Quem acompanhou Jessica Rothe desde A Morte Te Dá Parabéns talvez estranhe a pausa de quase uma década da atriz no gênero. Imposters, exibido pela primeira vez no SXSW em 15 de março, marca essa volta com um roteiro afiado e um set que a própria equipe descreve como “150 % mal-assombrado”.
Caleb J. Phillips faz sua estreia em longas escrevendo e dirigindo o thriller, e contou com um elenco enxuto: Charlie Barnett vive o marido Paul; Yul Vazquez, recém-saído de Severance, surge em um papel enigmático. A seguir, analisamos como esses elementos se combinam para entregar um terror de câmera próxima, quase doméstico, mas carregado de tensão.
Jessica Rothe conduz a narrativa com camadas de vulnerabilidade e fúria
Rothe interpreta Marie, mãe que tem o bebê arrancado de casa e, depois, traz a criança de volta após entrar em uma caverna “mágica”. A atriz alterna desespero, ternura e algo que beira o sobrenatural, modulando pequenos sorrisos e olhares vazios que gelam a espinha. Essa ambiguidade sustenta o mistério: estamos vendo uma mãe obstinada ou algo possuído?
Desde La La Land, passando pelo timeloop sangrento de Tree, Rothe sempre mostrou boa leitura de tom. Em Imposters, ela refina a técnica: seu silêncio diz mais que os diálogos, e cada microexpressão parece calculada para semear dúvida no espectador, tal qual Charleston Heston em filmes clássicos de paranoia.
A química entre Charlie Barnett e Yul Vazquez intensifica o jogo psicológico
Barnett assume o ponto de vista do público: Paul observa mudanças no comportamento de esposa e filho e começa a registrar mentiras. A performance do ator evita o estereótipo de “marido incrédulo” — ele mistura carinho genuíno e pânico contido, criando empatia imediata.
Já Yul Vazquez surge como figura de autoridade que paira sobre a trama. Phillips o escolheu depois de vê-lo em Severance justamente por essa presença dupla: tranquilizadora e ameaçadora. O resultado são cenas em que o simples timbre de voz de Vazquez desestabiliza Barnett, levando o roteiro a direções “selvagens”, como definiu Rothe em entrevistas.
Direção de estreia aposta em ritmo elástico e roteiro cheio de armadilhas
Caleb J. Phillips escreve e dirige como quem quer mostrar serviço — às vezes até demais. Ele alonga cenas domésticas para, de repente, disparar cortes rápidos e visões fugazes da floresta. Isso causa estranhamento proposital, lembrando recentes filmes independentes de terror minimalista, como Hokum comentado aqui no Salada de Cinema.
Imagem: Divulgação
No roteiro, Phillips planta “easter eggs” que prometem segunda sessão mais rica: detalhes de parede, objetos deslocados e falas em eco que ganham novo sentido ao fim. Paira a sensação de fábula sombria sobre maternidade e identidade, mas o texto evita moralismos e prefere o enigma.
Casarão de 1800 e filmagem sem trilhos reforçam sensação de desajuste
As gravações ocorreram em Marlborough, arredores de Boston, durante o outono. O pequeno time levava donuts com cidra de maçã para o set, porém o clima bucólico parava na porta da locação principal. Construído no século XIX, o casarão não possuía piso nivelado; por isso, a equipe aboliu o uso de dolly, filmando tudo na mão ou com tripés improvisados.
A decisão trouxe textura tremida e desconfortável, reforçando a desordem mental de Paul. Rothe revelou que, na penúltima noite, parte do grupo realizou uma sessão espírita: quadros teriam se mexido sozinhos. Nada disso entrou na tela, mas certamente contaminou as interpretações — e rende boa história de bastidor, digna de bate-papo com veteranas do horror como Barbara Crampton, que sonha ser a “Betty White do terror”.
Vale a pena assistir a Imposters?
Imposters entrega 102 minutos de tensão crescente, apoiados em atuações precisas e numa direção que sabe esconder mais do que mostra. O filme não reinventa o gênero, mas revive temas clássicos — a troca de entes queridos, a casa mal-assombrada — com frescor visual e narrativa esperta. Para quem curte terror intimista, com performances que seguram o olhar até o último frame, a sessão é praticamente obrigatória.









