Quem acompanhou a explosão de Stranger Things em 2016 pode ter deixado passar uma joia lançada no mesmo ano: Paper Girls. A série em quadrinhos mistura aventura adolescente, ficção científica e uma boa dose de nostalgia oitentista.
Escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Cliff Chiang, a obra mostra quatro pré-adolescentes que, de bicicleta, enfrentam ameaças bem maiores que monstros do Mundo Invertido. Agora, o título volta aos holofotes como possível sucessor natural do fenômeno da Netflix.
Paper Girls coloca entregadoras de jornal no centro de uma guerra temporal
O ponto de partida da história não poderia ser mais cotidiano: Erin, Mac, KJ e Tiffany têm 12 anos e distribuem jornais pelas ruas de Stony Stream, subúrbio típico dos Estados Unidos em 1988. A rotina, porém, acaba quando uma disputa entre facções de viajantes do tempo transforma o bairro em campo de batalha.
Subitamente, as amigas saltam para 2019 e se veem frente a frente com versões adultas e desencantadas de si mesmas. No caminho, surgem criaturas bizarras, mechas gigantes e anomalias temporais que dobram a realidade. Esse choque entre presente e futuro dá à narrativa um tom de descoberta e melancolia pouco comum em histórias de aventura juvenil.
Ao contrário de Stranger Things, mais ligado ao horror interdimensional, Paper Girls aposta em ficção científica de alto conceito, repleta de paradoxos. Mesmo assim, as duas obras compartilham um elemento fundamental: a amizade como última linha de defesa contra o caos. Na HQ, cada desafio serve para testar a lealdade das protagonistas e mostrar que, juntas, elas são capazes de decifrar qualquer mistério.
A adaptação da Amazon foi cancelada, mas o material original segue intacto
Em 2022, Paper Girls ganhou versão live-action no Amazon Prime Video. O elenco mirim — Camryn Jones (Tiffany), Riley Lai Nelet (Erin), Sofia Rosinsky (Mac) e Fina Strazza (KJ) — conquistou elogios por reproduzir com precisão a química das páginas. Mesmo assim, a produção esbarrou em dois obstáculos: orçamento limitado para efeitos visuais e ritmo acelerado que condensou arcos inteiros de 30 edições em apenas oito episódios.
Sem tempo para explorar a tensão entre passado, presente e futuro, a série perdeu boa parte da grandiosidade vista nos quadrinhos. A falta de investimento em cenas com gigantescos tardígrados ou mechas neon cobrou seu preço; o público não sentiu o mesmo impacto dos painéis de Cliff Chiang. Resultado: o streaming cancelou o projeto antes da segunda temporada.
O contraste com Stranger Things é nítido. Enquanto a HQ de Vaughan e Chiang oferece roteiro fechado, a produção dos irmãos Duffer precisou expandir sua mitologia sem um guia definitivo. Isso levou o seriado da Netflix a temporadas progressivamente mais caras e cheias de efeitos, distanciando-se do clima intimista que marcou a estreia.

Imagem: Divulgação
Paradoxalmente, cada franquia parece ter aquilo que falta à outra. Paper Girls possui enredo completo, pronto para ser adaptado sem correria, mas carece de verba para efeitos grandiosos e marketing global. Stranger Things, por sua vez, conta com campanha massiva e cheque em branco, porém sofre com a dificuldade de amarrar todas as pontas soltas depois de tantos capítulos.
Se um novo estúdio decidir retomar Paper Girls, já terá uma vantagem competitiva: a história está publicada do início ao fim em 30 fascículos, garantindo começo, meio e fim bem definidos. Além disso, o material original apresenta uma abordagem diferente da nostalgia dos anos 1980. Ao mostrar as protagonistas confrontando o próprio futuro e percebendo que a vida adulta nem sempre corresponde às expectativas, a HQ traz reflexão existencial rara em tramas voltadas ao público jovem.
Para quem acompanha o Salada de Cinema, vale ficar de olho em possíveis novidades. Rumores de bastidores indicam que os direitos ainda pertencem à Amazon, mas nada impede futuras parcerias ou um reboot em outro serviço de streaming. Com investimento adequado em efeitos e tempo de tela, Paper Girls pode, enfim, ocupar o espaço deixado por Stranger Things quando a saga de Hawkins chegar ao fim.
Enquanto isso, a edição encadernada dos quadrinhos continua disponível no Brasil, oferecendo aos leitores a experiência completa — sem cortes, pressa ou restrições de orçamento. É a chance perfeita de conhecer, página por página, a aventura que promete redefinir o padrão das histórias de amizade adolescente com toques sobrenaturais.
Ficha técnica
- Obra original: Paper Girls
- Autores: Brian K. Vaughan (roteiro) e Cliff Chiang (arte)
- Publicação: 30 edições (2015-2020) pela Image Comics
- Ambientação: 1988, com saltos temporais até 2019
- Protagonistas: Erin Tieng, Mac Coyle, KJ Brandman, Tiffany Quilkin
- Série de TV: Paper Girls (Amazon Prime Video, 2022, 1 temporada, cancelada)
- Comparação: Stranger Things (Netflix, 2016-presente)




