Mercy ainda nem chegou oficialmente aos cinemas, mas já provocou um forte ruído na comunidade cinéfila. O novo thriller de ficção científica protagonizado por Chris Pratt e Rebecca Ferguson viu sua aprovação no Rotten Tomatoes cair de 33% para 17% depois da segunda leva de avaliações.
A recepção negativa não impediu a produção de manter projeção de estreia entre 10 e 13 milhões de dólares nos Estados Unidos. Mesmo assim, o burburinho em torno do filme — reforçado pelo orçamento de 60 milhões e pelo potencial de encerrar a hegemonia de Avatar: Fire and Ash no topo da bilheteria semanal — ganhou contornos de novela. No Salada de Cinema, reunimos os pontos que mais chamaram atenção nas críticas e destrinchamos atuação, direção e roteiro.
Queda de aprovação e impacto inicial
O ponto mais chamativo do momento é, sem dúvida, o termômetro do Rotten Tomatoes. Com base em 47 críticas, Mercy amarga 17% de aprovação, desempenho que o coloca entre os piores da carreira de Pratt e de Ferguson. A comparação lembra o que aconteceu recentemente com Retorno a Silent Hill, que estreou com 7% e virou sinônimo de decepção para os fãs de terror.
Nos textos especializados, a maior queixa recai sobre a suposta incoerência temática. Enquanto a trama vende a ideia de um protagonista lutando contra um sistema automatizado que o considera culpado, a execução mostraria simpatia excessiva pela inteligência artificial. O resultado, apontam alguns críticos, corrói qualquer discussão mais nuanceada sobre tecnologia e justiça criminal.
Chris Pratt encara o relógio e o peso dramático
Em Mercy, Chris Pratt dá vida ao detetive Chris Raven, acusado de assassinar a própria esposa e obrigado a provar inocência em apenas 90 minutos. É um conceito que remete a thrillers de tempo real, exigindo ritmo elevado e entrega física constante. Pratt, mais conhecido pela veia cômica em Guardiões da Galáxia e pela ação em Jurassic World, tenta aqui um registro mais sério.
Boa parte dos elogios — ainda que escassos — reconhece o esforço dramático do ator. Há menção frequente a um olhar desesperado e à forma como ele transmite cansaço à medida que o relógio avança. Por outro lado, muitas resenhas argumentam que o roteiro não dá espaço para profundidade emocional. As motivações do personagem seriam expostas rapidamente, sem tempo de digestão, o que reduz o impacto de cada reviravolta.
Curiosamente, essa dinâmica contrasta com a rota de colegas de gênero. Mark Wahlberg, por exemplo, prepara o retorno à ação em The Big Fix e costuma ter material que explora melhor o conflito interno. Em Mercy, Pratt vive um herói reativo, quase sempre empurrado pelo roteiro, e não pela própria vontade.
Rebecca Ferguson personifica a IA Maddox
O outro eixo dramático do filme é a juíza virtual Maddox, interpretada por Rebecca Ferguson. A atriz, elogiada em Duna e Missão: Impossível, passa a maior parte do tempo fora de cena, já que sua personagem é uma inteligência artificial que surge em telas e hologramas. Isso coloca sobre ela o desafio de atuar primordialmente com a voz, aplicando sutis variações de tom para indicar julgamento, ironia ou empatia.
Críticos que aprovaram o trabalho de Ferguson destacam um timbre controlado, frio na medida certa, capaz de provocar inquietação. A execução, porém, também recebeu ressalvas: alguns analistas apontam que a atriz, apesar do talento, fica engessada por diálogos expositivos que soam repetitivos. É como se Maddox alternasse frases de tribunal com chavões sobre algoritmos, tirando naturalidade da performance.
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Já a interação com Pratt, ponto alto potencial, não teria a sinergia esperada. Existe química pontual — sobretudo quando Raven desafia o sistema —, mas a montagem acelerada dilui momentos que poderiam ser tensos. Com isso, perde-se oportunidade de explorar em profundidade a crítica social sobre julgamentos virtuais, tema cada vez mais relevante.
Timur Bekmambetov acelera a ação e enfrenta o roteiro de Marco van Belle
Diretor de filmes como O Procurado e o remake de Ben-Hur, Timur Bekmambetov é conhecido por investir em estética hiperativa. Em Mercy, ele volta a apostar em telas múltiplas e cortes frenéticos, marca registrada que popularizou no thriller Zoom. O estilo funciona para criar urgência, mas parte da crítica enxerga um excesso de informação visual que atrapalha a compreensão da trama.
Já o roteiro de Marco van Belle apresenta estrutura de contar o tempo em contagem regressiva, lembrando séries como 24 Horas. A premissa não é necessariamente original, mas poderia render boa tensão se o texto amarrasse com mais solidez as motivações. Há questionamentos sobre a lógica interna: por que um sistema de IA concederia apenas 90 minutos? Como provas são analisadas em tempo real? O script até brinca com essas perguntas, mas evita respostas concretas, o que pode frustrar o espectador em busca de consistência.
Do ponto de vista de escala, Bekmambetov entrega um futuro distópico convincente no design de produção. Cenários minimalistas, hologramas flutuantes e uniformes táticos lembram videogames AAA. Ainda assim, sem protagonismo de personagens secundários — vividos por Annabelle Wallis e Kali Reis — o universo fica menos palpável, impedindo que o debate sobre justiça automatizada ganhe camadas.
Vale a pena assistir ao filme Mercy?
Mercy estreia em 23 de janeiro, com 100 minutos de duração e distribuição da Amazon MGM Studios. O baixo índice no Rotten Tomatoes não significa desastre garantido; muitas produções já reagiram melhor nas bilheterias do que nas planilhas de crítica. Quem aprecia experimentos visuais acelerados de Timur Bekmambetov, ou busca ver Chris Pratt em registro mais intenso, pode encontrar algum interesse. Da mesma forma, fãs de Rebecca Ferguson talvez queiram analisar a abordagem vocal da atriz.
No entanto, quem prioriza coesão temática e discussão aprofundada sobre inteligência artificial deve calibrar a expectativa. A obra aposta mais na adrenalina do ticking clock do que na complexidade moral do tema. Com bilheteria projetada para chegar aos oito dígitos logo na estreia, resta saber se o burburinho negativo influencia ou se a curiosidade do público — alimentada pela queda no Rotten Tomatoes — acabará impulsionando a venda de ingressos.
Independentemente do veredito final, Mercy alimenta o debate sobre a relação entre crítica especializada e sucesso comercial, tópico cada vez mais sensível no mercado. A partir de agora, cabe ao público decidir se a sentença da juíza Maddox ficará restrita às páginas de review ou se se estenderá ao julgamento das salas de cinema.









