Quem ainda não conferiu as duas primeiras aventuras de Robert McCall tem poucos dias para aproveitar. Em 31 de janeiro, The Equalizer e The Equalizer 2 deixam o catálogo gratuito do Tubi, plataforma que até aqui era a porta de entrada mais acessível para a trilogia estrelada por Denzel Washington.
A mudança reacende o debate sobre o impacto da série de filmes de ação, suas atuações marcantes e a condução firme de Antoine Fuqua, diretor que retomou a parceria com Washington depois de Dia de Treinamento. A seguir, o Salada de Cinema examina os bastidores criativos, o desempenho de elenco e roteiristas, além de projetar o que esperar da franquia nos próximos capítulos.
A despedida de The Equalizer do streaming gratuito
O Tubi confirmou que os dois primeiros longas deixam o serviço ao fim do mês, enquanto The Equalizer 3 permanece em opções pagas, como Hulu e FuboTV. O adeus interrompe uma rota de exibição que facilitava o acesso ao material de origem para quem conheceu a marca apenas pela recente série de TV com Queen Latifah.
Lançado em 2014, o primeiro filme arrebatou US$ 192 milhões no mundo e abriu caminho para um rarefeito compromisso de Washington com continuações. O resultado comercial se repetiu no segundo capítulo, sustentando um faturamento total de US$ 573 milhões para a trilogia, mérito importante se lembrarmos de seu selo R-Rated, menos palatável ao grande público.
Apesar da recepção crítica morna — a média dos três filmes gira em torno de 48% no Rotten Tomatoes — o público registrou aprovação de 78%, índice que justifica planos do ator para um possível quarto e quinto filmes. Nada mau para um ex-fuzileiro que só queria ler livros clássicos em um café de Boston.
A força da atuação de Denzel Washington
Denzel Washington injeta em Robert McCall uma combinação rara de serenidade e ameaça. O ator troca explosões verbais por silêncios calculados; basta observar como ele mede o tempo no cronômetro de pulso antes de neutralizar o inimigo. Esse gesto simples virou assinatura do personagem e sintetiza a precisão que Washington aplica em cada cena de ação.
O interesse do veterano pelo papel também se explica pela possibilidade de explorar vulnerabilidade. Quando McCall abandona o retiro voluntário para proteger vítimas inocentes, percebemos um homem carregado de culpa — camada dramática que o astro raramente tem chance de investigar em franquias de ação. Sua performance foi comparada por críticos internacionais ao senso de propósito que Liam Neeson imprimiu em Taken e Keanu Reeves levou a John Wick, porém com a gravitas que rendeu a Washington dois prêmios Oscar.
Se a química entre protagonista e antagonistas funciona, muito se deve ao tempo de tela que Fuqua reserva para olhares, pausas e pequenos gestos. A violência nunca é gratuita: ela responde à ética pessoal de McCall. Nesse ponto, The Equalizer se diferencia de produções como o ambicioso The Wrecking Crew, onde o espetáculo visual muitas vezes supera o estudo de personagem.
Direção de Antoine Fuqua mantém a identidade da trilogia
Fuqua reencontrou Washington 13 anos após Dia de Treinamento e levou ao limite a estética crua que o consagrou. A câmera mão acompanha cada passo de McCall, mergulhando o espectador em corredores úmidos, depósitos abandonados e apartamentos mal iluminados. O resultado é um visual sujo que contrasta com a calma quase zen do protagonista.
Imagem: Divulgação
Para garantir coerência entre os três filmes, o diretor apostou em fotografia dominante em tons frios, trilha minimalista e coreografias de luta que privilegiam golpes curtos e objetivos. A forma compacta de filmar dialoga com títulos de ação contemporâneos, mas evita deslizar para o “estilo videogame” que emoldura blockbusters mais recentes.
Fuqua também soube equilibrar as cenas de tensão com pequenos respiros de humanidade, como os momentos em que McCall incentiva um jovem vizinho a terminar a escola ou quando lê Hemingway no restaurante 24 horas. Esses instantes garantem empatia e dão profundidade a um projeto que poderia se resumir a confrontos sangrentos.
Envolvimento de roteiristas e legado na TV
Baseado na série de 1985 criada por Michael Sloan e Richard Lindheim, o primeiro roteiro foi escrito por Richard Wenk, que depois assinaria outros thrillers como Sete Homens e um Destino. A adaptação modernizou o passado do protagonista — antes um espião britânico, agora um ex-fuzileiro americano — mas manteve o tema central: alguém com habilidades extraordinárias corrigindo injustiças que o sistema não alcança.
Essa premissa se mostrou versátil. Tanto que a CBS desenvolveu um reboot televisivo com Queen Latifah, cancelado este ano, mas ainda disponível parcialmente no Tubi. A decisão da emissora, motivada por custos de produção, dividiu fãs, entretanto reforçou o potencial da marca em diferentes formatos. A abertura para crossovers é real: com a agenda de Latifah mais livre, rumores de aparição no eventual The Equalizer 4 ganharam força nos bastidores.
Na Hollywood pós-pandemia, roteiristas têm enfrentado desafios para emplacar universos longos. Ainda assim, o retorno financeiro da trilogia anima investidores e pode influenciar outros projetos de ação adulta, como o recém-anunciado The Weight, que aposta no carisma de atores veteranos para sustentar bilheterias de médio porte.
Vale a pena assistir a The Equalizer em 2024?
Com a saída do Tubi, quem quiser revisitar as origens de McCall precisará recorrer a serviços pagos ou mídia física. Ainda assim, vale lembrar que o sucesso da saga se apoia em atuações econômicas e contundentes de Denzel Washington, num roteiro que equilibra violência e compaixão, e na direção sólida de Antoine Fuqua. O conjunto oferece uma aula de ritmo, tensão e construção de personagem — qualidades que não envelhecem, mesmo fora do streaming gratuito.



