Desde que Akira Toriyama apresentou Son Goku ao mundo, o herói de cabelo espetado virou sinônimo de Dragon Ball. No entanto, a fase Dragon Ball Super promove uma virada curiosa: pela primeira vez, a produção trata Vegeta como peça tão — ou mais — essencial que seu antigo rival.
A seguir, analisamos como a série, dirigida por Tatsuya Nagamine e roteirizada por Ryu King e Hiroshi Yamaguchi, constrói essa nova dinâmica, valorizando o desenvolvimento dramático do príncipe dos Saiyajins, sua presença em batalha e a reverberação desse protagonismo na performance do elenco de vozes.
Igualdade inédita entre Goku e Vegeta impulsiona a trama
Dragon Ball Super já nasce, em Battle of Gods, com a proposta de equilibrar holofotes. Enquanto Goku encara Beerus pela simples empolgação de um duelo, Vegeta carrega o temor real diante do deus da destruição. A preocupação dele com a segurança de Bulma e dos amigos movimenta o roteiro, provando que sua motivação pessoal também dirige o enredo.
Ao longo dos 131 episódios, a sensação de “dupla protagonista” fica ainda mais evidente. Seja no Torneio de Sobrevivência ou na saga de Moro, cada decisão crucial tem participação direta do ex-vilão, algo inédito nas séries anteriores. A direção de Ryota Nakamura e Masanori Sato aproveita a química dos dois Saiyajins para alternar foco de câmera, cortes de reação e enquadramentos, reforçando a condição de iguais.
Evolução dramática do príncipe dos Saiyajins
Goku concluiu seu arco clássico em Dragon Ball Z: tornou-se avô, dominou o Super Saiyajin 3 e fechou a jornada do herói. Cabia a Dragon Ball Super encontrar novos conflitos — e eles surgiram naturalmente em Vegeta. Carregando culpa, orgulho e desejo de superar seu rival, o personagem entrega camadas que o tornam mais atraente ao público adulto do Salada de Cinema.
A série aproveita esse “terreno fértil” para mostrar o protagonista quebrando o próprio orgulho ao treinar Cabba, assumindo responsabilidades paternas ao proteger Trunks e encarando as consequências de atos antigos em Namekusei. A postura dele culmina no treinamento com Beerus como destruidor, escolha que sinaliza um caminho diferente do de Goku e, portanto, inédito no universo Dragon Ball.
Presença massiva em combate e feitos técnicos impressionam
Em termos de ação, Dragon Ball sempre deu a Goku o maior número de lutas. Agora, a balança vira: Vegeta enfrenta quatro dos cinco adversários do Universo 6 no Torneio de Destruidores e elimina diversos oponentes no Torneio do Poder, enquanto Goku concentra esforços apenas em Jiren. Essa distribuição é reforçada nos storyboards de Kenichi Takeshita e Takao Iwai, que reservam mais quadros de impacto ao guerreiro de armadura azul.
O feito mais marcante, porém, acontece nos bastidores do intervalo entre Battle of Gods e Resurrection F. Sem depender de ritual, Vegeta atinge o Super Saiyajin Deus — algo que Goku só alcançou graças ao poder coletivo. Esse salto técnico reforça a ideia de talento bruto e ilimitado, anteriormente associado apenas ao protagonista principal. Não por acaso, o ranking de melhores lutas de Vegeta ganha novos episódios memoráveis nessa fase.
Imagem: Divulgação
Conexões emocionais amarram cada arco a Vegeta
Outra chave para entender o novo status está no elo pessoal que Vegeta mantém com cada saga. Em Resurrection F, ele enfrenta a sombra de um passado de servidão a Freeza; no arco de Goku Black, a motivação nasce do instinto de proteger Trunks e sua linha temporal. Já na saga de Moro, o peso da destruição de Namekusei recai sobre ele, tornando a busca por redenção mais relevante do que a simples vitória.
No filme Dragon Ball Super: Broly, a narrativa revela que o trauma do antagonista brotou de ordens do rei Vegeta, deslocando a culpa para o clã do príncipe. Mais adiante, no arco de Granolah, a conexão sanguínea com a história Saiyajin faz o personagem compreender o extermínio dos cerealianos de forma muito mais visceral que Goku. Esse fio condutor oferece profundidade rara para uma franquia conhecida pelo foco em batalhas.
Vale a pena assistir Dragon Ball Super?
O trabalho vocal de Masako Nozawa, que alterna com naturalidade entre Goku, Gohan e Goten, continua impecável, mas é a entrega do dublador de Vegeta — intenso em cada grito de transformação — que surpreende pela carga dramática. Essa dupla mantém o ritmo de piadas internas, respiros cômicos e explosões de poder sem deixar o espectador respirar.
Somado a isso, o roteiro de Hiroshi Yamaguchi equilibra humor, drama e cena de ação, transformando cada arco em uma peça de construção de personagem. A fotografia vibrante e a coreografia de Ryota Nakamura fazem com que o espectador perceba, na prática, que o príncipe dos Saiyajins deixou de ser coadjuvante para dividir — ou tomar — o trono narrativo.
Portanto, para quem busca uma continuação que renove os ares da franquia, explore dilemas internos e ainda entregue batalhas dignas de encher os olhos, Dragon Ball Super é uma adição indispensável à maratona. Vegeta finalmente encontra espaço para brilhar — e, pelo visto, não pretende deixar o palco tão cedo.



