Dragon Ball Super levou a franquia a níveis cósmicos, jogando deuses, multiversos e transformações “ultra” na tela sem pudor. Entre tantas novidades, alguns rostos queridos dos tempos de Dragon Ball Z ficaram restritos a participações rápidas ou meros alívios cômicos.
Com a confirmação de uma nova fase da série, volta à tona o debate sobre quem merece brilhar novamente. Tien, Androide 18, Mestre Kame, Pikkon, Majin Boo, Uub e Tarble formam a linha de frente dos esquecidos. A seguir, analisamos por que cada um deles — e seus respectivos intérpretes — pode ganhar força sob a batuta do mesmo time criativo que comandou Super.
A importância de revisitar guerreiros subaproveitados
Tien Shinhan já foi referência em artes marciais, rival direto de Goku no Torneio de Artes Marciais clássico. Mesmo limitado a treinos rápidos em Dragon Ball Super, o personagem manteve o estilo disciplinado e técnicas de Ki únicas. Recolocar Tien em combate não é nostalgia vazia; sua visão estratégica poderia ampliar as batalhas além de rajadas de energia.
Androide 18, voz de Miki Itô no original japonês, carrega carisma e força bruta inéditas entre os humanos modificados. No Torneio do Poder ela provou ser peça-chave, mas voltou para o papel de “mãe em tempo integral” logo depois. Ao explorar mais sua ilimitada reserva de energia, os roteiristas podem equilibrar cenas domésticas com duelos de alto risco, algo que Otto Binder chamaria de “super-humanização” da trama.
Mestre Kame, dublado por Masaharu Satō até 2018 e hoje por Hiroshi Naka, atravessou gerações ensinando valores de humildade. Sua participação surpreendente no Torneio do Poder mostrou que experiência ainda vence força bruta. Deixá-lo otra vez como mentor, agora em escala multiversal, seria um cartão de visitas para novos fãs entenderem a essência das lutas da série.
Atuações de voz que sustentam a nostalgia
Dragon Ball Super é ancorado em interpretações vocais marcantes. Masako Nozawa dá vida simultaneamente a Goku, Gohan e Goten — façanha elogiada pela crítica japonesa por manter timbres distintos. Quando antigos coadjuvantes aparecem, o peso da voz correta faz diferença.
Pikkon, apesar de nunca ter sido canon no mangá, conquistou o público no anime graças ao tom grave de Hikaru Midorikawa. Reintegrá-lo exigiria apenas uma justificativa de roteiro, pois a voz já carrega autoridade. Se Toei Animation optar por inserir o lutador do Outro Mundo, a familiaridade sonora encurtará a distância entre material “filler” e conteúdo oficial.
Majin Boo, representado por Kōzō Shioya, transita entre o terror e a inocência infantil sem soar incoerente. Super colocou o personagem para dormir durante arcos inteiros; acordar Boo em um enredo centrado em suas habilidades de cura abriria espaço para variações emocionais que a dublagem domina há décadas.
Direção e roteiro: espaço para histórias paralelas
O showrunner Tatsuya Nagamine coordenou 131 episódios focados principalmente em Goku e Vegeta. Para a continuidade, a equipe de roteiristas — encabeçada por Ryu King e Hiroshi Yamaguchi — tem a chance de distribuir os holofotes. Personagens como Uub, que surge apenas no final de Dragon Ball Z, sofrem com o intervalo temporal. Um salto narrativo ou flash-forwards resolveria o impasse, permitindo a Masako Nozawa dialogar com a versão mirim do pupilo.
Imagem: Divulgação
Tarble, irmão caçula de Vegeta, apareceu apenas em especiais de TV. Sua personalidade pacífica contrasta com a agressividade típica dos Saiyajins, o que rende questionamentos dramáticos interessantes. Se Ryota Nakamura assumir episódios futuros, como fez em arcos passados, a direção pode usar Tarble para explorar outra camada de um clã já conhecido pelo público.
Além disso, Toei Animation dispõe de múltiplos diretores de episódio (Takao Iwai, Masato Mitsuka, Ayumu Ono) que conseguem variar o tom entre humor e tensão. Cada um poderia comandar capítulos focados em um desses coadjuvantes, replicando a estrutura de antologia sem perder a linha principal da saga.
Como a próxima fase pode equilibrar poder e emoção
Dragon Ball Super acostumou o espectador a escaladas gigantescas de poder, de Super Saiyajin Blue a Instinto Superior. Trazer Tien, 18 ou Mestre Kame de volta exige outro tipo de desafio: batalhas táticas, uso criativo de técnicas clássicas e riscos emocionais palpáveis. Essa mudança de escala pode impedir que o público sinta fadiga de transformações.
Para manter a coesão, os roteiristas podem vincular cada personagem a um tema: Tien como disciplina, 18 como conciliação entre família e dever, Kame como sabedoria, Boo como redenção, Uub como sucessão e Tarble como quebra de estereótipos Saiyajins. Esse tipo de eixo narrativo facilita a inserção de tramas paralelas sem que tudo pareça “encheção de linguiça”.
Do ponto de vista de direção de arte, sequências menos cósmicas permitem animar cenários terrestres detalhados, algo que a equipe de Kenichi Takeshita mostrou dominar nas sagas de torneios. Efeitos de Ki concentrados, em vez de explosões planetárias, podem inclusive reduzir custos sem sacrificar o espetáculo.
Outro ganho é a presença feminina em luta. Androide 18 representa uma oportunidade de equilibrar o elenco, ainda dominado por homens. Ao devolver protagonismo a ela, Toei atende a uma demanda antiga da comunidade e escapa de acusações de subutilização feminina.
Vale a pena assistir à sequência de Dragon Ball Super?
Se a produção abraçar o potencial desses sete guerreiros e combinar a experiência do elenco de voz com roteiros que fujam do ciclo “transformação-mais-forte”, a nova fase de Dragon Ball Super tem tudo para renovar o interesse no anime. O estúdio já demonstrou competência técnica; falta apenas dar tempo de tela para que esses personagens revelem camadas inexploradas. A expectativa é alta — e o público de Salada de Cinema certamente ficará de olho em cada movimento desse retorno.



