Connor Trinneer, intérprete do engenheiro Charles “Trip” Tucker em Star Trek: Enterprise, confessou que detestou participar dos célebres capítulos do Universo Espelho e, até hoje, se recusa a assisti-los. A revelação aconteceu durante um painel no cruzeiro oficial da franquia, onde o ator dividiu o palco com John Billingsley, Dominic Keating e Anthony Montgomery.
Lançada entre 2001 e 2005 pelo canal UPN, Star Trek: Enterprise completará 25 anos em 2026, mesmo ponto em que a franquia como um todo celebrará seis décadas. O seriado passou por turbulências nas duas primeiras temporadas, mas encontrou fôlego na quarta sob o comando do saudoso showrunner Manny Coto — justamente quando decidiu explorar o controverso Universo Espelho.
Ator lembra set tenso durante a gravação
No cruzeiro, Trinneer foi direto ao ponto: “Eu odiei. Ainda odeio”. Segundo ele, tudo começou no primeiro ensaio de “In a Mirror, Darkly”, dirigido por James Conway, o mesmo responsável pelo piloto da série. Sem saber como distinguir o Trip maligno de seu alter ego habitual, o ator improvisou um “arrr” de pirata — recurso que o diretor levou a sério.
O resultado foi um personagem exagerado, com cicatrizes faciais inspiradas no Capitão Pike de “The Menagerie”. Trinneer pediu uma nova tomada, mas Conway manteve o registro original. “Três semanas depois terminei aqueles episódios e odiei cada segundo”, contou o ator, admitindo que jamais conferiu o resultado na tela.
Como o Universo Espelho virou queridinho dos fãs
O arco em questão tornou-se rapidamente um dos mais comentados de Star Trek: Enterprise. Ambientado em uma realidade onde a Frota Estelar dá lugar a um império autoritário, os capítulos revisitam temas clássicos de Jornada nas Estrelas e entregam versões distorcidas dos protagonistas. Para o público, o contraste foi saboroso; para Trinneer, um pesadelo profissional.
A caracterização ousada da vulcana T’Pol, vivida por Jolene Blalock, e a atmosfera de ação sombria ajudaram a sustentar a popularidade do arco. Mesmo quem critica as primeiras temporadas costuma citar “In a Mirror, Darkly” como ponto alto da série.
A visão de Manny Coto e o impacto criativo na 4ª temporada
Fã confesso de A Série Clássica, Manny Coto assumiu a produção com a missão de resgatar elementos que vinham se perdendo. Sob seu comando, Star Trek: Enterprise incorporou tramas mais curtas, referências diretas ao cânone e, claro, a viagem ao Universo Espelho.
Essa guinada criativa rendeu elogios e melhores índices de aprovação entre os trekkers. Para os roteiristas, o criador via no espelho um laboratório para revisitar dilemas éticos sob uma ótica perversa, estratégia que funcionava como homenagem e reinvenção ao mesmo tempo.
Imagem: Divulgação
Pós-cancelamento e o futuro que nunca aconteceu
Durante a filmagem do arco, elenco e equipe receberam a notícia de que a UPN encerraria a série ao fim da quarta temporada. O baque não surpreendeu, mas selou o destino de qualquer continuidade no Universo Espelho. Coto chegou a rascunhar histórias para uma hipotética quinta temporada que retornariam a essa realidade alternativa, mas os planos morreram ali.
Hoje, Trinneer revisita Enterprise no podcast The D-Con Chamber, que apresenta ao lado de Dominic Keating. Ainda na segunda temporada do projeto, o ator admite que será difícil encarar o “Trip pirata” quando chegar a hora, reforçando o descompasso entre sua memória amarga e o carinho dos fãs por aqueles episódios.
Vale a pena rever Star Trek: Enterprise hoje?
Mesmo com apenas quatro anos de produção, Star Trek: Enterprise oferece um retrato curioso da transição televisiva do início dos anos 2000. A série parte de conceitos familiares, mas abraça riscos conforme avança, refletindo os altos e baixos de seu desenvolvimento criativo.
Os dois capítulos do Universo Espelho permanecem entre os mais discutidos não só pela ousadia estética, mas também pela forma como condensam a filosofia de Manny Coto: olhar para o passado da franquia a fim de projetar novas possibilidades narrativas. Para quem nunca viu, ou para quem deseja avaliar a controvérsia sob outro ângulo, o arco ainda serve como porta de entrada para debates sobre identidade e poder.
No fim, rever Enterprise significa entender as camadas de produção que cercam uma obra que jamais teve vida fácil. E, como lembra o Salada de Cinema, todo legado audiovisual ganha novos significados quando revisitado com distanciamento histórico — ainda que um dos próprios protagonistas torça o nariz para parte dele.


