A indústria criativa vietnamita acaba de ganhar um projeto que promete reposicionar o país no mapa global de produções horror: The Scourge (Tai Ương), uma adaptação cinematográfica de um game que já conquistou 100 mil downloads no Steam com 94% de avaliações positivas. A novidade não é apenas a existência do filme, mas a estrutura por trás dele — uma parceria formalizada entre a Triple Green CineCapital (TGC), fundo de investimento baseado em Singapura, e a Chanh Phuong Films, produtora vietnamita responsável por sucessos locais como “Bẩy Rồng” e “Em Chưa 18”. Para a TGC, é o primeiro investimento em solo vietnamita. Para o cinema do país, é um marco que nenhum site de crítica pode ignorar.
O timing do anúncio — feito durante o Cannes Film Market 2025 via agente de vendas Skyline Media — revela uma estratégia clara: posicionar o filme não como uma produção local menor, mas como um product destinado ao circuito internacional de vendas. Isso significa, na prática, que Hollywood e os compradores europeus estão conhecendo a proposta simultaneamente. The Scourge não é apenas um filme vietnamita; é uma ponte entre a indústria criativa emergente do Vietnã e o mercado global de horror. Lançamento previsto para 2027, o projeto já nasceu com ambições que extrapolam fronteiras.
O prédio assombrado que virou IP rentável
O que torna The Scourge particularmente intrigante é a decisão criativa de manter o cenário central do game: um edifício de apartamentos assombrado inspirado em um prédio real abandonado em Ho Chi Minh City. Não é um detalhe menor. Ao preservar a localização autêntica, a adaptação cinematográfica carrega consigo a aderência emocional que o jogo já havia estabelecido — aquele tipo de horror que funciona porque parece plausível, porque poderia estar ali, na sua cidade, naquele bairro que você conhece.
O diretor Doan Si Nguyen e o roteirista Tran Khanh Hoang compreenderam algo que a maioria das adaptações de games falha em captar: a transposição para o cinema não deve descartar a textura original, mas amplificá-la. O filme adiciona à estrutura do jogo as lendas urbanas vietnamitas, histórias de fantasmas locais e costumes de épocas passadas do país — elementos que o game não tinha espaço para desenvolver plenamente. É uma decisão que sinaliza respeito pela fonte material e pela cultura que a gerou, simultaneamente.
Quando Charlie Nguyen, produtor com passagem por blockbusters como “Crouching Tiger, Hidden Dragon: Sword of Destiny”, entrou no projeto, a estrutura ganhou peso internacional. Nguyen compreende as dinâmicas de financiamento global e de distribuição que um filme assim exige. Sua presença no projeto não é apenas uma credencial — é uma promessa silenciosa de que The Scourge será feito com padrões que conversem com o mercado audiovisual contemporâneo.
Por que agora, por que deste jeito
A adaptação chega em um momento preciso da indústria criativa asiática. Os sucessos recentes de produções de terror vindas de países emergentes — veja-se o fenômeno de filmes coreanos e tailandeses nas plataformas internacionais — provaram que horror não é monopólio americano nem europeu. Há expertise, há público, há histórias genuinamente perturbadoras fora do eixo tradicional de produção.
A indústria vietnamita, porém, ainda carecia de um projeto que funcionasse simultaneamente como validação local e como produto de exportação. The Scourge pode ser esse projeto. A razão é simples: games, diferentemente de literatura ou poesia, são uma linguagem globalizada. Alguém que jogou The Scourge no Japão, na Polônia ou na Argentina compreendeu a mecânica de horror do jogo pela mesma perspectiva que um jogador vietnamita. A adaptação cinematográfica, então, não precisa “traduzir” a proposta — apenas expandir o que já foi validado internacionalmente.
A Skyline Media, ao lançar o projeto no Cannes Film Market, não estava apresentando um filme vietnamita para o mundo. Estava dizendo: aqui está um horror que já conquistou 100 mil pessoas globalmente; agora veremos o que a narrativa cinematográfica consegue fazer com esses 100 mil que já conhecem a propriedade intelectual. É uma matemática diferente das adaptações tradicionais, onde o filme precisa conquistar o público do zero.
O que isso significa para o cinema vietnamita
Se The Scourge conseguir entregar uma experiência visual e narrativa à altura das expectativas geradas por seu game, estará inaugurando um precedente. Não será apenas “o primeiro filme vietnamita adaptado de um game vietnamita” — será prova de que a indústria local pode gerar intellectual property original capaz de sustentar produções de escala internacional. Isso é diferente de ser um país que produz conteúdo sob demanda de estúdios estrangeiros. Isso é ser um país que cria, que inova, que possui narrativas próprias com potencial de exportação.
A parceria entre TGC e Chanh Phuong Films também sinaliza confiança. Fundos de investimento baseados em Singapura não apostam aleatoriamente. Se Triple Green CineCapital escolheu o Vietnã como ponto de entrada no Sudeste Asiático, foi porque identificou uma combinação de: custo de produção viável, talento criativo disponível, infraestrutura técnica adequada e, crucialmente, propriedade intelectual com demanda comprovada. The Scourge atende a todos esses critérios.
O que sabemos até agora é que o filme chegará em 2027 carregando expectativas reais. Não é vaporware — há compradores no Cannes, há fundo de investimento, há produtores com experiência em circulação global, há um game com validação de público. O restante dependerá de execução. Mas a estrutura está pronta para que The Scourge não seja apenas mais uma adaptação bem-intencionada de game, e sim o filme que reposiciona o Vietnã no mapa do cinema de horror internacional.
Fonte: variety.com









