Quase uma década após seu último tiro, Justified ainda ecoa como referência quando o assunto são melhores faroestes de TV. A criação de Graham Yost, inspirada nos contos de Elmore Leonard, ergueu um padrão técnico e narrativo que continua a influenciar escritores, diretores e elencos.
Do desempenho magnético de Timothy Olyphant ao texto sarcástico que flerta com o noir, a série pavimentou um caminho que muitos tentam trilhar. A lista abaixo aponta dez títulos que, cada um à sua maneira, administram a herança deixada por Raylan Givens sem perder voz própria.
Justified: quando atuação, direção e roteiro andam lado a lado
Produzida entre 2010 e 2015, Justified somou 97% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes. Grande parte desse resultado vem do casamento entre a performance carismática de Olyphant e o texto cortante dos roteiristas. Sob a batuta de Yost, a série manteve ritmo enxuto e diálogos que parecem cuspir pólvora, ao mesmo tempo em que Walton Goggins roubava cada cena como o volátil Boyd Crowder.
A fotografia terrosa, dirigida com mão firme por Adam Arkin e Michael Dinner em momentos-chave, modernizou a estética de bangue-bangue, provando que o faroeste sobrevive quando respira dilemas contemporâneos. Por isso, qualquer produção que surja depois inevitavelmente será comparada à barreira técnica imposta por Justified.
Séries que seguem a trilha de Raylan Givens
Banshee (2013-2016) coloca Antony Starr no centro de um caos ainda mais visceral. O neozelandês cria um anti-herói magnético ao assumir a identidade do xerife Lucas Hood, e os roteiristas Jonathan Tropper e David Schickler não economizam violência gráfica. A direção alterna planos fechados nos interrogatórios com set pieces que lembram quadrinhos, entregando pura adrenalina sem sacrificar desenvolvimento de personagem.
No polo oposto, Yellowstone expande o faroeste para panoramas montanhosos. Kevin Costner encarna John Dutton com a autoridade de quem já venceu o Oscar, enquanto Taylor Sheridan combina diálogos minimalistas a uma câmera que privilegia o silêncio do vale. O resultado é um drama familiar que equilibra brutalidade e poesia visual.
Já Longmire (2012-2017) prefere queimar pólvora devagar. Robert Taylor incorpora o xerife Walt Longmire com olhar contido, reforçando nuances internas em vez de explosões. A parceria do protagonista com Henry Standing Bear, vivido por Lou Diamond Phillips, rende o tipo de química que mantém o espectador fisgado mesmo em episódios mais contemplativos.
Por fim, Dark Winds devolve protagonismo a personagens nativo-americanos, algo raríssimo no gênero. Baseada nos romances de Tony Hillerman e produzida por George R. R. Martin, a série entrega 100% de aprovação crítica graças à condução elegante de Chris Eyre e ao elenco predominantemente indígena. O faroeste ganha assim novas texturas sociopolíticas sem abrir mão do suspense investigativo.
Minisséries e filmes que expandem o gênero
A Netflix apostou em um faroeste de uma temporada com Godless. A criadora, Scott Frank, subverte o cânone ao apresentar uma cidade comandada por mulheres após acidente que dizimou os homens. Michelle Dockery e Merritt Wever seguram cada quadro com presença magnética, enquanto a direção de arte constrói um Velho Oeste arenoso, mas matriarcal. Quem aprecia produções concisas pode relembrar outras joias limitadas no artigo sobre minisséries que entregam atuações impecáveis.
Imagem: Divulgação
No cinema, os Coen Brothers mergulharam em textos pungentes. True Grit (2010) revisita Rooster Cogburn com Jeff Bridges, sem copiar John Wayne. Ethan e Joel Coen enfatizam a maturidade emocional do pistoleiro e deixam a jovem Mattie Ross, interpretada por Hailee Steinfeld, conduzir os dilemas morais. Humor seco, enquadramentos simétricos e trilha melancólica fazem o longa dialogar com a ironia presente em Justified.
Quentin Tarantino explode expectativas em Django Livre (2012). Christoph Waltz e Jamie Foxx travam duelo interpretativo enquanto o roteiro, coescrito por Tarantino, injeta comentários sobre escravidão no coração do faroeste. A fotografia saturada reforça a violência gráfica, mas o tom de fábula de vingança legitima cada disparo.
Numa toada ainda mais sombria, Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) eleva Anton Chigurh ao panteão dos vilões graças ao trabalho inquietante de Javier Bardem. Roger Deakins, na direção de fotografia, compõe desertos onde moralidade evapora. O minimalismo de diálogos serviu de inspiração para roteiristas que, mais tarde, escreveram episódios secos de Justified.
Clássicos que moldaram tudo
Não há estudo sério sobre melhores faroestes sem citar Gunsmoke. Com 20 temporadas (1955-1975), a saga de Marshal Dillon estabeleceu a equação drama + conflito moral que muitos roteiristas ainda copiam. Apesar do ritmo televisivo dos anos 1950, os roteiros conseguiam esboçar personagens ambíguos, algo que Justified aperfeiçoaria décadas depois.
Outra peça essencial é Deadwood. Antes de vestir o chapéu de Raylan, Timothy Olyphant viveu Seth Bullock com intensidade bruta. O texto de David Milch transformou palavrões em poesia shakespeariana, enquanto Ian McShane roubava a cena como Al Swearengen. A série influenciou a forma como produtores tratam vernáculo, ambientação suja e intriga política em faroestes modernos. Quem curte ver atores saindo da zona de conforto encontrará paralelos na matéria de Salada de Cinema sobre intérpretes que explodiram na TV antes de dominar Hollywood.
Vale a pena mergulhar nos melhores faroestes?
Para quem sente saudade do sarcasmo elegante de Raylan Givens, cada uma das obras listadas oferece doses diferentes de pólvora, filosofias morais e atuações memoráveis. Elas confirmam que o Velho Oeste ainda é terreno fértil para roteiristas criativos, diretores ousados e elencos dispostos a revisitar – ou reinventar – o duelo entre lei e caos.



