Grind (título original) estreou mundialmente em 12 de março, no South by Southwest, e rapidamente virou o novo queridinho do circuito de terror independente. O longa nasce do espírito “faça-você-mesmo” de Brea Grant e Ed Dougherty, dupla que já havia experimentado a fórmula no curta MLM, rodado um ano antes dentro da própria casa de Dougherty.
A produção, orçada de forma enxuta e filmada em Los Angeles, encara o mercado de trabalho contemporâneo como matéria-prima para o horror. A estrutura de antologia junta quatro histórias unidas por um fio narrativo comandado por Chelsea Stardust, que também assina a produção executiva.
Do curta ao longa: bastidores DIY de Grind
Grant e Dougherty entraram em Grind com todo o roteiro já mapeado. Mesmo assim, a captação de recursos levou tempo; enquanto o orçamento não fechava, a equipe rodou MLM no endereço residencial de Dougherty. O material provou a viabilidade do projeto e virou o primeiro segmento do filme.
Durante as gravações, o clima de cooperativa se sobrepôs ao de set tradicional. A equipe reduziu custos utilizando locações pessoais e aproveitando a rede de contatos que ambos cultivaram em séries como Heroes e Dexter (no caso de Grant) e em coletâneas como The ABCs of Death (no caso de Dougherty). Essa abordagem mantém viva a tradição indie do festival texano e ecoa outras obras recentes que alcançaram bom retorno para estúdios menores, lembrando o desempenho de Undertone, citado na seção de bilheteria do Salada de Cinema.
Quatro segmentos, um mesmo inferno corporativo
A antologia costura quatro pontos de vista distintos, todos ligados ao desgaste profissional contemporâneo:
- Hustle de marketing multinível, inspirado diretamente no curta MLM.
- A rotina repetitiva de um entregador de aplicativo.
- O trabalho de um moderador de conteúdo on-line exposto a vídeos perturbadores.
- O processo de sindicalização em uma cafeteria indie.
Barbara Crampton resume o tema como “senhores corporativos dominando nossas vidas e reduzindo pessoas a peões”. Essa linha conceitual percorre todo o filme, reforçada pela estética abrasiva escolhida por cada diretor responsável por um segmento. O episódio “Content”, dirigido por Dougherty, por pouco não incluiu materiais considerados “insuportáveis” pela própria Grant, revelando como o projeto testou limites éticos dentro da narrativa.
Já o arco “Warehouse Wonders/The Black Box”, conduzido por Stardust, serve como moldura que apresenta o universo e arremata a história. A cineasta admite ter sentido a pressão de “puxar” o público logo na abertura e deixar uma impressão forte no desfecho, tarefa que se mostra decisiva para a coesão do longa.
Elenco navega entre horror e humor ácido
O time de Grind mistura nomes cultuados do terror a rostos populares da comédia televisiva. A veterana Barbara Crampton abraça o papel de uma empresária de leggings inspirada em figura real, explorando facetas cínicas pouco vistas em sua carreira. Ao lado dela, Rob Huebel incorpora mais um de seus “chefes canalhas”, zona de conforto que o ator reconhece como “serviço público” de caricaturar figuras tóxicas.
Imagem: Divulgação
Christopher Rodriguez-Marquette comenta que, no set, a ordem era “tentar acompanhar Huebel”, já que o comediante raramente repetia uma tomada da mesma maneira. A improvisação ganhou espaço graças ao texto “afiado e espirituoso”, segundo o elenco, permitindo que as piadas emergissem naturalmente sem comprometer a tensão. A química lembra o elenco afiado de Eu Amo Boosters, outro recente híbrido de sátira e crítica social.
A lista de participações especiais ainda inclui Mercedes Mason, James Urbaniak e Ify Nwadiwe. Cada um soma características específicas do terror e da comédia, reforçando a proposta de fundir sustos e humor negro, recurso que Grant já havia explorado em Lucky.
Direção compartilhada mantém ritmo e identidade visual
Para dividir as rédeas, Grant brinca que ela e Dougherty “disputaram no braço-de-ferro” quem comandaria cada bloco — mas o processo se mostrou orgânico. A cineasta não quis dirigir “Content”, por nunca ter visto vídeos realmente perturbadores, o que levou Dougherty a assumir o comando com uma montagem crua e frenética.
Stardust ficou encarregada de resolver empates criativos, função que ela define como “juíza de ringue”. Ao mesmo tempo, precisou equilibrar logística de produção indie em Los Angeles, desafio que costuma atrasar cronogramas de filmagens de baixo orçamento. Mesmo assim, o resultado final apresenta unidade de tons: cada segmento tem estética particular, mas todos reverberam a crítica social ao trabalho precarizado.
Vale a pena assistir a Grind?
Grind chega como retrato mordaz do cotidiano profissional, costurando quatro contos que alternam humor ácido e desconforto genuíno. A performance segura de Crampton, a verve cômica de Huebel e a direção colaborativa garantem ritmo ágil e atmosfera coerente, elementos que explicam o burburinho no SXSW. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de produções independentes que usem o terror como espelho social, a obra de Brea Grant e Ed Dougherty surge como experiência relevante e inventiva.



