Quando a Netflix encerrou Mindhunter depois de apenas duas temporadas, muita gente acreditou que faltavam respostas para tramas cuidadosamente plantadas. Mesmo quem não costuma maratonar produções criminais sentiu a lacuna deixada pelo trabalho preciso de David Fincher e pelo elenco afinado.
Surpreendentemente, a solução para esse vazio não veio de outra série live-action. O refinado anime Monster, de 2004, reapareceu no catálogo e passou a atrair o mesmo público sedento por investigações psicológicas, diálogos densos e personagens ambíguos.
Cancelamento de Mindhunter ainda soa injusto
Lançada em 2017, a série baseada no livro Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano manteve impressionantes 97 % de aprovação no Rotten Tomatoes. Jonathan Groff, Holt McCallany e Anna Torv formaram um trio sólido: Groff construiu um Holden Ford contido, quase clínico; McCallany trouxe humanidade ao agente Bill Tench, cheio de culpa doméstica; e Torv emprestou à psicóloga Wendy Carr o distanciamento necessário para equilibrar as obsessões masculinas no roteiro.
A concretude dessas atuações fez o público acreditar em cada entrevista com assassinos reais. Conversas longas, focadas em microexpressões e pausas incômodas, tornaram-se a marca da série. O trabalho do diretor de casting Laray Mayfield foi fundamental para encontrar coadjuvantes assustadoramente verossímeis, como Cameron Britton no papel de Ed Kemper.
Direção meticulosa de David Fincher e a conta que não fechou
Fincher sempre gostou de controlar cada centímetro do quadro. Em Mindhunter, ele aplicou efeitos digitais até em cenários corriqueiros, corrigindo tonalidades de época e eliminando placas modernas. Esse perfeccionismo elevou o custo por episódio a patamares que a Netflix reserva apenas a sucessos globais.
Segundo o cineasta, o plano original previa cinco temporadas. Contudo, o streaming avaliou que o retorno em novos assinantes não justificava o investimento. De forma parecida, o Prime Video também interrompeu Night Sky após um único ano, mostrando como séries de prestígio sofrem para se manter quando os números não acompanham a repercussão crítica.
Monster: o suspense psicológico que ecoa Mindhunter
Monster, criação de Naoki Urasawa, é ambientado na Alemanha pós-Guerra Fria e acompanha o neurocirurgião Kenzo Tenma. Ao salvar a vida de um menino ferido por bala, o médico desencadeia uma cadeia de crimes em série que coloca sua própria ética em xeque. A trama abraça a mesma pergunta central de Mindhunter: por que certos indivíduos cruzam a linha da violência extrema?
Apesar de ser um anime, Monster ignora clichês visuais de olhos arregalados ou humor exagerado. A direção de Masayuki Kojima opta por cores sóbrias, enquadramentos fechados e ritmo cadenciado, enfatizando o trabalho de voz de dubladores como Hidenobu Kiuchi (Tenma) e Ken Narita (Johan). O resultado lembra um drama histórico europeu mais do que uma animação japonesa tradicional.
Assim como Fincher escalou especialistas em comportamento criminal, Urasawa pesquisa perfil psicológico para cada antagonista. A boa notícia é que Monster dispõe de 74 episódios, quantidade suficiente para explorar subtramas e manter a tensão constante. Para quem aguarda o retorno de Mindhunter — possibilidade que o próprio Fincher considera remota —, o anime oferece uma experiência prolongada sem atropelos de roteiro.
Imagem: Divulgação
Atuações e construção de personagens em Monster
O peso dramático do anime repousa em performances contidas. Kiuchi, na versão original, entrega um Tenma que transita entre empatia e desespero crescente, ecoando o dilema moral vivido por Bill Tench na série da Netflix. Já Narita cria um Johan libertino e quase hipnótico, cujo tom calmo contrasta com a crueldade das ações, lembrando a frieza de Edmund Kemper na adaptação de Fincher.
Outro destaque é a investigadora Eva Heinemann, dublada por Mami Koyama, que evita estereótipos femininos frequentes em thrillers. Ela transita entre vítima, antagonista e peça essencial na caçada ao serial killer, tal qual Wendy Carr fazia ao analisar perfis e enfrentar preconceitos dentro do FBI. Essa riqueza de nuances garante que Monster funcione não apenas como sucessor espiritual, mas como estudo independente de personagens.
Os roteiros de Tatsuhiko Urahata usam diálogos econômicos e revelações pontuais para conduzir o espectador. A ausência de trilha sonora em muitos trechos reforça silêncios desconfortáveis, recurso semelhante ao utilizado por Fincher em interrogatórios de Mindhunter. Tal escolha intensifica a atenção do público em detalhes de voz, respiração e entonação.
Vale a pena assistir Monster depois de Mindhunter?
Ainda que animado, Monster apresenta realismo raro e dispensa convenções de ação frenética. Cada capítulo investiga motivações, contexto histórico e consequências de escolhas individuais, trilha familiar a quem se envolveu com Holden Ford e Bill Tench. O público encontra reflexões sobre culpa, determinismo e responsabilidade social, pilares que sustentavam o drama do FBI na produção cancelada.
Para os fãs que sentem falta de uma narrativa longa e cerebral, a disponibilidade integral de Monster no streaming oferece um respiro. A série animada se compromete a entregar desfechos planejados, evitando o corte brusco que prejudicou Mindhunter. Além disso, a direção cuidadosa e o elenco de vozes demonstram que, mesmo em formatos distintos, é possível alcançar o mesmo patamar de tensão psicológica.
No fim das contas, Salada de Cinema observa que o interesse por tramas investigativas complexas permanece alto. Enquanto a volta de Mindhunter segue incerta, Monster confirma que o espaço para suspense criminal de qualidade continua aberto e pode vir de onde menos se espera.


