Numa franquia famosa por transformar quase todo herói em um guerreiro de cabelos dourados, descobrir quais são os Saiyajins mais fortes que nunca chegaram ao estado Super Saiyajin rende um olhar curioso e, ao mesmo tempo, crítico. A lista envolve figuras centrais em longas-metragens, especiais de TV e no canon principal de Dragon Ball, todas com potencial considerável, mas que permaneceram “presas” à base.
A seguir, analisamos não só a força desses personagens, como também a abordagem dos diretores e roteiristas ao tratá-los em cada produção. O foco recai sobre atuações de voz, decisões narrativas e o impacto que esses “não-transformados” exercem nas histórias, ponto que chama a atenção do leitor do Salada de Cinema e de qualquer fã em busca de bons debates sobre Dragon Ball.
Paragus: ambição de pai e limites de poder
Em Dragon Ball Super: Broly, dirigido por Tatsuya Nagamine e roteirizado pelo próprio Akira Toriyama, Paragus surge como um ancião exaurido pela missão de controlar o filho. O dublador Toshiharu Sakurai (versão original) entrega uma interpretação que mistura cansaço, frieza calculada e uma pitada de desespero, qualidades que sustentam o drama familiar que move o longa. No Brasil, Márcio Simões reforça esse peso humano ao calibrar a voz para um tom paternal, mas autoritário.
Com poder de luta de 4.400 — ligeiramente superior ao de Nappa nos tempos de Vegeta na Terra — o personagem jamais alcança a transformação lendária. Ainda assim, sua presença catalisa todo o clímax do filme: Frieza assassina o velho guerreiro para provocar a ira de Broly. A cena ganha força justamente porque Paragus é frágil; a atuação de voz expressa surpresa e impotência, realçando a manipulação cruel do vilão. A direção de Nagamine opta por enquadramentos fechados, destacando rugas e olhos arregalados, solução que amplifica o momento.
Bardock: o herói trágico sem transformação
No especial Bardock: O Pai de Goku (1990) e, mais tarde, no arco de Granolah em Dragon Ball Super, o guerreiro de classe baixa permanece longe da forma Super. Em termos de bastidores, Akira Toriyama sempre retratou Bardock como alguém que bate no teto do próprio potencial — algo reforçado pelos roteiros de Takao Koyama na fase Z e de Toyotarou nos mangás recentes. Ainda que um spin-off não-canônico o mostre loiro, o canon mantém a contenção.
A dublagem de Masako Nozawa (que também vive Goku) entrega um Bardock vigoroso, mas vulnerável. Nas versões brasileiras, Goku e Bardock ganharam timbres distintos graças a Wendel Bezerra (Goku) e Marco Rossi (Bardock), criando contraste interessante para o público nacional. O diretor artístico de cada episódio faz questão de destacar a ousadia do personagem, em especial na luta contra Gas, quando Bardock recebe um incremento de poder parecido com o Instinto Superior, porém ainda longe de virar Super Saiyajin. A escolha dramatúrgica mantém coerência com o roteiro, que precisava de emoção sem repetir a famosa transformação do filho.
Rei Vegeta: orgulho real aquém da lenda dourada
Responsável político pelo planeta dos Saiyajins, o Rei Vegeta nunca foi retratado como um lutador de elite. Nos flashbacks de Dragon Ball Z e no filme Dragon Ball Super: Broly, o monarca tem participação breve, mas suficiente para ilustrar a disparidade entre status e força. Com poder estimado na casa das dezenas de milhares, ele se assusta diante do bebê Broly, cuja leitura de 10.000 no scouter instiga sua insegurança.
Imagem: Divulgação
No longa de 2018, a dublagem original (Tetsu Inada) confere altivez, enquanto Duda Espinoza, na versão brasileira, preserva um sotaque aristocrático. A cena em que o rei tenta esconder o medo ao banir Broly revela a competência da direção de voz em sublinhar a tensão política. Narrativamente, a escolha de mantê-lo distante da forma Super Saiyajin reforça a ideia de que títulos de nobreza pouco significam no universo criado por Toriyama. Quem assiste pela primeira vez sente a ironia: Vegeta, o príncipe, ainda criança, já superava o próprio pai — um detalhe que ganha força dramática graças ao ótimo trabalho de montagem e à trilha de Norihito Sumitomo.
Turles e Pan: extremos de um mesmo dilema
Turles, vilão de Dragon Ball Z: A Árvore do Poder (1990), apresenta design idêntico ao de Goku, recurso visual pensado pelo então diretor Daisuke Nishio para causar estranhamento no público. Com 19.000 de poder antes de provar o fruto da Árvore do Poder, o antagonista salta para 300.000, ultrapassando Goku pré-Saga de Freeza. É uma solução narrativa interessante: sem recorrer à aura dourada, o roteiro de Takao Koyama encontrou outra forma de escalar a ameaça.
Na dublagem, Masako Nozawa interpreta Turles com tonalidade mais grave, o que diferencia o antagonista do protagonista apesar do rosto idêntico. Já no Brasil, Fábio Lucindo empresta cinismo à voz do invasor, reforçando a sensação de que o personagem é o “anti-Goku”. Ainda hoje, ele permanece sem versão Super Saiyajin em spin-offs canônicos, possivelmente para preservar a exclusividade da transformação ligada ao sustento da árvore, metáfora sobre poder e corrupção.
Do outro lado do espectro está Pan, a meia-Saiyajin mais promissora da série. Nem em Dragon Ball GT, nem em Dragon Ball Super: Super Hero a garota atinge o lendário estado. Em GT, a equipe de roteiristas optou por mantê-la em perigo para justificar salvamentos de Goku, escolha bastante criticada até por fãs do Salada de Cinema. Já no longa de 2022 dirigido por Tetsuro Kodama, Pan exibe movimentos de artes marciais fluidos, animados com capricho, mas o roteiro segura qualquer explosão de aura dourada. De acordo com Toyotarou, ela possui potencial comparável ao de Uub, o que alimenta expectativa para futuros episódios.
Vale a pena revisitar essas histórias?
Saber que Paragus, Bardock, Rei Vegeta, Turles e Pan estão entre os Saiyajins mais fortes que não viraram Super Saiyajin torna cada aparição deles ainda mais interessante. A escolha dos diretores em preservar esse detalhe adiciona tensão e camadas dramáticas, motivo suficiente para o público buscar os filmes e episódios correspondentes, seja pela nostalgia ou pela curiosidade de entender como a ausência da transformação influencia a narrativa.



