém apenas de visões sobrenaturais, mas também da incerteza sobre quem é cúmplice da morte anunciada.

    Vale a pena assistir?

    Algo Muito Ruim Vai Acontecer cumpre o que promete ao integrar destino trágico, tensão doméstica e faíscas de necromancia. As atuações de Camila Morrone e Victoria Pedretti dão peso emocional à mitologia do roteiro, enquanto a direção mantém câmera e som colados aos sintomas físicos das personagens, aumentando a imersão.

    Sem revelar além do indispensável, Haley Z. Boston cria um terreno fértil para teorias, e a janela aberta para uma segunda temporada antológica acena para novas maldições. Se o espectador procura terror que vai além do susto fácil e prefere mergulhar em presságios que sangram, a minissérie entrega uma experiência consistente, com direito a casamento que ninguém em sã consciência gostaria de comparecer.

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    Thais Bentlin
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    Sou formada em Marketing Digital e criadora de conteúdo para web, com especialização no nicho de entretenimento. Trabalho desde 2021 combinando estratégias de marketing com a criação de conteúdo criativo. Minha fluência em inglês me permite acompanhar e desenvolver materiais baseados em tendências globais do setor.

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