A adaptação de Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) chegou aos cinemas dividindo opiniões logo nos primeiros segundos. A diretora exibe um enforcamento em plena praça pública enquanto curiosos se distraem com uma reação física involuntária do condenado — cena pensada, segundo ela, para escancarar a mistura de tesão e perigo que alimenta todo romance gótico.
O Salada de Cinema conferiu a produção de 136 minutos, classificada para maiores de 18 anos, e analisa como a ousadia visual se conecta às interpretações de Margot Robbie e Jacob Elordi, ao texto de Fennell e ao desempenho nas bilheterias.
Abertura impactante estabelece o tom do novo Wuthering Heights
Emerald Fennell defende que “os primeiros momentos de um filme precisam dizer ao público o que ele é”. Ao colocar um corpo balançando na forca enquanto a multidão reage de forma ambígua, a diretora avisa que seu Wuthering Heights não é decorativo nem romântico no sentido convencional. É um romance “profundamente sentido”, mas também “surpreendente, estranhamente engraçado e muito mais sombrio do que se imagina” — palavras dela em entrevista ao USA Today.
A escolha revela, ainda, a protagonista Cathy (Robbie). A jovem, primeiro assustada, logo se mostra fascinada pelo espetáculo mórbido, indício de uma personalidade que não separa prazer de perigo. O gesto também ecoa Emily Brontë, lembrando ao espectador que a Inglaterra do século XIX era tudo, menos perfumada e amena.
Atuações: Margot Robbie e Jacob Elordi no centro do furacão
Como Cathy Earnshaw, Margot Robbie abraça a dualidade da heroína original: inocente e cruel, vulnerável e sedutora. Sua reação quase infantil ao enforcamento é o prenúncio de um desempenho que oscila entre a ternura e o sadismo. Robbie evita gestos grandiloquentes; prefere detalhes — um olhar prolongado, um sorriso contido — para expor a voltagem erótica que Fennell queria.
Jacob Elordi, de volta a uma parceria com a diretora depois de Saltburn, assume Heathcliff e troca o ar espectral de versões anteriores por magnetismo físico. A química com Robbie é imediata, mas a dupla sofre resistência de parte dos fãs do livro, que criticam tanto o elenco quanto as liberdades do roteiro. Ainda assim, a combinação de carisma e perigo que Elordi exibe reforça a tese de Fennell: desejo e destruição andam juntos.
Direção de Emerald Fennell e escolhas de roteiro
Ao lado de Emily Brontë, creditada como coautora, Fennell adapta apenas a sensação do romance, não o enredo completo. Ela admite que preferiu priorizar a paixão central em detrimento de temas como luto, trauma familiar ou vingança. “Tudo o que pude fazer foi filmar algo que me fizesse sentir como o livro me faz sentir”, justificou.
A estratégia inclui alterar abertura e final. A conclusão em aberto, já debatida nas redes sociais, alimenta especulações sobre uma possível continuação que aborde capítulos suprimidos. Essa liberdade criativa aproxima a cineasta de Robert Eggers, mencionado como referência pela forma de atualizar material gótico sem medo do estranhamento.
Imagem: Cover s
Recepção do público, bilheteria e comparações
Controvérsia à parte, O Morro dos Ventos Uivantes estreou dominando as salas e empatou com a clássica versão de 1939 no Rotten Tomatoes, ambas com 85%. Os números do primeiro fim de semana refletem o interesse despertado pelo marketing provocativo e pelas credenciais de Fennell, já conhecida pela cena da banheira em Saltburn. De acordo com projeções recentes, a produção caminha para repetir a estabilidade de títulos como Solo Mio em suas segundas semanas.
Ao abordar erotismo, violência e humor negro, a diretora se distancia da estética “pastel” que costuma dominar dramas de época. O resultado tem sido comparado, pela crítica internacional, a uma espécie de Nosferatu contemporâneo: fotografia sombria, interpretações perturbadoras e um senso de humor que beira o incômodo.
Vale a pena assistir?
Para quem procura fidelidade literal ao texto de Brontë, a versão de Fennell pode soar herege. O roteiro abandona subtramas de vingança familiar e condensa décadas de rancor em trocas de olhares carregadas de eletricidade. Entretanto, justamente por condensar, o filme entrega uma leitura coesa da obsessão entre Cathy e Heathcliff, sustentada por atuações que não temem o ridículo nem o grotesco.
O uso de violência gráfica na abertura serve de bússola: se a cena te repele, o restante dificilmente agradará. Caso contrário, há recompensas na atmosfera úmida, na trilha que mistura piano minimalista e percussão soturna e nos closes que revelam microexpressões de desejo e culpa.
No fim, O Morro dos Ventos Uivantes assume o risco de chocar para falar de amor — uma aposta que, ao menos nos números de bilheteria e na recepção crítica inicial, mostra-se acertada.









