Um grupo de policiais de Miami encontra muito mais dinheiro do que esperava em um depósito abandonado. A partir daí, a confiança evapora e o que era para ser uma operação simples vira um jogo de xadrez moral, marcado por suspeitas mútuas. Essa é a atmosfera de The Rip, suspense de ação da Netflix produzido e protagonizado por Ben Affleck e Matt Damon.
Lançado em 16 de janeiro de 2026 com 113 minutos de duração, o longa ganhou 84% de aprovação da crítica e 77% do público no Rotten Tomatoes. A principal razão desse engajamento é a reviravolta final, dissecada pelo diretor e roteirista Joe Carnahan ao lado da atriz Sasha Calle. Confira, a seguir, como elenco, direção e roteiro trabalham para conduzir o espectador até o choque derradeiro.
A engenharia do roteiro: pistas plantadas e uso de expectativas
Carnahan, que assina o texto ao lado de Michael McGrale, estrutura The Rip em camadas de suspeita. Durante quase toda a projeção, o tenente Dane Dumars (Matt Damon) concentra os olhares de desconfiança. Ele foi recém-promovido, lida com o luto pela morte do filho e atravessa um divórcio recheado de dívidas. Além disso, toma decisões duvidosas, como confiscar os celulares da equipe e não avisar aos superiores sobre a quantidade real de dinheiro encontrada.
Segundo o cineasta, um detalhe inserido logo no início já antecipa o desenlace: Dumars diz a cada colega um valor diferente sobre a quantia encontrada. Em especial, o tenente informa a um agente externo que seriam apenas 150 mil dólares. O número, incluído de forma premeditada pelo diretor, serve como isca para quem presta atenção aos diálogos.
A construção da virada tem outro elemento central: o casting. Carnahan explorou a imagem pública dos atores para manipular a percepção do público. “Jason Bourne não pode ser vilão; Batman não pode ser vilão”, comentou o diretor, referindo-se aos papéis icônicos de Damon e Affleck. O mesmo raciocínio vale para Steven Yeun, lembrado como o herói de The Walking Dead, e Kyle Chandler, associado ao treinador íntegro de Friday Night Lights. O roteiro se apoia nessa bagagem cultural para despistar quem tenta adivinhar o traidor.
Atuações: entre a ambiguidade e o choque
Matt Damon entrega um Dumars contido e de gestos calculados. Sua atuação oscila entre a serenidade de um líder experiente e pequenos rompantes de irritação, suficientes para manter a plateia em alerta. O ator equilibra dor pessoal e pragmatismo profissional, ingrediente que sustenta a suspeita sobre o personagem praticamente até os minutos finais.
Steven Yeun, no papel do detetive novato Mike Ro, adota postura metódica e discreta. Ele fala pouco, observa muito e aparenta ser a voz da razão da equipe, o que torna seu desmascaramento ainda mais impactante. Já Kyle Chandler, como o agente da DEA Matty Nix, faz uso da imagem de mentor confiável para camuflar intenções. Quando ambos revelam o plano de roubar o dinheiro, o contraste entre aparência e ação gera o efeito de choque buscado pelo roteiro.
Sasha Calle, intérprete da detetive Desi, funciona como ponto de identificação do espectador. Presa entre as estratégias dos colegas, ela age com cautela extrema, tentando apenas sobreviver ao cerco. Calle afirmou que a performance de Damon a “enganou completamente” durante as filmagens, o que reforça a consistência interna da narrativa.
Direção de Joe Carnahan: ritmo, tensão e observação do público
Carnahan prioriza cenários fechados, diálogos rápidos e cortes secos para acentuar a claustrofobia. As sequências dentro da casa-depósito concentram longos planos de silêncio, nos quais o elenco troca olhares carregados de suspeita. Quando a ação explode, a montagem acelera, mas sem perder a clareza espacial, marca registrada do diretor de A Última Cartada.

Imagem: laire Folger/Netflix
Durante exibições-teste, o cineasta observou a reação da plateia à grande revelação. Ele relata ter visto duas pessoas se empolgar ao perceber que os barris, supostamente cheios de dinheiro, continham listas telefônicas. Esse monitoramento do público ajudou a calibrar o timing da revelação e a ajustar pequenos detalhes de edição para potencializar o susto.
Além do controle de ritmo, Carnahan emprega iluminação amarelada e saturada nas cenas internas, criando atmosfera opressora que reflete a pressão moral dos personagens. O contraste com o exterior ensolarado de Miami reforça a dualidade entre a fachada de dever público e a tentação do dinheiro fácil.
Recepção e relevância para a Netflix
Com 84% de aprovação da crítica, The Rip figura entre os thrillers mais bem-avaliados da plataforma em 2026. O índice de 77% junto ao público indica consonância razoável entre especialistas e audiência, fator raro em produções do gênero. O título, portanto, desponta como potencial novo hit para o serviço de streaming.
A presença de Ben Affleck e Matt Damon não se limita ao elenco. Como produtores, eles fortalecem a campanha de divulgação e atraem a atenção de quem acompanha a carreira da dupla desde Gênio Indomável. A estratégia da Netflix de reunir nomes consagrados em um cenário de crime urbano se mostra eficaz para manter assinantes engajados.
Para o portal Salada de Cinema, o longa interessa sobretudo pela forma como combina interpretação, roteiro e direção para sustentar uma única pergunta: quem vai trair primeiro? Esse foco absoluto na suspeita recíproca aproxima o filme de clássicos como Cães de Aluguel e Os Oito Odiados, ainda que em escala mais contida.
Vale a pena assistir?
The Rip trabalha com elenco reconhecido, roteiro amarrado e direção consciente do impacto que deseja gerar. A boa recepção crítica, somada à curiosidade em torno do desfecho, faz do thriller uma escolha sólida para quem procura tensão, personagens ambíguos e um clímax capaz de subverter expectativas.



