Quem estava ansioso para saber como Mickey Haller se sairia depois de ser acusado de homicídio pode respirar aliviado: a quarta temporada de The Lincoln Lawyer entrega tensão, viradas judiciais e uma atuação de tirar o fôlego de Manuel Garcia-Rulfo. Ainda que o primeiro bloco de episódios derrape no ritmo, a temporada encontra seu caminho e confirma o lugar da série entre os dramas de tribunal mais envolventes da Netflix.
Ao longo de dez capítulos, o público acompanha a luta de Mickey para desmascarar o verdadeiro assassino de Sam Scales, enquanto tenta preservar a reputação do escritório e a estabilidade da própria família. É uma trama complexa, que exige da equipe de roteiristas precisão cirúrgica e do elenco uma entrega emocional rara em produções do gênero.
Um início lento que quase compromete a pulsação do tribunal
Os três primeiros episódios adotam um compasso quase contemplativo, em contraste com o gancho eletrizante deixado no fim da terceira temporada. A lentidão se faz sentir em diálogos prolongados no pátio da cadeia e na apresentação burocrática de provas, o que pode afastar espectadores acostumados ao dinamismo de outras produções, como o thriller Steal, que aposta em tensão desde a estreia.
A direção alterna entre planos internos abafados e externas ligeiramente superexpostas para ressaltar o contraste entre a claustrofobia da prisão e a liberdade inalcançável do lado de fora. É um recurso interessante, mas se estende demais e dilui o senso de urgência até o início do julgamento. Quando as audiências finalmente começam, a série retoma fôlego, canalizando a energia de clássicos tribunais cinematográficos e entregando reviravoltas dignas de maratona.
O brilho de Manuel Garcia-Rulfo e a sinergia do elenco
Manuel Garcia-Rulfo domina cada cena, equilibrando carisma habitual e vulnerabilidade crescente. Nesta temporada, Mickey perde a postura confiante que o tornou famoso em Los Angeles; atrás das grades, ele exibe rachaduras emocionais que convencem o público do peso da acusação. Quando o personagem é lançado em confinamento solitário, o ator explora silêncios, respirações curtas e um olhar que parece naufragar numa mistura de medo e frustração.
Ao redor dele, Jazz Raycole (Izzy), Becki Newton (Lorna) e Angus Sampson (Cisco) ganham mais tempo de tela e assumem funções fundamentais na investigação. Izzy, por exemplo, deixa o posto de motorista para atuar como agente de campo, escolha que soa arriscada do ponto de vista verossímil, mas que garante dinamismo e evita o problema de dividir personagens, algo que o terror histórico Rock Springs não conseguiu contornar.
No tribunal, Lana Parrilla mergulha na persona de “Death Row Dana” e estabelece a rivalidade mais potente da série até aqui. A promotora manipula testemunhas, retém documentos e cria armadilhas jurídicas que obrigam Mickey a sair da zona de conforto. Esse embate jurídico devolve à série o pulso dramático que a consagrou e permite aos atores trocarem golpes verbais memoráveis.
Roteiro e direção encontram equilíbrio entre fidelidade e novidade
Os showrunners Dailyn Rodriguez e Ted Humphrey adaptam “The Law of Innocence”, de Michael Connelly, com a liberdade necessária para a TV. Sequências inteiras de interrogatórios foram transpostas quase literalmente do romance, reforçando a segurança técnica da sala de roteiro. Ao mesmo tempo, mudanças pontuais — como a ampliação do arco de Izzy e ajustes na linha temporal — evitam a sensação de “cópia página por página”.

Imagem: Divulgação
Visualmente, a escolha de lentes anamórficas e cores dessaturadas nas cenas de cadeia contrasta com os tons mais quentes do tribunal, ressaltando a dicotomia entre opressão e esperança. A direção de arte adota figurinos sóbrios e iluminação lateral para sublinhar o jogo de poderes, recurso semelhante ao que Ryan Murphy utilizou no recente The Beauty, mas empregado aqui com maior sutileza.
Adaptação captura a essência dos livros de Michael Connelly
Para os leitores, a principal preocupação sempre recai sobre a fidelidade aos eventos centrais. A produção mantém o responsável pelo homicídio, a motivação e até trechos inteiros de argumentação extraídos do romance. Apenas o contexto da pandemia foi descartado, decisão compreensível para que a narrativa não fique datada. Essa reverência ao material original, sem embargo da necessidade dramática, rende pontos preciosos.
Outro mérito está na forma como a equipe expande personagens secundários sem diluir o protagonismo. O espectador conhece melhor as nuances de Cisco, descobre fragilidades de Lorna e acompanha até a exigente rotina de Hayley, filha de Mickey, cuja participação se restringe a momentos de apoio, mas que acrescenta dimensão humana ao advogado. A abordagem lembra a sensibilidade da obra exibida em Cannes “Sirat”, citada no Salada de Cinema pelo cuidado ao explorar relações familiares.
Vale a pena assistir The Lincoln Lawyer – 4ª temporada?
Com dez episódios que ultrapassam 50 minutos, a temporada exige paciência na largada, mas recompensa quem permanecer até a metade. Quando o julgamento engrena, a série oferece reviravoltas instigantes, atuações convincentes e uma aula de narrativa jurídica, sem perder a leveza que distingue Mickey Haller de outros advogados da ficção.
A performance de Manuel Garcia-Rulfo merece ser lembrada nas premiações e deve abrir portas para papéis principais em projetos futuros. A promotora de Lana Parrilla garante o antagonista que faltava, enquanto direção e roteiro traduzem Connelly para a tela com o equilíbrio certo entre respeito e criatividade.
Se o espectador procura um drama de tribunal capaz de combinar emoção, estratégia e personagens carismáticos, The Lincoln Lawyer – 4ª temporada cumpre a promessa. Mesmo com um começo hesitante, a produção volta a acelerar e confirma o lugar de destaque da série no catálogo da Netflix.



