“Pense positivo e o universo conspirará a seu favor”. Agora imagine o contrário: um mau humor capaz de provocar terremotos e falir bolsas de valores. Esse é o ponto de partida de Pensamento Mágico (Wishful Thinking), estreia de Graham Parkes que mistura romance, ficção científica e comédia de nervos abalados.
O longa, exibido pela primeira vez no SXSW Film & TV Festival de 2026, ganhou elogios imediatos à química entre Lewis Pullman e Maya Hawke. A proposta soa leve, mas Parkes injeta veneno ao adaptar livremente as ideias de “O Segredo”, fenômeno de autoajuda alavancado por Oprah Winfrey há duas décadas.
Premissa ousada transforma autoajuda em ameaça global
No roteiro, escrito pelo próprio Parkes, o casal Charlie e Julie tenta salvar um relacionamento em frangalhos. A solução parece vir de um retiro conduzido pelas gêmeas Tilly (Kate Berlant), especialistas em “trabalho de energia”. Contudo, cada oscilação emocional dos dois repercute no planeta: um beijo alinha mercados, uma briga derruba aviões imaginários.
A combinação de catástrofe e romance rende situações ora cômicas, ora assustadoras. O diretor explora a ironia de tratar o “poder do pensamento” como bomba-relógio, lembrando que sentimentos incontroláveis fazem parte da experiência humana. A sátira fica evidente quando o retiro, repleto de tapetes floridos e incensos, vira centro de um caos cósmico.
A química entre Lewis Pullman e Maya Hawke segura o fio emocional
Boa parte do encanto de Pensamento Mágico vem da sintonia entre Pullman e Hawke. Ele, acostumado a papéis de piloto confiante em Top Gun: Maverick, surge aqui vulnerável, alternando encanto e frustração com naturalidade. Ela, estrela de Stranger Things, entrega olhares que atravessam a tela e expõem o lado ansioso da personagem.
Quando a narrativa exige mudanças bruscas — paixão em um minuto, destruição no seguinte — os dois mantêm consistência. O “efeito chicote” destacado por críticos estrangeiros se confirma: cada discussão do casal parece carregar peso sísmico, mas também um humor involuntário que provoca risos nervosos na plateia.
Essa dinâmica lembra o impacto de duplas como a vista em Ready or Not 2, em que afeto e conflito andam lado a lado. Pullman e Hawke fazem do desgaste amoroso uma sucessão de microexplosões dramáticas que sustentam o segundo ato, evitando que o conceito se torne repetitivo.
Graham Parkes estreia na direção com pulso firme e ideias claras
Parkes assume risco considerável ao comandar seu primeiro longa com material tão tonalmente instável. Ele conduz a história em ritmo ágil — são 105 minutos sem sobras — e aposta em corte seco entre momentos de afeto e imagens de calamidade mundial. O choque funciona graças a uma montagem que contradiz o discurso místico de “equilíbrio” defendido no retiro.
Imagem: Divulgação
A fotografia prefere cores quentes dentro do spa e tons frios quando o planeta reage, reforçando a separação entre “micro” e “macro”. A trilha sonora acompanha o descompasso do casal, misturando batidas eletrônicas suaves e ruídos distorcidos, quase como um barômetro emocional.
O diretor também se apoia em coadjuvantes bem escalados. Kate Berlant, dividindo-se em duas como as enigmáticas Tillies, injeta dose de excentricidade que remete ao humor metalinguístico de obras comentadas no Salada de Cinema, como Hokum. Já Randall Park e Eric Rahill surgem pontualmente para aliviar a tensão sem diluir a estranheza geral.
Humor negro, romance sincero e sci-fi minimalista em harmonia tensa
Embora categorizar Pensamento Mágico seja tarefa árdua, Parkes encontra equilíbrio entre gêneros. O humor, longe de piadas fáceis, nasce do desespero: gargalhamos não porque é engraçado ver um mercado financeiro ruir, mas porque a alternativa seria entrar em pânico. Esse choque de sensações mantém o público alerta.
O romance serve de bússola emocional. Quando o roteiro parece se perder em teorias de vibração quântica, Pullman e Hawke ancoram a trama no palpável — beijos, gritos, mágoas antigas. Funciona como lembrete de que até as ideias grandiosas giram em torno de duas pessoas tentando se entender.
Já a ficção científica surge de forma contida. Não há raios laser nem naves espaciais; o fantástico está nos resultados desproporcionais de sentimentos banais. Essa abordagem minimalista aproxima o filme de produções que transformam premissas simples em terror ou suspense, como os quadrinhos de A Quiet Place: Storm Warning, onde o silêncio vira arma.
Vale a pena assistir?
Pensamento Mágico é experiência curiosa: ao mesmo tempo que diverte, cutuca inseguranças sobre controle emocional. O elenco encabeçado por Lewis Pullman e Maya Hawke sustenta a brincadeira até o fim, enquanto Graham Parkes demonstra personalidade logo na primeira direção. Para quem busca romance com sabor de catástrofe e humor sombrio, o ingresso vale cada centavo.









