Desde que a Netflix se tornou sinônimo de maratona, o público acostumou-se a investir horas em temporadas ambiciosas esperando um clímax memorável. Porém, nem sempre o desfecho corresponde ao carinho cultivado ao longo dos episódios.
De megaproduções a dramas intimistas, alguns títulos derraparam exatamente na hora de dizer adeus. A seguir, analisamos elenco, direção e roteiro de dez séries cujos finais deixaram um gosto amargo, procurando entender como boas performances nem sempre salvam soluções narrativas apressadas.
Blockbusters que perderam a mão no clímax
Stranger Things chegou ao último episódio depois de uma década mantendo o carisma do elenco juvenil. Millie Bobby Brown continuou segura, principalmente nas cenas íntimas, mas a direção dos irmãos Duffer abraçou uma estética grandiloquente que transformou o suspense oitentista em ação barulhenta. Com tantas frentes dramáticas, o roteiro sacrificou profundidade dos coadjuvantes e diluiu o impacto do “sacrifício” de um personagem querido, rapidamente relativizado por um possível retorno – artifício que afeta a credibilidade do clímax.
Em Sex Education, Asa Butterfield e Emma Mackey mantiveram a química que sustentou o seriado desde o piloto. Mesmo assim, a quarta temporada insistiu em novos alunos e tramas superficiais, tirando tempo de tela dos arcos de Otis, Maeve e Eric. A showrunner Laurie Nunn pareceu dividida entre concluir relações e plantar spin–offs, resultando em episódios que soam como rascunho inacabado.
Já Squid Game cativou pela crítica social afiada, mas, no retorno, o criador Hwang Dong-hyuk mesclou grandes sequências de ação a ganchos publicitários para versões internacionais. Lee Jung-jae continuou intenso, porém o texto preferiu abrir portas a fechar histórias, entregando um epílogo que mais promove novos projetos do que encerra o conto original.
Dramas premiados que falharam na despedida
Ozark foi comparada a Breaking Bad pelo refinamento de atuação de Jason Bateman e Laura Linney. A diretora Laura Linney, que comandou um dos capítulos finais, manteve o nível de tensão, mas o roteiro criou um acidente de carro que nada altera no destino da família Byrde. O assassinato de Ruth (Julia Garner, novamente brilhante) contraria a inteligência estratégica da personagem, tornando a violência gratuita e desprovida de peso emocional.
Em House of Cards, a saída de Kevin Spacey obrigou a série a reposicionar Claire Underwood. Robin Wright assumiu com autoridade tanto diante das câmeras quanto na direção de episódios, mas a equipe de roteiristas não conseguiu equalizar a ausência do anti-herói. A trama política enveredou por conspirações excessivas, comprimidas em poucos capítulos, apressando a queda de peças-chave e entregando um duelo final sem catarse.
Bloodline, por sua vez, sustentou três anos de tensão familiar graças à sutileza de Kyle Chandler e Ben Mendelsohn. Contudo, a terceira temporada abandonou respostas sobre os crimes dos Rayburn e encerrou pontas com monólogos explicativos. A direção de fotografia continuou exuberante nas paisagens da Flórida, mas nem iluminação natural esconde roteiro que evita consequências e esvazia a tragédia prometida.
Imagem: Divulgação
Fantasia e ficção que esqueceram o próprio tom
The Umbrella Academy construiu três temporadas explorando trauma e abuso parental. O elenco, especialmente Robert Sheehan e Elliot Page, demonstrou versatilidade entre comédia e dor. Entretanto, Steve Blackman conduziu o último capítulo a um final otimista para Reginald Hargreeves, anulando toda a discussão sobre cicatrizes emocionais. A sensação é de que a série renegou a própria mensagem na cena derradeira.
Disenchantment, de Matt Groening, trouxe vozes conhecidas como Abbi Jacobson e Eric André em um universo medieval irreverente. A quinta temporada, porém, quis acelerar respostas cósmicas sem dar a Bean um momento de despedida de seus companheiros. Mesmo com animação colorida e piadas pontuais, a ausência de um fechamento emocional faz o adeus soar abrupto.
No caso de Chilling Adventures of Sabrina, Kiernan Shipka manteve o magnetismo de sua protagonista, mas o showrunner Roberto Aguirre-Sacasa apostou em um sacrifício definitivo que lembra tragédias clássicas. A escolha até teria peso, não fosse a execução apressada e a ausência de respiro para o luto dos coadjuvantes, deixando o capítulo final melancólico sem justificar a escalada de escuridão.
Nostalgia e retorno que não convenceram
Gilmore Girls: A Year in the Life vendeu a promessa de realizar as quatro palavras finais sonhadas pela criadora Amy Sherman-Palladino. Alexis Bledel e Lauren Graham mantiveram a química que transformou mãe e filha em ícones da TV, mas o revival repetiu dinâmicas do passado, relegando Rory a erros já vividos por Lorelai. A decisão de não exibir o casamento aguardado há anos e encerrar com gravidez surpresa tira do público a sensação de evolução, transformando a nostalgia em ciclo vicioso.
Em termos de direção, Daniel Palladino optou por planos longos e diálogos ainda mais velozes, homenageando o ritmo original. Contudo, a estrutura episódica inflada — quase longas-metragens independentes — evidenciou que certas histórias talvez pertencessem ao passado. O resultado reforça a ideia de que nem todo clássico precisa de extensão.
Vale a pena maratonar?
Mesmo atoladas em finais decepcionantes da Netflix, essas produções oferecem temporadas iniciais marcadas por atuações sólidas, diálogos afiados e direção criativa. Para quem aprecia mergulhar em construções de mundo, existe muito a ser celebrado antes do tropeço final. No Salada de Cinema, a recomendação é entrar nessas narrativas com expectativas equilibradas, desfrutando do caminho sem esperar que o destino entregue todas as respostas.


