Doze anos depois de seu último episódio, The Comeback volta à HBO com o status de comédia cult e uma façanha nada modesta: 90% de aprovação inicial no Rotten Tomatoes. O índice supera com folga os 63% da estreia em 2005 e os 86% da segunda leva, lançada em 2014.
A façanha coloca a produção estrelada por Lisa Kudrow na dianteira das comédias do canal e cria expectativas altas para a despedida marcada para 22 de março, às 22h30 (horário de Brasília), na HBO e na HBO Max. Nesta crítica, o Salada de Cinema analisa a performance do elenco, as escolhas de roteiro e direção, além do impacto desse retorno tardio — mas festejado — ao universo de Valerie Cherish.
Recorde no Rotten Tomatoes injeta fôlego na reta final
Os 90% de aprovação funcionam como selo de qualidade e resposta imediata ao hiato de mais de uma década. Críticos descrevem a temporada como “hilária” e “emocional”, destacando a sensação de adeus adequado que atravessa os episódios. Essa combinação de humor ácido com vulnerabilidade é o que sempre diferenciou The Comeback de outras sitcoms sobre bastidores de Hollywood.
Em comparação, a temporada inaugural amargou recepção morna, talvez por antecipar em 2005 a explosão de reality shows e da cultura de exposição que só ganharia força anos depois. Já o segundo ano, em 2014, encontrou público mais receptivo, mas ainda abaixo do que a série conquista agora. A evolução sugere que os temas satíricos — envelhecimento em frente às câmeras, busca por relevância e, agora, inteligência artificial na escrita de roteiros — permanecem atuais.
Lisa Kudrow no volante criativo de Valerie Cherish
Após viver Phoebe Buffay por dez anos em Friends, Kudrow assumiu papel triplo em The Comeback: protagonista, cocriadora (ao lado de Michael Patrick King) e produtora executiva. Esse domínio criativo se reflete em uma interpretação que equilibra autoironia e fragilidade, credenciando a atriz a novas indicações ao Emmy — as duas primeiras já vieram pelas temporadas anteriores.
No terceiro ano, Valerie encara produtores que usam inteligência artificial para gerar roteiros, recurso que amplia a crítica à indústria e oferece mais camadas à personagem. Kudrow explora o estranhamento entre técnica e emoção, reforçando o carisma de Valerie mesmo quando a personagem se mostra egocêntrica ou deslocada. É o tipo de atuação que prende o olhar e transforma cada constrangimento em ouro cômico.
Direção e roteiro apostam em metalinguagem
Michael Patrick King divide a direção com Clark Mathis e mantém o formato “reality dentro da ficção”, alternando câmeras trêmulas e planos fixos de talk-show. O resultado é uma experiência que flerta com documentário, ampliando a sensação de acesso irrestrito à vida da protagonista.
No roteiro, a metalinguagem ganha reforço com a criação de um podcast em vídeo — exibido dentro e fora da trama — conduzido por Evan Ross. A estratégia lembra a construção de universo expandido vista em produções que transformam bastidores em narrativa, como o “estudo de caráter irresistível” destacado na crítica de Jury Duty. Aqui, os roteiristas utilizam o recurso para comentar tendências do audiovisual e, ao mesmo tempo, promover a própria série.
Imagem: Divulgação
Elenco de apoio e participações especiais impulsionam o humor
Dan Bucatinsky, Damian Young, Laura Silverman e Tim Bagley retornam com boas doses de ironia, funcionando como espelhos — ou antagonistas — das inseguranças de Valerie. Já Ella Stiller, Matt Cook e Jack O’Brien trazem energia fresca, reforçando os choques geracionais que permeiam os novos roteiros criados por IA.
O desfile de participações continua: Andy Cohen, Chelsea Handler, Conan O’Brien e RuPaul já passaram pela série, e agora é a vez de Fran Drescher aparecer. Essa galeria de celebridades faz graça justamente com a dinâmica de status que The Comeback satiriza desde o início. Cada rosto famoso surge para legitimar ou detonar Valerie, mantendo a narrativa ácida — e, por vezes, dolorosa — sobre fama efêmera.
Vale a pena assistir à terceira temporada de The Comeback?
Para quem acompanhou as duas primeiras fases, o retorno é quase obrigatório. A temporada assume papel de epílogo, mas evita o clima de tributo gratuito, preferindo piadas afiadas e reflexões sobre relevância artística em tempos de algoritmos.
Novatos também encontram porta de entrada amigável: os roteiristas recontextualizam passado e presente de Valerie sem transformar a série em aula de retrospectiva. Ainda assim, assistir aos anos anteriores enriquece a leitura de camadas emocionais, especialmente quando a protagonista confronta fantasmas criados por ela mesma.
Comédia mordaz, metalinguagem afiada e performance de Lisa Kudrow no auge fazem do terceiro ano uma despedida que honra a trajetória da série e, ao mesmo tempo, crava seu nome nos registros de melhores retornos da TV recente.



