Em 24 de março de 2026, a Disney+ celebrou os 20 anos de Hannah Montana com um especial nostálgico que levou fãs de volta aos anos 2000. A produção reacendeu o debate sobre o legado da sitcom e, principalmente, sobre como a obra envelheceu.
Rever a trajetória de Miley Stewart, interpretada por Miley Cyrus, é divertido, mas também escancara falhas difíceis de ignorar. A seguir, analisamos performances, escolhas de roteiro e direção, listando sete pontos que soam desconfortáveis hoje.
O impacto de Hannah Montana depois de 20 anos
Lançada em 2006 no Disney Channel, a série criada por Michael Poryes, Rich Correll e Barry O’Brien virou fenômeno mundial ao retratar a vida dupla de uma adolescente anônima e, ao mesmo tempo, superestrela pop. A fórmula rendeu quatro temporadas, um filme para cinema e a explosão de Miley Cyrus como ícone cultural.
Duas décadas mais tarde, o humor ligeiro, os cenários coloridos e as canções chicletes ainda despertam memória afetiva. Contudo, a comédia é claramente fruto de seu tempo: piadas e arquétipos aceitos nos anos 2000 hoje provocam estranhamento, algo que a própria equipe criativa nunca imaginou lidar tão cedo.
Atuações e construção de personagens
Miley Cyrus exibe carisma natural, alternando com desenvoltura entre a ingênua Miley Stewart e a confiante Hannah Montana. Emily Osment (Lilly) e Mitchel Musso (Oliver) completam o núcleo com química evidente, sustentando o ritmo pastelão exigido pelos roteiros.
Apesar disso, parte do elenco se perde em estereótipos rasos. Jason Earles, como Jackson, vira alívio cômico quase exclusivo, enquanto Moisés Arias carrega Rico até o limite do insuportável. A limitação não recai sobre os atores, mas sobre textos que insistem em repetir as mesmas piadas, reduzindo complexidade e brecando a evolução dos personagens.
7 verdades incômodas ao revisitar Hannah Montana
- Piadas que envelheceram mal – O roteiro recheou episódios com trocadilhos de duplo sentido e comentários gordofóbicos direcionados a convidados como Thor. O timing funcionava em 2006, porém hoje causa constrangimento.
- Miley nem sempre foi boa amiga – A protagonista mente seguidamente para Lilly e Oliver. A repetição de conflitos baseados em segredos faz a amizade parecer frágil e exaustiva.
- Jackson reduzido a piada ambulante – Sempre atrapalhado, o irmão de Miley raramente escapa de situações humilhantes. Sua jornada profissional, amorosa e escolar serve apenas como gag recorrente.
- Paternidade questionável de Robby Ray – Billy Ray Cyrus defende bem o papel, mas o pai permissivo deixa a filha viver na mentira sem medir consequências, enquanto Jackson fica em segundo plano.
- Rico e a toxicidade elevada ao cubo – Rico abusa de poder, humilha funcionários e reforça masculinidade tóxica, sem jamais enfrentar punições concretas dentro da narrativa.
- A lógica falha da vida dupla – A peruca loira e o leve sotaque não bastam para convencer quem convive diariamente com Miley. A suspensão de descrença sofre, evidenciando furos no roteiro.
- Canções continuam irresistíveis – Paradoxalmente, o maior trunfo permanece intacto. Hits como The Best of Both Worlds e Nobody’s Perfect seguem grudados no ouvido, provando a força musical da série.
Direção e roteiros sob nova ótica
Os episódios dirigidos por Roger Christiansen, entre outros, prezavam por ritmo rápido e sketches independentes, formato clássico das produções infantis da época. Ao rever, porém, a falta de arco dramático mais extenso incomoda, tornando recorrente a sensação de “mais do mesmo”.
Imagem: Divulgação
Em termos de texto, a equipe entregou diálogos ágeis que ajudaram Miley Cyrus a brilhar. Ainda assim, ao retomar certas falas, percebe-se dependência excessiva de estereótipos. Esse padrão fica evidente quando comparado a séries atuais que constroem personagens que conquistaram o público em um único episódio, algo raro em Hannah Montana.
Legado musical permanece como coração da série
A Disney sempre soube emplacar trilhas sonoras, e aqui não foi diferente. A produção de Matthew Gerrard e Jamie Houston resultou em álbuns que venderam milhões. Ao reassistir, dá para notar que muitas cenas foram construídas para encaixar clipes, quase como minivideoclipes dentro da narrativa.
Esse formato, embora evidente, sustenta a energia do seriado e explica por que as músicas ainda tocam em festas temáticas. Para o Salada de Cinema, é justamente o fator musical que impede o envelhecimento completo da obra.
Vale a pena rever Hannah Montana?
Se a curiosidade é matar saudade das canções e da química entre Miley, Lilly e Oliver, a resposta é sim. Porém, prepare-se: piadas desatualizadas, decisões parentais questionáveis e tramas recicladas podem frustrar quem busca algo além da nostalgia.



