Quando as luzes do Caesars Superdome se apagaram para o intervalo do Super Bowl LX, a partida entre Drake Maye e a defesa dos Seahawks deixou de ser o centro das atenções. Por 30 segundos – e às vezes um minuto inteiro – as marcas tomaram conta da festa, investindo até US$ 10 milhões por espaço publicitário.
Entre mais de 70 inserções, dez comerciais do Super Bowl 2026 chamaram atenção não só pelo apelo visual, mas pelo trabalho de atores, diretores e roteiristas. O Salada de Cinema analisou o que cada um entregou em termos de performance, timing cômico e construção narrativa.
Humor físico e nostalgia: Bud Light capricha na gag, Levi’s passeia pela cultura pop
A Bud Light abriu a lista com um exercício de slapstick puro: Peyton Manning, Shane Gillis e Post Malone descem colina abaixo ao som do clássico de Whitney Houston. A direção aposta em planos longos que não cortam a ação, permitindo que o público sinta cada tombo enquanto a trilha brinca com o romantismo exagerado. O resultado é uma piada simples que funciona graças ao timing quase coreografado do trio.
Já a Levi’s transformou sua origem em um videoclipe histórico. A montagem alterna Woody, de Toy Story, Questlove e citações a Bruce Springsteen em cortes rápidos, como se o espectador folheasse um álbum de figurinhas. Ao revelar Doechii apenas nos segundos finais, o diretor entrega clímax visual que dialoga com a cultura pop contemporânea, reforçando a força da marca em narrativas multigeracionais.
Estrelas que assumem o show: Emma Stone, Ben Stiller e Andy Samberg em alta voltagem cômica
Emma Stone mergulhou no humor autorreferencial em “Lost Domain”, da Squarespace. Sob atmosfera de terror satírico à la Yorgos Lanthimos, a atriz ri da própria aura hollywoodiana enquanto persegue um endereço de internet. O roteiro brinca com o absurdo de achar que um computador mágico resolverá o impasse de URL, mas é a entrega performática de Stone – olhos arregalados, respiração cadenciada – que sustenta a piada.
Na Instacart, Ben Stiller resgata a veia nonsense que o consagrou em “Zoolander”. Vestido como astro eurodisco, ele trava competição de egos com Benson Boone. Cada corte valoriza expressões exageradas, enquanto o design de produção aposta em neon escancarado. O comercial comprova que, quando Stiller tem carta branca para pirar, um simples “escolha suas bananas” vira espetáculo.
Andy Samberg, por sua vez, só aceitou fazer propaganda depois de encontrar espaço para cantar Neil Diamond dentro de uma delicatessen. O roteiro de Hellmann’s usa “Sweet Caroline” como fiapo narrativo para enfileirar trocadilhos de sanduíche. A escolha de planos médios capta a presença de palco do humorista, lembrando o frescor musical que ele já mostrou no palco de faixas cômicas.
Quando a emoção fala mais alto: Pokémon, Rocket & Redfin e Novartis apostam no coração
Para celebrar 30 anos de história, a Pokémon Company deixou a nostalgia falar. Lady Gaga, Jisoo e Trevor Noah surgem como fãs declarados, descrevendo criaturas que refletem suas personalidades. A direção intercala depoimentos com animações sutis, criando ponte entre o mundo real e o universo de Kanto. O texto, leve e pessoal, lembra por que séries baseadas em games continuam despertando tanta identificação.
Imagem: Divulgação
Em “Neighbors Like You”, Rocket & Redfin dispensam celebridades e abraçam a simplicidade. Cenas de vizinhos ajudando uns aos outros formam narrativa que remete a comerciais de seguradoras clássicas. O diretor opta por fotografia quente e pacing lento, destacando a expressão de uma menina salvando o golden retriever do bairro. É a típica peça que conquista pelo afeto, não pela pirotecnia.
Novartis repetiu a boa forma de 2025 ao escalar tight ends da NFL para falar de prevenção ao câncer de próstata. A graça do trocadilho “Tight Ends Relaxing” se sustenta porque os atletas exploram vulnerabilidade fora de campo. O close nos rostos quebra o estereótipo de força bruta e convida o público masculino a refletir sobre saúde, sem soar panfletário.
O poder do cinema: Comcast Xfinity recria Jurassic Park com perfeccionismo técnico
Se existisse Oscar para comerciais do Super Bowl 2026, Comcast Xfinity levaria efeitos visuais, montagem e elenco. Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum retornam ao set enquanto cenas do filme original ganham novo contexto: tudo seria diferente se o wi-fi estivesse ligado. O roteiro acerta ao integrar o produto à piada, transformando a premissa em comentário sobre dependência digital.
A direção de arte reconstrói o laboratório de Isla Nublar sem descuidar de detalhes, do vidro embaçado das incubadoras ao icônico logotipo vermelho. Cortes rápidos unem imagens de 1993 a material inédito, criando ilusão de continuidade que empolga fãs e destaca a capacidade de Xfinity em “ligar” o parque. A escolha de resgatar trio central, em vez de apostar em participações juvenis, reforça laço nostálgico e sublinha a discussão sobre legado – tema caro a épicos de fantasia sombria, como analisamos ao falar de universos que sobrevivem ao tempo.
Vale a pena rever os comerciais do Super Bowl 2026?
Se a meta é entender tendências de storytelling publicitário, os comerciais do Super Bowl 2026 funcionam como estudo de caso. Há espaço para humor físico, metalinguagem, sensibilidade social e pastiches cinematográficos, tudo em menos de um minuto. Assistir novamente revela sutilezas de atuação – do olhar de Emma Stone à acrobacia falha de Ben Stiller – e mostra como direção afiada faz cada segundo contar.
Para quem busca inspiração criativa ou simplesmente quer rir de Post Malone rolando ladeira abaixo, a maratona vale o tempo. Entre um touchdown e outro, Hollywood provou que, mesmo em um break comercial, ainda sabe segurar o público pelo braço.



