“Undertone” chega aos cinemas brasileiros cercado de curiosidade. O terror da A24, que conquistou 77% de aprovação no Rotten Tomatoes após a estreia no Festival de Fantasia de 2025, aposta numa experiência guiada pelo som para perturbar o público.
Em conversa recente com o diretor estreante Ian Tuason, a protagonista Nina Kiri e o coadjuvante Adam DiMarco explicaram ao Salada de Cinema como o formato minimalista de gravação — com pouquíssimos rostos em cena e ênfase total nas vozes — transformou a rotina de filmagem e exigiu nova abordagem de atuação.
Formato de filmagem centrado em áudio eleva a atuação
Diferente da maioria dos longas de gênero, “Undertone” concentra todos os diálogos presenciais na personagem Evy, vivida por Nina Kiri. A mãe da protagonista aparece, mas não tem falas, reforçando o sentimento de isolamento que permeia a narrativa.
Para sustentar o clima, Tuason gravou grande parte das cenas com equipe reduzida e dispositivos simples. As gravações de ruídos sobrenaturais — ponto-chave da trama — foram captadas em um iPhone, enquanto os atores percorriam corredores de madrugada, buscando naturalidade. O resultado, segundo o cineasta, foi um material “cru”, que soa como se tivesse sido enviado diretamente ao espectador.
Nina Kiri sustenta o drama praticamente sozinha
Conhecida por “The Handmaid’s Tale”, Kiri encarou o desafio de carregar o filme sem parceiros de cena para contracenar. Ela revelou ter ficado “preocupada com as questões técnicas” no início, temendo não conseguir memorizar todo o texto. A preparação incluiu extensas trocas com Tuason sobre a origem de Evy, seus traumas e a relação com a mãe.
Com o set quase vazio, a atriz descreve que “o ciclo de energia” recaía sobre ela. Para manter a intensidade, chegou a buscar conexão visual com membros da equipe, numa tentativa de sentir alguma resposta humana. O método funcionou: a performance traduz a solidão da podcaster que se enfurna em gravações paranormais enquanto lida com a iminente perda materna.
Adam DiMarco reforça o suspense apenas com a voz
Se Kiri domina a tela, Adam DiMarco (de “Overcompensating”) constrói tensão fora dela. Seu personagem, Justin, conversa com Evy por telefone enquanto produzem o podcast “Undertone”. Apesar de não aparecer, DiMarco foi ao set por alguns dias e gravou falas no antigo quarto de adolescência do diretor, equipado com microfone, dois laptops e uma iluminação vermelha suave para inserir o ator no clima.
Imagem: Divulgação
DiMarco contou que adiou a audição dos dez arquivos misteriosos enviados aos protagonistas até o momento da primeira tomada, garantindo reação genuína. Ele descreveu os sons como “texturizados” e “assustadoramente reais”. Essa decisão colaborou para que a química sonora entre Justin e Evy parecesse espontânea, mesmo que a dupla estivesse fisicamente separada.
Direção de Ian Tuason aposta em intimidade e economia
Primeiro longa de Tuason, “Undertone” se inspira de creepypastas a “Vila Sésamo” para combinar inocência infantil e horror visceral. Com apenas 84 minutos, o diretor concentra a história em ambientes domésticos, limitando-se a dois intérpretes com presença efetiva. A opção reduz custos e, principalmente, amplia o impacto de cada ruído — eco de passos, sussurros gravados ou o som seco da respiração da mãe debilitada.
O realizador descreve que toda a equipe “compartilhou o fardo” de manter a atmosfera. Dessa forma, mesmo quem operava a iluminação ou segurava o boom ocasionalmente servia de “ponto de contato” para Kiri durante tomadas longas. A colaboração coletiva sustentou o ritmo claustrofóbico que define o filme.
Vale a pena assistir “Undertone”?
Com um elenco mínimo liderado por Nina Kiri, a participação vocal de Adam DiMarco e direção focada em som, “Undertone” oferece uma experiência diferente dentro do terror contemporâneo. A recepção positiva no festival e a certificação “Fresh” indicam que a proposta agradou parte da crítica. Quem busca uma narrativa curta, centrada em atmosfera e atuações intimistas, pode encontrar aqui um exemplar curioso da A24, na linha de produções de elenco restrito como o futuro remake “Single Female” estrelado por Jenna Ortega.









