“Melania”, novo documentário de Brett Ratner sobre a ex-primeira-dama dos EUA, mal chegou aos cinemas e já ganhou reforço de 300 salas no circuito norte-americano. O movimento da Amazon MGM Studios veio logo depois do desempenho surpreendente de US$ 7 milhões no fim de semana de estreia, valor inédito para o gênero desde 2013.
A expansão coloca o longa em mais de 2 000 telas e amplia o debate: a narrativa comandada por Ratner merece mesmo toda essa atenção ou se apoia apenas na curiosidade em torno de Melania Trump? O Salada de Cinema mergulhou na produção para avaliar direção, roteiro e a participação dos próprios Trump diante das câmeras.
Documentário “Melania” quebra recordes de estreia
Lançado em 1 778 salas no dia 30 de janeiro, “Melania” superou expectativas iniciais de analistas e marcou a maior abertura para um documentário em 13 anos. Com isso, a produção se aproxima de títulos como “March of the Penguins” (US$ 77 milhões) e “Justin Bieber: Never Say Never” (US$ 73 milhões) na disputa pelo topo histórico.
O resultado animou a distribuidora, que investiu cerca de US$ 75 milhões somando aquisição e marketing. Segundo projeções internas, a meta é alcançar o break even em poucas semanas, impulsionada pela adição de novas sessões. A estratégia lembra o que aconteceu quando o documentário entrou no Top 10 imediato da Amazon, mas encontrou resistência da crítica.
Direção de Brett Ratner aposta em estilo publicitário
Conhecido por blockbusters como “Rush Hour”, Ratner troca a adrenalina da ação por um tratamento visual que lembra comerciais de perfume. A câmera passeia por arranha-céus espelhados, closes glamourosos e trilha sonora grandiosa, enquanto Melania surge sempre impecável. A estética elegante é inegável, mas levanta a pergunta: onde termina o cinema e começa o marketing?
O cineasta assume riscos ao evitar situações espontâneas. Todo enquadramento parece calculado para reforçar a “marca” Melania, o que pode explicar a percepção de alguns críticos de que o filme funciona como peça publicitária. A recusa em expor momentos menos polidos da família Trump dilui a tensão dramática e reduz o impacto de passagens que, no papel, prometiam bastidores inéditos da transição presidencial de 2025.
Ausência de profundidade no roteiro acende debate crítico
Escrito por Ratner ao lado de Marc Beckman, o roteiro cobre apenas os 20 dias que antecederam a posse de 2025. A escolha temporal é interessante, mas o texto raramente faz perguntas incômodas. Faltam vozes externas, especialistas ou mesmo opositores políticos que contextualizem as polêmicas da época. Em vez disso, predominam depoimentos elogiosos e frases que reforçam a narrativa de superação da protagonista.
O déficit de contrapontos resultou em apenas 8% de aprovação entre críticos no Rotten Tomatoes. Já o público aponta 99% de satisfação, dado que motivou suspeitas de manipulação. O próprio agregador negou uso de bots, conforme detalhado no artigo sobre a defesa da plataforma. O contraste evidencia uma rachadura entre expectativa popular e rigor jornalístico, algo frequente quando personalidades controversas ocupam o centro da narrativa.
Imagem: Divulgação
Recepção do público desafia avaliação da imprensa
Enquanto veículos especializados classificam o filme como “pomposo” e “superficial”, a plateia tem reagido com aplausos nas sessões lotadas. O fenômeno pode ser explicado pela curiosidade em ver a figura reclusa de Melania Trump no centro do palco — algo que nem mesmo a imprensa tradicional conseguiu durante o mandato do marido.
Outro elemento decisivo é o engajamento de eleitores do ex-presidente, que transformaram a ida ao cinema em ato de apoio político. Porém, o longa terá de se manter relevante contra concorrentes como o terror “Iron Lung”, cujo sucesso de bilheteria você confere neste levantamento. Além disso, o domingo de Super Bowl pode frear o crescimento da segunda semana.
Vale a pena assistir “Melania” nos cinemas?
Se o espectador busca uma investigação profunda sobre quem é Melania Trump, provavelmente sairá frustrado. O documentário entrega mais pose do que essência e raramente sai da zona de conforto. Ainda assim, o filme diverte quem aprecia fotografia luxuosa, trilha pop e acesso exclusivo aos bastidores da Casa Branca.
Donald Trump aparece como coadjuvante barulhento, contribuindo com frases de efeito que já se tornaram virais. Para fãs do casal, o material funciona como celebração; para curiosos, é chance de entender por que a ex-primeira-dama provoca fascínio mesmo quando quase não fala. O retrato não é imparcial, mas expõe, sem querer, o poder da construção de imagem em tempos de redes sociais.
No fim, “Melania” vale o ingresso por oferecer um registro visualmente impecável de um capítulo específico da política norte-americana, embora falte coragem para questionar sua protagonista. Quem assistir com olhar crítico perceberá mais o que foi deixado de fora do que o que foi colocado em tela — e essa ausência, por si só, já diz muita coisa.









