My Hero Academia construiu um universo abarrotado de heróis e vilões, mas nem todos receberam o mesmo cuidado na hora de brilhar em tela. Quando o mangaká Kohei Horikoshi acelerou rumo ao arco final, vários coadjuvantes deixaram de ter voz — literalmente — apesar do potencial dramático que carregavam.
Salada de Cinema revisita esses nomes, avaliando como a direção de Kenji Nagasaki, o roteiro de Yōsuke Kuroda e o elenco de dublagem entregaram (ou não) performances marcantes. A seguir, mergulhamos nos bastidores para entender por que esses personagens parecem ter sido esquecidos, mesmo com atores talentosos prontos para roubarem a cena.
A força das vozes que ficaram sem roteiro
Ryuko Tatsuma, a heroína dragão, conta com a interpretação firme de Yūko Sanpei na versão original. A dubladora domina a transição entre a humildade quase tímida da forma humana e o rugido confiante do dragão. O problema não é a atuação, e sim a escassez de falas relevantes. Após o arco Shie Hassaikai, Ryuko passa a servir de “transporte blindado” para outros heróis, deixando o timbre poderoso de Sanpei praticamente subutilizado.
Inasa Yoarashi sofre desfecho parecido. Nobuhiko Okamoto, que já dá vida a Bakugo, empresta tons exuberantes ao estudante de Shiketsu. Quando o roteiro limita Inasa a rajadas de vento ocasionais, aquilo que seria um show de carisma vira pontuação visual sem desenvolvimento verbal. A sensação é a de ter uma Ferrari no estacionamento e optar por caminhar.
Momo Yaoyorozu talvez represente o caso mais doloroso. Marina Inoue equilibra genialidade e fragilidade em cada inflexão de voz, mas o roteiro a transforma em fornecedora de escudos nos momentos críticos. A atriz entrega a insegurança intelectual da jovem prodígio, porém a direção prefere focar nos canhões criados a toque de caixa em vez do conflito interno de Momo.
Esses exemplos escancaram o hiato entre o que o elenco de voz oferece e o que o texto concede. Há talento sobrando, faltam páginas de script.
Direção e ritmo: quando o foco sai de cena
O estúdio Bones é conhecido por coreografias fluidas, e Kenji Nagasaki garante dinamismo quando o assunto é Deku ou Shigaraki. O ritmo, no entanto, vacila ao redistribuir tempo de tela para coadjuvantes. Tamaki Amajiki, por exemplo, tinha tudo para ganhar sequência própria após a exibição impecável no arco Overhaul. A transformação “Vast Hybrid” exibe animação caprichada, mas dura segundos; não há pausa para sentir o peso do esforço físico nem captar as nuances de Takuya Eguchi na dublagem.
A escolha de enquadramento também influencia. Gentle Criminal surge em plano-conjunto durante a guerra final, reduzido a peça de cenário que sustenta a fortaleza flutuante. Com isso, a direção perde chance de reforçar a expressividade sutil que Kōichi Yamadera confere ao personagem. Para quem aprecia a presença vocal do ator em obras como Cowboy Bebop, ver Gentle transformado em alicerce dói mais que soco de Nomu.
Ao privilegiar o macroconflito, a direção sacrifica cadência dramática. A série decide seguir caminho oposto ao que Jujutsu Kaisen faz em arcos como o “Culling Game”, onde eventualmente determinados coadjuvantes roubam o holofote. Em My Hero Academia, personagens robustos viram flashes de hype.
Imagem: Divulgação
Construção de roteiro e oportunidades perdidas
Kohei Horikoshi sabe criar traumas e aspirações densos, mas Yōsuke Kuroda, responsável pelos roteiros do anime, precisa selecionar o que cabe em 23 minutos de episódio. Essa limitação corta as histórias de Hitoshi Shinso e Eri quase pela metade. Shinso tem poder de virar qualquer embate com uma única palavra — e a voz calma de Wataru Hatano reforça essa ameaça velada. Mesmo assim, o personagem mal aparece no clímax, tornando a habilidade de brainwashing mero enfeite narrativo.
Eri, por sua vez, representa uma “caixa de Pandora” que poderia alterar linhas temporais inteiras. Suas cenas são musicalmente emotivas, graças à trilha de Yuki Hayashi, mas o roteiro decide mantê-la confinada na U.A., limitando a interação da jovem com o restante do elenco. A sensação de potencial desperdiçado lembra o que fãs de One Piece discutem sobre a possível despedida de Shanks, como analisa o artigo publicado aqui.
No campo dos vilões, Kai Chisaki (Overhaul) volta sem as mãos e sem plano. Kenjiro Tsuda entrega dualidade sinistra com voz baixa, mas a trama o converte em figura confusa que implora perdão. A chance de confrontar Shigaraki em debate filosófico — ciência contra caos — some em poucos quadros. Quando um antagonista com reviravolta tão forte vira figurante, o público questiona prioridades narrativas.
Impacto na experiência do público
Quando personagens bem-escritos recebem menos atenção que explosões climáticas, o risco é criar afastamento emocional. O espectador investe tempo em Ryuko, Inasa ou Suneater esperando clímax individual. Ao não entregar, a série provoca frustração que reverbera em fóruns e redes sociais.
Do ponto de vista de mercado, isso também significa desperdiçar possíveis spin-offs. Cada herói negligenciado poderia sustentar miniarcos, OVA ou até filmes, seguindo modelo já adotado em franquias como Demon Slayer, cuja expansão inclui vilões paralelos não enfrentados por Tanjiro, assunto debatido nesta matéria do site Salada de Cinema. My Hero Academia, contudo, resolve concentrar fichas em Deku x Shigaraki e abre mão de diversificar bilheteria.
Para o fã de dublagem, a perda é ainda maior. Nomes como Marina Inoue e Kenjiro Tsuda oferecem nuances que merecem minutos extras de tela. Quando o texto limita diálogos, a performance some junto, diminuindo o impacto geral da temporada.
Vale a pena continuar assistindo My Hero Academia?
Apesar dos deslizes, My Hero Academia segue referência em animação de batalhas e trilhas sonoras empolgantes. Quem busca ver a evolução dos protagonistas principais encontrará material de sobra. Contudo, aqueles que se afeiçoaram aos “personagens esquecidos de My Hero Academia” talvez sintam falta de desenvolvimento à altura da atuação de um elenco tão talentoso.



