Depois de quase duas décadas longe da televisão, David Chase, criador de Família Soprano, pegou todo mundo de surpresa ao confirmar um novo projeto para a HBO. A série ainda sem data de lançamento, provisoriamente batizada de Project: MKUltra, mira num dos capítulos mais sombrios da história dos Estados Unidos: o programa clandestino de controle mental conduzido pela CIA entre as décadas de 1950 e 1970.
A notícia reacende expectativas altas não só entre fãs, mas também dentro do mercado, que vê em Chase um autor capaz de misturar violência crua, humor ácido e reflexões morais. Agora, ele troca mafiosos de Nova Jersey por laboratórios secretos e drogas psicodélicas — cenário perfeito para seu estilo neo-noir.
Um retorno aguardado desde Família Soprano
David Chase não assinava uma produção televisiva como criador, roteirista e produtor desde o fim de Família Soprano, em 2007. Aos 80 anos, o showrunner poderia simplesmente descansar sobre o legado de Tony Soprano, mas escolheu voltar ao set movido, segundo ele, pela “paixão” pelo novo enredo.
Na prática, o anúncio faz da HBO novamente a casa onde Chase fará experiências narrativas. O canal, que já investe em dramas densos como Monarch: Legado de Monstros – temporada 2, reforça o catálogo com uma produção de temática atual: conspirações de Estado, manipulação de massas e paranoia coletiva.
A trama real por trás de Project: MKUltra
Entre 1953 e 1973, a CIA coordenou experimentos ilegais para alterar a mente de civis e militares. As táticas incluíam doses secretas de LSD, sessões de eletrochoque e hipnose sem consentimento. Alvos preferenciais eram presidiários, pacientes psiquiátricos e jovens usuários de drogas atraídos pela promessa de “amostras grátis”.
Segundo registros oficiais, a meta era desenvolver técnicas para quebrar resistências psicológicas, influenciar comportamentos e até criar múltiplas personalidades — ideias que, em escala dramática, lembram o processo de “severance” mostrado no thriller de ficção Severance, da Apple TV+. A diferença, como a série de Chase pretende apontar, é que tudo aconteceu de fato e deixou mortos pelo caminho.
Crimes de Estado e paralelos com Severance
Os paralelos com Severance devem render comparações inevitáveis. Na obra de Dan Erickson, uma corporação corta memórias de funcionários para criar trabalhadores subservientes. Já no mundo real, os cientistas da CIA buscavam exatamente esse estado de obediência — porém com métodos dignos de tortura.
Imagem: Divulgação
A natureza documental de Project: MKUltra, combinada à ironia típica de Chase, promete um contraste interessante: um thriller sombrio carregado de humor negro. Esse equilíbrio já rendeu elogios em Família Soprano e também faz parte do DNA de produções como Black Sails, que mistura aventura com crítica social. No novo projeto, o autor deve reforçar debates sobre ética governamental e impunidade — afinal, ninguém foi responsabilizado criminalmente pelo programa da CIA.
Expectativas de tom e linguagem na nova série de David Chase
Quem acompanhou Tony Soprano em crise de meia-idade sabe que Chase não recua diante de personagens moralmente ambíguos. Em Project: MKUltra, a aposta é que agentes do governo e cientistas apareçam longe da caricatura, exibindo contradições humanas ao mesmo tempo em que participam de atos atrozes.
Aos fãs de frases cortantes, violência estilizada e reviravoltas desconfortáveis, a série promete servir tudo em doses generosas. Ainda não há elenco divulgado, mas a expectativa é de nomes capazes de sustentar diálogos ácidos e dilemas éticos complexos — assinatura que fez de Família Soprano referência obrigatória no panteão televisivo.
Vale a pena ficar de olho em Project: MKUltra?
Combinando fatos históricos perturbadores, humor sombrio e o olhar clínico de David Chase para falhas humanas, Project: MKUltra desponta como uma das estreias mais instigantes da próxima safra da HBO. Para o Salada de Cinema, que sempre acompanha lançamentos de peso, a produção surge como prato cheio para quem aprecia narrativas adultas sobre poder e culpa. Se as promessas se confirmarem, o retorno do criador de Família Soprano pode entregar outro marco televisivo.



