Lançado em 2017 e atualmente disponível na Netflix, Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe coloca o espectador diante de um clã nova-iorquino cheio de ressentimentos, vaidade artística e amor mal resolvido. Sem recorrer a grandes reviravoltas, o longa acompanha pais e filhos obrigados a conviver sob o mesmo teto enquanto antigas mágoas vêm à tona.
O diretor Noah Baumbach se apoia em diálogos rápidos, muitas vezes desconfortáveis, para expor fraturas emocionais que lembram o cinema intimista de Ingmar Bergman. A força dramática, contudo, nasce sobretudo das atuações de Dustin Hoffman, Emma Thompson, Adam Sandler e Ben Stiller, que traduzem com precisão cada contradição dos personagens.
Elenco entrega nuances de afeto e rancor
Dustin Hoffman assume o papel de Harold Meyerowitz, escultor aposentado cuja autopercepção de gênio incompreendido contamina toda a família. Na pele desse patriarca egocêntrico, o veterano oscila entre charme e crueldade, transformando pequenas conversas em demonstrações involuntárias de poder. O resultado é um personagem simultaneamente irritante e trágico, sustentado por silêncios cheios de significado.
A britânica Emma Thompson surge quase irreconhecível como Maureen, a atual esposa de Harold. Usando sotaque americano arrastado e gestos desajeitados, a atriz confere à personagem certa leveza alcoólica que contrasta com o clima tenso do lar. Mesmo com pouco tempo em cena, ela destaca o conflito central: a família gira em torno de um homem que não sabe lidar com envelhecer.
Noah Baumbach consolida olhar sobre famílias disfuncionais
Desde A Lula e a Baleia, Baumbach demonstra fascínio por estruturas domésticas em frangalhos. Em Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, o diretor refina esse interesse ao retratar três irmãos reunidos para lidar com a saúde do pai. Adam Sandler surpreende como Danny, músico fracassado que carrega sensibilidade ferida no olhar. Ben Stiller interpreta Matthew, corretor de imóveis pragmático e eterno favorito do patriarca, sempre pronto a medir sucesso por cifras.
Esses perfis permitem que Baumbach explore choques de personalidade sem recorrer a vilões unidimensionais. Cada filho tenta agradar Harold por um caminho diferente, revelando que o vínculo familiar, por mais tóxico que pareça, ainda possui raízes afetivas profundas. A câmera do diretor, quase sempre próxima dos rostos, captura tremores de lábio, olhares desviados e respirações contidas que dizem mais do que qualquer fala.
Roteiro equilibra humor ácido e dor cotidiana
Baumbach assina também o roteiro, repleto de interrupções, mudanças bruscas de assunto e passagens de tempo não anunciadas. A estrutura fragmentada reproduz a forma como a memória opera: recordações vêm em ondas, e discussões se repetem sem resolução definitiva. Esse formato confere naturalidade ao texto e exige do espectador atenção redobrada.
Imagem: Divulgação
Apesar do tom melancólico, o filme encontra espaço para piadas sobre “cães depois do divórcio”, receitas experimentais e exposições de arte que ninguém visita. O humor, muitas vezes deslocado, suaviza a pancada emocional sem jamais apagar a tristeza que permeia cada reencontro familiar. É nesse balanço entre riso e lágrima que Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe faz lembrar a crueldade íntima de Bergman, mas temperada com ironia tipicamente nova-iorquina.
Estética e ritmo a serviço dos personagens
O diretor de fotografia Robbie Ryan aposta em cores levemente dessaturadas para registrar Nova York longe do cartão-postal. Ambientes internos, como o apartamento do patriarca ou o corredor do hospital, recebem luz suave, quase opaca, reforçando a sensação de tempo suspenso. A trilha minimalista de Randy Newman surge em momentos estratégicos, sem competir com as falas.
A montagem, assinada por Jennifer Lame, recorta a narrativa em blocos nomeados com o título “Os Meyerowitz Stories”, como se fossem contos individuais dentro de um volume maior. Esse recurso destaca perspectivas específicas – Danny em um bloco, Matthew em outro – e oferece pausa para o público respirar antes de mergulhar em novo embate. O ritmo, portanto, se mantém vivo, ainda que a ação se concentre basicamente em salas de estar e restaurantes.
Vale a pena assistir Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe?
Para quem aprecia dramas familiares que abraçam imperfeições humanas sem recorrer a melodrama, Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe é escolha certeira. As performances afiadas de Dustin Hoffman, Emma Thompson, Adam Sandler e Ben Stiller fazem do filme um estudo de personagem cativante, conduzido pelo olhar aguçado de Noah Baumbach. No catálogo da Netflix, a produção representa oportunidade de conferir como o cineasta traduz conflitos universais em cenas íntimas, mantendo viva a tradição de observar famílias que se amam e se ferem em igual medida. O Salada de Cinema recomenda a experiência para espectadores em busca de diálogos cortantes e emoções autênticas.



