Quando foi exibido pela primeira vez em 2010, o episódio “Fly”, da terceira temporada de Breaking Bad, dividiu fãs e críticos. Muita gente o classificou como o momento mais arrastado da série, um verdadeiro “engarrafamento” no roteiro de Vince Gilligan.
Quinze anos depois, porém, a discussão voltou à tona com a chegada de Pluribus, drama de ficção científica da Apple TV. A produção adota o mesmo ritmo contemplativo de “Fly” e reacende o debate sobre a importância desse capítulo aparentemente trivial na trajetória de Walter White.
Como Pluribus resgata o debate sobre o episódio Fly de Breaking Bad
Lançada em 6 de novembro de 2025, Pluribus acompanha Carol (Rhea Seehorn) em um mundo pós-apocalíptico, priorizando longos silêncios e pequenas ações cotidianas. O resultado lembra muito o episódio Fly de Breaking Bad, em que Walter passa quase todo o tempo dentro do laboratório tentando eliminar uma mosca que ameaça contaminar sua metanfetamina.
Na época, o capítulo recebeu a pior avaliação da série porque parecia estagnar a narrativa. Hoje, depois de assistir à mesma abordagem em Pluribus, parte do público admite que o roteiro de Gilligan usou o isolamento para explorar a psicologia de seus protagonistas. Ambos os enredos trocam reviravoltas explosivas por processos minuciosos, obrigando o espectador a encarar as dúvidas morais dos personagens.
Vale lembrar que “Fly” nasceu também de uma exigência financeira; era o clássico “bottle episode”, filmado em cenário único para cortar custos. Mesmo assim, a produção transformou a limitação em recurso dramático, mostrando o controle obsessivo de Walter sobre tudo ao seu redor.
Por que o ritmo lento se tornou essencial
As críticas a Pluribus repetem argumentos antigos: “falta de ação”, “poucas surpresas”, “cenas em que nada acontece”. Porém, essas mesmas sequências — Carol observando fogos de artifício ou simplesmente tirando um dia de folga — funcionam como termômetro emocional. O episódio Fly de Breaking Bad faz algo semelhante quando Walter se perde em paranoias enquanto a mosca zune ao fundo.
Ambos os títulos defendem que a quietude revela mais do que o caos. Walter, preso em sua crise de culpa e perda de controle, encara a mosca como símbolo de contaminação; Carol, sozinha num planeta em ruínas, reflete sobre a urgência de salvar a humanidade sem sucumbir à solidão. A lente de Gilligan se fixa nos detalhes: o zumbido insistente, o brilho distante dos fogos, os gestos repetitivos que enchem minutos inteiros de tela.
Com isso, tanto “Fly” quanto Pluribus reforçam a ideia de que o verdadeiro conflito está dentro dos personagens. Não há vilão externo à altura de uma consciência atormentada ou de um senso de responsabilidade que beira o absurdo. Esse mesmo tema, agora celebrado em Pluribus, ajuda a recontextualizar aquela hora “parada” de Breaking Bad, transformando-a em peça-chave da construção de Walter White.
Imagem: Divulgação
Outro ponto em comum é a ausência de múltiplos ganchos por episódio. Em Pluribus, só há uma grande virada na temporada inteira, enquanto Breaking Bad costumava entregar várias por semana — “Fly” foi a exceção. A estrutura dá espaço para o público processar cada decisão dos protagonistas, aspecto que ganhou nova relevância no debate sobre narrativas televisivas pós-streaming.
A reavaliação não significa que todos passarão a amar o capítulo. Contudo, ao observar como Gilligan aplicou a mesma fórmula em Pluribus, muitos reconhecem que “Fly” sempre foi um laboratório (literal e figurado) para experimentar ritmo, tensão e introspecção sem recorrer a explosões ou tiroteios.
É justamente essa perspectiva que faz sites especializados, como o Salada de Cinema, mencionarem o retorno do interesse pelo episódio Fly de Breaking Bad. As conversas nas redes sociais mostram que, para uma nova geração de espectadores acostumada a maratonar séries, uma história mais contemplativa pode ser não apenas aceitável, mas necessária.
Se Pluribus comprova algo, é que Vince Gilligan continua disposto a desafiar a expectativa de ritmo frenético. E, ao fazer isso, ele convida o público a revisitar aquele momento peculiar em que Walter White empunhou um mata-moscas e, sem saber, revelou algumas das camadas mais profundas de sua jornada.
Ficha técnica
- Breaking Bad: AMC, 5 temporadas (2008-2013). Criador: Vince Gilligan. Episódio em foco: “Fly” (T3E10), dirigido por Rian Johnson.
- Pluribus: Apple TV, estreia em 6 de novembro de 2025. Criador: Vince Gilligan. Elenco principal: Rhea Seehorn, Karolina Wydra, Zosia.
- Tema do artigo: reavaliação do episódio Fly de Breaking Bad a partir dos elementos narrativos de Pluribus.



