Depois de conquistar o público com humor ácido e muita ironia, Murderbot prepara uma guinada radical. A segunda temporada, prevista para o fim de 2026, adapta Artificial Condition, o segundo livro de Martha Wells, e abraça de vez a estética cyberpunk.
Embora algumas mudanças tenham sido anunciadas pelos showrunners Chris e Paul Weitz, o coração da trama permanece: corpos corporativos dominam tudo e a SecUnit de Alexander Skarsgård segue questionando sua própria programação.
Do riso ao neon: mudança de tom e cenário
O primeiro ano apostou no constrangimento social do protagonista e no clima de camaradagem com a equipe PreservationAux, criando uma comédia de ficção científica quase despretensiosa. Já o novo arco leva Murderbot ao gigantesco complexo de mineração RaviHyral, abandonado por empresas que priorizaram lucro acima de vidas humanas.
Esse palco industrial, recheado de corredores escuros e tecnologia decadente, oferece a atmosfera perfeita para luzes de neon, multidões apáticas e anúncios corporativos opressivos. Elementos que estavam apenas sugeridos na estreia agora viram a espinha dorsal estética da série.
Elenco reunido: decisão dos Weitz reforça dinâmica dramática
Nos livros, a jornada solitária da SecUnit faz com que os personagens se separem cedo. Na televisão, porém, os irmãos Weitz decidiram manter o grupo unido. A escolha preserva a química entre Alexander Skarsgård e Noma Dumezweni, cuja Dra. Mensah continua sendo a âncora emocional da narrativa.
Skarsgård, que já destacava a solidão “robótica” com pequenos silêncios cômicos, terá agora a chance de explorar nuances mais sombrias. Dumezweni, por sua vez, ganha material dramático extra ao enfrentar as consequências legais do embate contra a corporação GrayCris, aspecto que sublinha as críticas anticapitalistas da obra.
Direção e roteiro: dupla mantém ritmo mas troca as cores
Chris e Paul Weitz, responsáveis tanto pelos roteiros quanto pela supervisão criativa, mostraram domínio em equilibrar ação, piadas e exposição tecnológica na temporada inaugural. A expectativa é que repitam a cadência, mas substituam paletas claras por tons frios e vibrantes típicos do gênero.
Imagem: Divulgação
Essa virada visual deve ser realçada pelos trabalhos de Aurora Guerrero e Roseanne Liang na direção de episódios. A dupla já demonstrou habilidade com movimentos de câmera que destacam claustrofobia, recurso essencial quando a história se desenrola em túneis apertados e escritórios iluminados por monitores piscantes—cenário não muito distante do que vimos em produções como Westworld antes de seu fim abrupto.
Corporativismo distópico e humor controlado
Apesar da atmosfera mais pesada, Murderbot não abandona por completo seu senso de humor. As tiradas sarcásticas da SecUnit, muitas vezes direcionadas ao serial “The Rise and Fall of Sanctuary Moon”, continuam funcionando como válvula de escape para o público.
Contudo, o foco recai no confronto direto com GrayCris e na investigação sobre as memórias violentas do protagonista, ampliando a crítica social já presente nos diálogos. Esse equilíbrio entre introspecção, comentário político e piadas metalinguísticas promete diferenciar a série de outras apostas cyberpunk da própria Apple TV+, como Neuromancer, prevista para a mesma janela de lançamento.
Vale a pena esperar pela temporada 2?
Se a primeira safra conquistou pela leveza, a vindoura promete profundidade. A manutenção do elenco garante continuidade emocional, enquanto o novo cenário cyberpunk expande a ambição visual. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de boas adaptações literárias, Murderbot retorna com potencial de agradar tanto leitores de Martha Wells quanto fãs de ficção científica televisiva.


