Adaptar um best-seller de suspense costuma significar colocar a reviravolta à frente de tudo. Imperfect Women, nova série da Apple TV baseada no livro de Araminta Hall, escolhe outro caminho e foca na intimidade de suas protagonistas. A morte de Nancy, interpretada por Kate Mara, até abre o enredo, porém logo se percebe que a investigação é só pano de fundo para discutir amizade, culpa e expectativas sociais.
Dirigida por Lesli Linka Glatter e criada por Annie Weisman, a atração reúne um elenco repleto de vencedores de Emmy. Kerry Washington, Elisabeth Moss e a própria Mara lideram a produção, enquanto nomes como Joel Kinnaman, Corey Stoll e Sheryl Lee Ralph completam o grupo. Com tanta estrela, o Salada de Cinema foi conferir se a série faz jus ao time de peso.
Elenco principal sustenta a trama mesmo quando o roteiro se repete
A narrativa adota estrutura em blocos: dois episódios sob o olhar de Eleanor (Washington), depois o passado de Nancy pela perspectiva dela mesma e, por fim, o arco de Mary (Moss). A estratégia garante espaço igual para que cada atriz desenvolva nuanças distintas, e o resultado é o maior trunfo de Imperfect Women.
Washington volta ao território da alta sociedade que marcou Scandal, mas desta vez seu poder é interno. A intérprete de Eleanor dosifica ambição profissional, lealdade familiar e um ressentimento silencioso em cena, especialmente nas sequências que dividem tela com Joel Kinnaman, aqui vivendo Robert, o viúvo pressionado por dois clãs endinheirados.
Elisabeth Moss assume o bastão na reta final, e o tom muda: Mary é a clássica dona de casa subestimada, mas Moss injeta desconforto e frustração que nunca viram caricatura. Já Kate Mara, presente sobretudo em flashbacks, emana vulnerabilidade suficiente para que o espectador lamente sua perda apesar de conhecer seu destino desde o piloto.
Temas femininos eclipsam a pergunta “quem matou?”
Logo no terceiro episódio, as pistas apontam para uma solução óbvia do assassinato, e a série não faz esforço para despistar o público. Em vez disso, o texto mergulha em micromachismos que cercam as três amigas: o menosprezo dos maridos, o trabalho invisível de Mary em casa, a cobrança por Eleanor ser “mulher demais” no escritório e socialite de menos entre os poderosos.
Esses tópicos se conectam a outros dramas recentes sobre mulheres ricas em perigo, como o trabalho de Nicole Kidman em Scarpetta, mas Imperfect Women evita glamourizar o sofrimento. A câmera de Glatter prefere closes que revelam pequenas fissuras: um sorriso ensaiado de Nancy numa festa, o olhar exausto de Mary ao recolher brinquedos, ou a postura rígida de Eleanor diante do próprio irmão, vivido por Leslie Odom Jr.
Coadjuvantes irregulares deixam pontas soltas
Se o trio central recebe toda a atenção, parte do elenco de apoio desaparece sem explicação convincente. Donovan, irmão de Eleanor, surge como potencial aliado, mas some quando a narrativa assume o ponto de vista de Nancy. O mesmo ocorre com Cora, filha do casal protagonista: apresentada como peça-chave no luto do pai, a adolescente quase não volta a ser mencionada.
Imagem: Apple TV
Por outro lado, a curta participação de Sheryl Lee Ralph eleva o nível da produção. Em meras duas cenas, a veterana entrega os diálogos mais emocionantes da temporada e conduz Kerry Washington a um clímax que encerra o arco de Eleanor com coesão. É um lembrete da força de atuações bem encaixadas, mesmo quando o texto não distribui oportunidades iguais a todos.
Direção segura e clima de maratona favorecem o público
Imperfect Women estreou com dois capítulos e adota esquema semanal. A divisão em blocos, porém, funciona melhor em maratona: assistir de forma contínua realça a mudança de perspectiva e diminui a sensação de que as pistas são recicladas. Assistir aos oito episódios em três noites — uma para cada personagem — entrega ritmo mais fluido e reforça o caráter de estudo psicológico.
Lesli Linka Glatter mantém a tensão através de cliffhangers eficientes, embora nenhum atinja o choque de Big Little Lies. A fotografia aposta em tons frios para os corredores de mansões e escritórios, contrastando com flashbacks banhados por filtros quentes que sinalizam memórias seletivas de Nancy. O conjunto cria unidade estética, mas sem reinventar o gênero.
Vale a pena assistir a Imperfect Women?
Quem busca atuação de alto nível encontrará material de sobra. Washington, Moss e Mara seguram a tela com carisma e profundidade, enquanto Sheryl Lee Ralph rouba a cena ao chegar. O mistério do assassinato, embora previsível, serve como gatilho para refletir sobre amizade, privilégio e o peso do patriarcado na vida dessas mulheres.
No saldo, Imperfect Women não revoluciona o thriller televisivo, porém oferece oito horas de entretenimento sólido, ideal para um fim de semana de maratona. Se você ainda sente falta de séries sobre segredos em condomínios de luxo, a produção da Apple TV pode preencher o vazio — desde que o espectador aceite que o verdadeiro alvo aqui não é descobrir o culpado, e sim entender as rachaduras deixadas pela tragédia.



