A pergunta que tomou conta das redes desde o trailer de Dia D tem resposta oficial: Steven Spielberg negou categoricamente qualquer conexão entre o novo filme e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de 1977, em entrevista à Entertainment Weekly. Mas o mais interessante não é o “não” — é o que ele colocou no lugar.
A troca de vilão revela como Spielberg lê o mundo em 2026
A semelhança superficial entre os dois filmes é real: ambos giram em torno de encontros com extraterrestres e da ideia de que a verdade está sendo ocultada. O que muda, segundo o próprio diretor, é quem faz o encobrimento — e essa diferença não é apenas de roteiro, é uma declaração sobre o momento atual.
Em Contatos Imediatos, o governo federal era o guardião do segredo alienígena. Em Dia D, esse papel pertence à corporação fictícia Wardex. A lógica de Spielberg para essa virada: “Eu realmente não acredito que governos consigam guardar segredos, mas grandes empresas de tecnologia conseguem. E existem empresas contratadas que, acredito eu, detêm todo o conhecimento e possuem os arquivos, não os governos.”
É uma posição que ressoa com debates reais sobre transparência corporativa, poder das big techs e a erosão da confiança nas instituições públicas. Ao substituir o governo pela corporação como antagonista central, o filme sugere uma leitura de que o perigo hoje não vem do Estado — vem de entidades que operam fora de qualquer controle democrático.
Wardex como espelho de uma ansiedade contemporânea
No filme, a Wardex é descrita pelo próprio Spielberg como uma organização que “opera fora das restrições constitucionais e possui todo esse conhecimento. Eles são os que estão tentando recuperar essas informações dos nossos heróis denunciantes.” O paralelo com debates atuais sobre empresas de defesa privada e sigilo corporativo é difícil de ignorar — e, pelo tom da entrevista, parece deliberado.
Esse eixo corporativo também explica por que Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth e Colman Domingo foram escalados para papéis centrados em personagens comuns confrontados por um sistema maior do que eles. No trailer, a personagem de Blunt — uma apresentadora do tempo — aparece visivelmente fora de controle ao ser possuída por uma entidade desconhecida, em cenas que estendem o fenômeno a animais e até freiras, sugerindo escala global.
O roteiro é de David Koepp, parceiro histórico de Spielberg em Jurassic Park, Guerra dos Mundos e Indiana Jones 4 — uma colaboração cuja bilheteria combinada ultrapassa US$ 3 bilhões globalmente. A escolha de Koepp para um projeto de ficção científica com ambições temáticas mais densas não é trivial: ele já demonstrou habilidade em equilibrar espetáculo popular com tensão paranóica.
O retorno mais esperado da ficção científica adulta
Dia D marca a volta de Spielberg ao universo de alienígenas pela primeira vez desde Guerra dos Mundos, de 2005 — um intervalo de duas décadas. Nesse período, o diretor transitou por projetos como Lincoln, O Espião, Pronto Player One e Os Fabelmans. O retorno ao gênero que o consagrou carrega, portanto, expectativas acumuladas.
As primeiras reações anteciparam um filme mais sombrio e politicamente carregado do que os trabalhos anteriores de Spielberg com extraterrestres. A recepção inicial apontou para um dos seus trabalhos mais densos em muito tempo — o que, considerando a filmografia do diretor, é uma afirmação de peso.
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 11 de junho de 2026, produzido pela Universal e pela Amblin Entertainment. Para quem esperava uma continuação espiritual de Contatos Imediatos, Spielberg foi direto: não é isso. O que ele entrega, segundo indica o material divulgado, pode ser algo mais incômodo — um thriller que usa alienígenas para falar de poder corporativo em vez de maravilha cósmica.










