Quem cresceu com protagonistas altruístas, discursos sobre “poder da amizade” e finais edificantes pode estranhar o turbilhão sanguinolento de Chainsaw Man. A adaptação do estúdio MAPPA, lançada em 2022, deixou parte do público japonês perplexa por romper cada regra não escrita do shonen, mesmo somando 97% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Nesta crítica, o Salada de Cinema investiga como a direção de Ryu Nakayama, o roteiro de Hiroshi Seko e o trabalho do elenco de voz entregam uma série que parece mais um longa-metragem de arte do que um anime de fim de semana. Sem conclusões fáceis, apenas a dissecação de um fenômeno que divide opiniões.
A quebra das regras do shonen
Desde os anos 80, o subgênero shonen costuma erguer heróis moralmente impecáveis, com sonhos grandiosos como virar Hokage ou Rei dos Piratas. Tatsuki Fujimoto, autor do mangá, resolveu serrar esse pedestal ao meio e nos apresentou Denji, garoto cuja ambição mal passa de comer torrada com geleia e, quem sabe, ter um encontro.
Esse anti-herói satiriza o arquétipo do “Escolhido”. Aqui, morte é casual, nada épica; personagens carismáticos caem sem aviso e background triste não serve de escudo. A sensação de perigo constante transforma o silêncio em prenúncio de carnificina. Fujimoto impõe tensão pura, e a versão animada assume esse clima sem suavizar o grotesco.
A aposta cinematográfica do estúdio MAPPA
Quando a MAPPA anunciou que adaptaria Chainsaw Man, muita gente esperava a adrenalina explosiva vista em Jujutsu Kaisen. Nakayama, porém, priorizou uma experiência de “filme de prestígio”: iluminação hiper-realista, cenários detalhados e ritmo mais contemplativo.
Cada quadro recebe tratamento de live-action. A forma como a luz da manhã invade a cozinha de Denji importa tanto quanto um demônio decapitado em pleno voo. A MAPPA também mistura 2D e CGI com parcimônia, dando ao metal das motosserras um peso físico que raramente se vê em séries semanais.
Esse refinamento visual, elogiado pela crítica internacional, alçou o anime aos 97% no Rotten Tomatoes. Para o público ocidental, tornou-se exemplo de animação voltada a adultos, algo que Hell’s Paradise tenta emular, segundo a análise do portal sobre a segunda temporada.
Personagens imperfeitos e química de elenco
Denji (voz de Kikunosuke Toya) funde-se ao cão-motosserra Pochita e vira funcionário da Segurança Pública. Ao lado dele surgem Aki Hayakawa, interpretado com melancolia por Shogo Sakata, e Power, vivida pela explosiva Fairouz Ai. Longe da tríade tradicional de “melhores amigos”, eles começam como colegas obrigados a dividir um apartamento apertado e migalhas de pão.
Imagem: Divulgação
O elenco de voz vende cada nuance dessa convivência disfuncional. Toya alterna ingenuidade esfomeada e fúria animalesca em milissegundos, enquanto Fairouz Ai injeta histeria cômica sem perder o lado selvagem. Sakata, por sua vez, carrega a dor de Aki nas pausas e suspiros, fazendo de cada xícara de café um lamento por vingança.
Makima, dublada por Tomori Kusunoki, domina a tela com doçura controladora. Sua entonação suave contrasta com o terror que ela inspira, sublinhando a crítica de Fujimoto às estruturas de poder. A direção de Nakayama amplifica isso em enquadramentos fechados, onde um leve sorriso da personagem basta para gelar o sangue.
Divisão de opiniões no Japão
Apesar do sucesso global, parte da comunidade japonesa rejeitou a série. Surgiu até petição pedindo remake “mais fiel ao mangá”. Críticas apontavam realismo excessivo, uso “limpo” de CGI e falta de energia frenética. Para esses fãs, Chainsaw Man deveria ser frenético, não uma meditação sobre existência e morte.
Também incomodou ver Aki fazendo tarefas banais — tomar café, lavar louça — mesmo após traumas. Fujimoto, no entanto, retrata sobreviventes que seguem respirando, não mártires congelados no tempo. Esse choque entre expectativas otaku e a visão autoral de Nakayama criou um abismo cultural difícil de transpor.
Vale a pena assistir?
Chainsaw Man não entrega conforto nem lições de moral. Entrega motosserras, silêncios incômodos e um retrato visceral da juventude usada como ferramenta. Se você busca subversão visual e temática, aliado a atuações vocais de tirar o fôlego, a aposta da MAPPA merece cada gota de sangue derramada na tela.



