O embate corporativo mais quente de Hollywood acaba de ganhar um novo capítulo do outro lado do Atlântico. David Ellison, CEO da Paramount, visitou capitais europeias nesta semana com o objetivo de convencer autoridades e nomes do setor audiovisual a dificultar o megacompra da Warner Bros. Discovery pela Netflix, avaliada em US$ 83 bilhões.
Entre conversas com ministros, como a secretária de Cultura do Reino Unido, Lisa Nandy, e reuniões no Palácio do Eliseu com o presidente francês Emmanuel Macron, o executivo tenta mostrar que o “streamer” ameaça a continuidade de lançamentos em salas de cinema — especialmente aqueles que valorizam a performance de elenco, a visão de diretores e a assinatura de roteiristas consagrados.
Bastidores da ofensiva da Paramount
Fontes ligadas à negociação afirmam que a Paramount quer transformar a resistência doméstica em campanha internacional. Depois de perder a disputa direta pela Warner no fim de 2025, quando a Netflix apresentou a oferta vencedora em dezembro, Ellison intensificou contatos fora dos Estados Unidos para ganhar tempo e fôlego político.
Ele levou o argumento de que o acordo Netflix-Warner pode reduzir a concorrência na produção de grandes longas, afetando a diversidade criativa. Ao lado de representantes da Paramount, reforçou que a condição das salas de exibição já é frágil desde 2020, quando a pandemia fechou cinemas e forçou estreias simultâneas no streaming.
O peso da janela de cinema na negociação
Na França, onde há regras rígidas sobre o intervalo mínimo entre a estreia no cinema e a chegada ao streaming, os discursos de Ellison encontram terreno fértil. O Festival de Cannes, por exemplo, mantém a decisão de barrar filmes financiados pela Netflix na competição oficial justamente pela ausência de lançamento tradicional nas salas.
Ao alertar que a fusão pode levar a prazos ainda menores ou até à eliminação de estreias presenciais, o executivo toca num ponto sensível para atores e diretores europeus. A premissa é simples: se o longa não passa suficientemente pelos cinemas, a repercussão da atuação — e, consequentemente, o poder de negociação do elenco — tende a encolher. Roteiristas temem a mesma lógica para suas obras.
Reação de Hollywood e possíveis cenários regulatórios
Nos bastidores de Los Angeles, produtores veteranos acompanham com cautela. A Netflix declarou que vai honrar contratos de distribuição vigentes da Warner, mas não esclareceu o que pretende fazer quando esses documentos expirarem. Para muitos agentes, é justamente depois desse prazo que o “jogo muda”, pois a empresa teria liberdade para encurtar ou abolir janelas.
Imagem: Karlis Dzjamko
Especialistas em concorrência ouvidos por órgãos da União Europeia projetam uma análise aprofundada em Bruxelas, e não uma rejeição sumária ao negócio. A Comissão pode impor condições, como manutenção de acordos de licenciamento com terceiros ou metas mínimas de exibições em circuito comercial. Nesse cenário, a atuação de Ellison serve para pressionar por exigências mais rígidas.
O que está em jogo para estúdios, cineastas e público
Para a Paramount, impedir ou limitar o acordo Netflix-Warner significa preservar espaço no mercado para filmes de médio e grande orçamento, onde a presença de salas lotadas ainda impulsiona bilheterias e premiações. Para atores, a janela amplia o alcance de performances marcantes, fator que influencia desde cachês até indicações ao Oscar.
Já roteiristas temem que um conglomerado centrado exclusivamente no streaming priorize algoritmos a narrativas autorais, prejudicando vozes menos convencionais. Diretores, por sua vez, defendem que a experiência coletiva numa sala amplia o impacto de decisões estéticas — fotografia, som e montagem — que muitas vezes se perdem na tela pequena.
Vale a pena acompanhar essa disputa?
O embate pelo acordo Netflix-Warner envolve cifras bilionárias, mas também impacta diretamente a maneira como o público vai assistir às próximas superproduções. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de análises sobre performance de elenco, direção ousada e roteiros bem-costurados, entender os bastidores dessa batalha é fundamental para prever como os filmes chegarão até a plateia nos próximos anos.




