Nas planícies poeirentas do oeste do Texas, a rotina de perfuração pouco glamorosa ganha contornos quase operísticos em Landman. A série, que chega à segunda temporada mantendo o fôlego, abraça o espírito do neo-western sem abrir mão de diálogos afiados.
No olho do furacão está Tommy Norris, vivido por Billy Bob Thornton. Entre cacos de ironia e grãos de areia, o personagem vira bússola moral – ou amoral – de um universo onde brota petróleo, mas transborda sarcasmo.
Carisma rabugento de Billy Bob Thornton em Landman
Thornton encontra em Tommy Norris um terreno fértil para revisitar o tipo cínico que o consagrou. O ator enfileira um arsenal de frases que funcionam tanto como alívio cômico quanto como bisturi narrativo, expondo contradições da indústria do óleo. Exemplos não faltam: do choque ao descobrir o preço de um simples cogumelo trufado às patadas dirigidas ao filho Cooper, ele equilibra irritação e ternura sem perder o timing.
A entrega física também salta aos olhos. O cigarro sempre pendurado, a postura ligeiramente curvada e o olhar semicerrado comunicam exaustão crônica, típica de quem passa décadas “consertando” crises alheias. Esse conjunto faz de Thornton a engrenagem que mantém o motor dramático girando – quando ele está em cena, não há furo de roteiro que desvie a atenção.
Dinâmica familiar ilumina outras camadas de humor e conflito
Landman não vive apenas de brocas e cifrões. A trama dosa a vida corporativa com a implosão cotidiana da família Norris. Ali Larter, como Angela, resgata tensão sexual e ressentimento em todos os diálogos com o ex-marido. O jantar em que ela esbanja uma rara trufa branca, arrancando um “Você gastou tudo isso por causa de um fungo?”, sintetiza o atrito entre despautério financeiro e dureza texana.
Michelle Randolph, intérprete da adolescente Ainsley, oferece o contraponto vulnerável que reerga a humanidade de Tommy. Já Jacob Lofland, na pele de Cooper, vira alvo preferido das piadas paternas, como quando o protagonista humilha o filho pelas escolhas de negócios e ironiza seu “patrimônio do tamanho de uma caminhonete velha”. Essas interações sustentam o humor ácido, mas também ampliam o leque dramático.
Direção e roteiros: ritmo entre drama operário e comédia sombria
Sem recorrer a grandes pirotecnias visuais, a direção aposta em planos fechados, evidenciando poeira no rosto dos personagens e a sensação de claustrofobia moral que impera no universo de M-TEX. Esse intimismo contrasta com o gigantismo dos campos de perfuração ao fundo, reforçando o conflito entre ambição corporativa e erosão afetiva.
Imagem: Divulgação
No texto, os roteiristas enxertam comentários sociais sem perder fluidez. Basta o diálogo em que Tommy compara hábitos italianos a costumes texanos para surgir uma crítica ao açúcar na dieta americana. Em outro momento, o comandante da trama dispara contra um talk show matinal, sinalizando que Landman não hesita em cutucar feridas culturais. Essa mescla entre crítica e pilhéria lembra a ousadia de títulos que buscavam o trono de dramas como Peaky Blinders.
Humor ácido sustenta a veia político-social do neo-western
A série trafega por temas espinhosos – masculinidade tóxica, exploração ambiental, corrupção – mas disfarça parte da amargura com escatologia verbal. Quando Tommy aconselha o pai a nunca “colocar o seu órgão no omelete de uma mulher”, não há meia-palavra: é constrangimento que vira risada, mas também diagnóstico de uma cultura impregnada de machismo.
Esse verniz cômico lembra o recurso adotado por produções que redefiniram a televisão, tal qual as ficções comentadas nesta lista de séries que revolucionaram o formato. Em Landman, porém, o humor não mascara as falhas dos personagens; ele escancara cicatrizes e torna o espetáculo tão desconfortável quanto viciante.
Landman vale a maratona?
Com ênfase na dupla Billy Bob Thornton e Sam Elliott, a segunda temporada eleva o tom dramático sem abandonar o deboche que virou marca registrada. A fotografia acentua o calor sufocante do deserto, o roteiro injeta notas de thriller corporativo e o elenco secundário garante respiração entre um conflito e outro. Para quem busca um neo-western que mistura sarcasmo e crítica social, Landman entrega um terreno repleto de petróleo – e de boas gargalhadas.
Se o leitor do Salada de Cinema procura personagens complexos, na linha de séries como Andor, encontrará em Tommy Norris um anti-herói à altura. A maratona, portanto, compensa cada gota de suor ocre derramada nas proximidades do derrame de petróleo texano.



