Adam Scott já sobreviveu a muita confusão em Parks & Recreation e viajou pela mente alheia em Severance, mas nada disso prepara o espectador para a maneira como The Saviors vira sua imagem pelo avesso. Ao lado de Danielle Deadwyler, elogiada por Till e The Harder They Fall, o ator encara um thriller de ficção científica que aposta justamente no histórico dos dois para criar um jogo psicológico curioso.
Dirigido e coescrito por Kevin Hamedani, o longa estreou no SXSW em 13 de março e ainda aguarda data de lançamento mundial. Com clima suburbano, a trama apresenta um casal em crise que aluga a garagem para dois irmãos misteriosos, desencadeando acontecimentos cada vez mais estranhos. A seguir, o Salada de Cinema destrincha como elenco e direção se encaixam nessa engrenagem de paranoia.
Elenco escalado para derrubar expectativas
Hamedani partiu de um conceito simples: “desarmar” o público. Para isso, ele manteve Adam Scott ligado ao projeto por anos, justamente por saber que o espectador associa o ator ao humor. Quando Scott surge em um contexto de tensão, o primeiro instinto é relaxar – até perceber que a história não tem nada de sitcom.
Foi o próprio Scott quem sugeriu Danielle Deadwyler como a outra ponta do casal. A atriz, cujo currículo passa pelo faroeste The Harder They Fall e pelo drama biográfico Till, chega carregando uma gravidade que contrasta com a persona cômica do colega. Ao colocar esses dois registros lado a lado, The Saviors cria um atrito que mantém a audiência atenta a cada nuance.
Na mesma linha de confundir a plateia, o diretor reuniu um elenco de apoio que vai de Ron Perlman a Greg Kinnear. Kinnear, por exemplo, conhecido por papéis românticos ou leves, aparece aqui em terreno mais sombrio. A escolha reforça a ideia de brincar com a bagagem que cada artista traz.
Ponto pitoresco: há um cachorro em cena. Scott e Theo Rossi, que interpreta o inquilino Amir, brincaram chamando o animal de “elo fraco”, mas admitiram que o bicho gravou tudo em um take só. Depois de produções como Good Boy incentivarem prêmios caninos, não seria surpresa se o pet arrancar aplausos extras dos festivais.
Direção e roteiro alinham paranoia e diversão
Escrito por Hamedani em parceria com Travis Betz, o roteiro equilibra temas pesados – divórcio iminente, xenofobia velada e crises de identidade – com momentos de humor desconfortável. O cineasta afirmou que queria todo mundo “se divertindo” mesmo quando a trama mergulhasse em assuntos espinhosos. A inspiração declarada em The Twilight Zone e Arquivo X transparece na estrutura de mistério crescente e no toque fantástico que jamais descamba para o gore.
Na prática, o filme administra a tensão ao redor de acontecimentos banais: barulhos no quintal, objetos fora do lugar, olhares trocados que podem significar tudo ou nada. Esse minimalismo funciona porque o texto explora bem a desconfiança do casal sobre os novos hóspedes, enquanto a câmera de Hamedani privilegia close-ups que denunciam micro expressões de Scott e Deadwyler.
O casal em frangalhos como motor dramático
Quando conhecemos Sean e Kim Harrison, o casamento já está por um fio. Segundo Scott, seu personagem ainda alimenta esperança de reconciliação, enquanto Deadwyler descreve Kim como alguém que vive “dia após dia”, dividida entre tentar salvar a relação e ceder ao medo que cresce na garagem.
A dinâmica funciona porque cada ator traz bagagem distinta: Scott carrega o timing cômico que suaviza a dor de Sean, enquanto Deadwyler injeta intensidade dramática a cada recuo de Kim. O público assiste a duas leituras de desespero que raramente se alinham, o que reforça a sensação de descompasso dentro da própria casa.
Imagem: Divulgação
Esse elemento de tensão doméstica lembra outras produções que transformam o lar em campo de batalha. A diferença é que The Saviors evita exagerar no humor pastelão, ao contrário de obras como “Drag – Invasão Domiciliar”, analisada aqui no site em tom de comédia de sobrevivência. O longa de Hamedani prefere o desconforto lento, mais próximo de um episódio prolongado de suspense televisivo.
Time de apoio amplia a atmosfera de desconfiança
A adição de atores com presenças marcantes, como Ron Perlman e Nazanin Boniadi, amplia a gama de suspeitos. Greg Kinnear, escalado depois que Scott o viu em uma participação cômica em Curb Your Enthusiasm, injeta humor seco em uma aparição curta mas efetiva.
Kate Berlant, amiga pessoal de Scott, também se junta ao grupo e acrescenta um tom quase absurdo em meio ao clima de investigação. Segundo Hamedani, o elenco se formou em questão de dias, “como uma bola de neve”. A rapidez sugere afinidade instantânea, percebida nos diálogos que soam naturais mesmo quando a situação beira o surreal.
Até o “cachorro problemático” participa da construção de tensão. A antipatia geral pelo animal nos bastidores acabou se convertendo em cena filmada de primeira, prova de que, às vezes, a turbulência real pode render momentos cinematográficos certeiros.
Vale a pena assistir?
The Saviors ainda não tem data confirmada de estreia global, mas a recepção calorosa no SXSW indica curiosidade alta. O filme reúne um elenco diverso e explora o peso das imagens públicas dos atores para pregar peças no público. Essa estratégia, somada ao roteiro que mistura paranoia conjugal e ficção científica, cria um suspense que promete agradar quem busca reviravoltas sem excesso de efeitos.
Para quem acompanha Adam Scott desde a fase cômica ou admira o alcance dramático de Danielle Deadwyler, a produção oferece a chance de vê-los em registros pouco usuais, costurados por uma direção que se inspira em clássicos do mistério televisivo. A presença de nomes como Perlman e Kinnear reforça o apelo pop, enquanto o tom suburbanamente claustrofóbico mantém a narrativa próxima do cotidiano.
No fim das contas, a mistura de gêneros e o jogo com as expectativas de elenco fazem de The Saviors um candidato interessante ao radar de quem gosta de thrillers que se alimentam mais de clima do que de pirotecnia. Fique de olho quando o título chegar aos cinemas ou ao streaming.



