A transição de Naruto para Boruto parecia, à primeira vista, um passo natural para manter viva a mitologia ninja. No entanto, parte do público não comprou a proposta e passou a questionar decisões de roteiro, direção e até o desenvolvimento vocal dos personagens.
Entre erros de tonificação, escolhas narrativas e características de personalidade mal recebidas, alguns nomes chamam a atenção por gerarem antipatia quase unânime. A seguir, o Salada de Cinema analisa como essas figuras foram construídas, sob o viés de performance (ainda que vocal), escrita e condução criativa.
O protagonista e o peso de carregar o legado
Quando a equipe criativa decidiu trocar Naruto Uzumaki pelo herdeiro Boruto Uzumaki, assumiu um desafio ingrato. O novo protagonista, considerado o oposto de seu pai em humildade e perseverança, surgiu como um adolescente que não precisava conquistar nada: poder, status e reconhecimento já estavam no colo dele. Essa construção, firmada no roteiro, tornou a atuação vocal naturalmente mais pedante, gerando comparações diretas com a jornada árdua de Naruto.
O resultado é um personagem que, por melhor que seja a dublagem, não escapa das críticas de fãs. Muitos alegam que o texto não oferece momentos de vulnerabilidade genuína, elementos essenciais para despertar empatia. Sem contar que a direção opta por enquadrá-lo sempre como centro das atenções, reforçando a ideia de que tudo gira em torno de sua vivência privilegiada.
Mentores apagados e expectativas frustradas
Konohamaru Sarutobi, antes rival juvenil de Naruto, chegou à nova série com a promessa de ser um jonin exemplar. O roteiro, entretanto, insiste em colocar o sensei em apuros que precisam ser resolvidos pelos próprios alunos. Na prática, a performance fica limitada a expressões de surpresa ou impotência, passando longe do carisma que Kakashi transmitirava em Naruto Shippuden.
Sem espaço para exibir evolução técnica ou emocional, Konohamaru parece um figurante de luxo. A direção de cenas reforça essa impressão ao enquadrá-lo como elo fraco do time, repetindo situações em que ele é derrotado para, apenas depois, ser salvo. O público sente que o personagem foi “nerfado” em prol de exaltar os novatos, e isso mina qualquer simpatia que ainda pudesse existir.
Anti-heróis e vilões sob escrita inconsistente
Kawaki Uzumaki entrou em cena como antítese trágica de Boruto, dotado de poderes brutais e histórico traumático. Parte dos fãs enxergou nele o potencial de anti-herói complexo, mas a narrativa rapidamente o transformou em figura incoerente: ora sensível, ora completamente impulsivo—ao ponto de assassinar Boruto e selar Naruto. Essas oscilações, reflexo direto do texto, comprometem a leitura de seu arco.
No quesito vilania, Code despontou como ameaça máxima após a queda de Isshiki Otsutsuki. Design estiloso, voz firme e planos ambiciosos davam esperança de antagonismo sólido. Porém, derrotas sucessivas e manipulações externas (por Eida, Daemon e afins) esvaziaram o impacto da atuação. O personagem passou de temível a peça descartável, sugerindo que direção e roteiristas não souberam dosar poder e vulnerabilidade.
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Secundários que potencializam a antipatia
O Conselho de Konoha, agora reduzido a Homura Mitokado e Koharu Utatane, insiste em decisões antiquadas que emperram qualquer trama de progresso. As vozes desses anciões carregam sempre o mesmo tom monótono de reprovação, o que cansa rapidamente. A falta de nuance na escrita faz com que o público torça mais pelo desaparecimento do duo do que por uma conversão de suas ideias.
O cientista Amado Sanzu sofre com o oposto: excesso de nuances mal explicadas. A cada episódio, ele retém informações cruciais, pairando entre aliado e inimigo. Embora a interpretação vocal tente equilibrar mistério e ironia, a sensação final é de saturação—o espectador se cansa de reviravoltas que nunca chegam a lugar algum.
Numa ponta ainda mais extrema, Mamushi, recém-chegado ao elenco, coleciona críticas por design considerado desagradável e postura pervertida. O uso constante do Rinnegan como mero enfeite aprofunda a decepção: o poder está lá, mas a direção ignora demonstrações robustas de suas habilidades.
Por fim, Denki representa a fatia “slice of life” tecnológica que muitos fãs rejeitam. Frágil em combate, o garoto protagoniza tramas sobre ferramentas ninja científicas, visto como deslocado em um shonen de ação. A dublagem até entrega ingenuidade convincente, mas o texto carece de cenas de superação que façam o público vibrar pelo personagem.
Vale a pena assistir Boruto apesar dos personagens mais odiados?
A presença dos personagens mais odiados de Boruto não impede que a produção ofereça momentos de animação empolgantes e lutas coreografadas com capricho. Contudo, a resposta sobre continuar ou não acompanhando a saga dependerá do nível de tolerância do espectador aos tropeços de escrita e às escolhas de direção que geram tanta resistência.









