O universo de Game of Thrones parecia ter chegado ao fim quando a oitava temporada frustrou boa parte do público. Três produções depois, a HBO prova que ainda sabe dominar a fantasia televisiva.
Nesta crítica, observamos o desempenho do elenco, a mão dos diretores e a evolução narrativa que transformou a franquia em case de reinvenção. Tudo sem spoilers drásticos, mas com números e comparações que ajudam a entender o momento atual da saga.
Game of Thrones: o apogeu e a queda que abriu espaço para mudanças
Quando estreou em 2011, Game of Thrones colocou a HBO no centro das discussões sobre dramaturgia de alto orçamento. As quatro primeiras temporadas combinaram política, violência e personagens complexos, alçando nomes como Peter Dinklage e Lena Headey ao status de astros premiados.
A derrocada veio na reta final. A sétima e, principalmente, a oitava temporada aceleraram tramas, reduziram arcos e entregaram um desfecho que não fez jus à construção anterior. Métricas comprovam o tropeço: no Rotten Tomatoes, a audiência deu 55% para a oitava temporada, enquanto a crítica ficou em 30%. No IMDb, a média dos episódios caiu para 6,4/10.
Responsáveis pelo roteiro, David Benioff e D. B. Weiss sofreram críticas pelo ritmo apressado e pela simplificação do texto de George R. R. Martin. Esse baque virou catalisador para que a emissora repensasse a franquia.
House of the Dragon: direção afiada e elenco rejuvenescido
Lançada como prelúdio, House of the Dragon chegou em 2022 com Ryan Condal no comando do roteiro e Miguel Sapochnik dividindo a direção da primeira temporada. A estratégia foi clara: voltar às raízes políticas, mergulhar em diálogos densos e apostar em um elenco menos conhecido, porém versátil.
Emma D’Arcy e Olivia Cooke interpretam Rhaenyra e Alicent em momentos distintos de suas vidas, sustentando tensão dramática em cada olhar. Matt Smith, vivido antes pela cultura pop como o Doctor Who, entrega um Daemon Targaryen carismático e imprevisível. Essa combinação resultou em 90% de aprovação do público e 82% da crítica no Rotten Tomatoes, além de 8,7/10 no IMDb – clara recuperação em relação ao fim de Game of Thrones.
O texto volta a respeitar a complexidade política de Westeros, algo que lembra a precisão cirúrgica que fez séries médicas como Scrubs Reboot equilibrar nostalgia e renovação. A fotografia escura — desta vez mais bem calibrada — e as batalhas pontuais reforçam a sensação de perigo constante sem sacrificar o desenvolvimento dos personagens.
No entanto, a segunda temporada enfrentou cortes orçamentários e passou de dez para oito episódios. A decisão afetou o ritmo: muitas peças foram posicionadas, mas poucas se moveram, gerando sensação de preparação prolongada. Esse contratempo reacendeu o debate sobre a importância de planejamento a longo prazo.
Imagem: Divulgação
A Knight of the Seven Kingdoms: intimismo que devolve o coração à saga
A saída encontrada pela HBO para retornar ao topo foi adaptar “Dunk & Egg”, histórias curtas de Martin ambientadas um século antes da Guerra dos Tronos. A Knight of the Seven Kingdoms opta por um tom menor, quase bucólico, focando na amizade entre Sor Duncan, o Alto, e o jovem Egg.
Ao contrário do espetáculo grandioso das séries anteriores, aqui a força está no texto contido e na química entre os protagonistas. A fidelidade à obra original evita polêmicas de mudança de rota e permite que as camadas emocionais apareçam sem pressa. O resultado? Novo pico de aclamação crítica, reaproximando fãs que ainda lamentavam o final apressado da série-mãe.
Aposta certeira dos diretores, a escolha de cenários externos diurnos traz leveza visual e reforça o tom aventureiro. Esse cuidado lembra o que David Chase fez ao retornar à TV com Project: MKUltra, privilegiando estética para sustentar narrativa.
Terceira temporada de House of the Dragon: pressão máxima para manter a curva ascendente
A dúvida agora gira em torno de como House of the Dragon voltará ao patamar da estreia. O trailer da terceira temporada sinaliza batalhas aéreas mais ambiciosas, mas a tensão nos bastidores, após o distanciamento entre Ryan Condal e George R. R. Martin, coloca holofotes sobre a sala de roteiristas.
Em termos de elenco, a série mantém sua espinha dorsal: Emma D’Arcy, Olivia Cooke e Matt Smith. A continuidade dos atores ajuda a preservar coerência emocional, algo que faltou no passado recente da franquia. Se a produção conseguir equilibrar cenas de impacto com diálogos afiados, há chance de repetir a façanha de outras obras que renasceram em temporadas posteriores, como demonstrou a série de pirataria analisada em Black Sails.
Por fim, a HBO sabe que o público de plataformas rivais, acostumado a sucessos como Stranger Things e Andor, espera envolvimento emocional rápido. A franquia Game of Thrones, porém, sempre se destacou justamente pela construção lenta, rica em sutilezas. Ajustar essa balança sem perder identidade será o grande desafio.
Vale a pena maratonar?
Se você abandonou Westeros após o final conturbado de 2019, os atuais spin-offs oferecem motivo legítimo para voltar. House of the Dragon resgatou intriga e atuação de alto nível, enquanto A Knight of the Seven Kingdoms devolveu charme e calor humano à franquia. No Salada de Cinema, seguimos atentos à terceira leva de episódios — e, se a curva de melhoria se mantiver, o universo criado por George R. R. Martin ainda tem fôlego para surpresas dignas do Trono de Ferro.



