Brad Bird está mexendo de novo em uma das ideias mais complicadas da própria carreira. Depois de anos em que 1906 parecia grande demais para sair do papel, o diretor confirmou no Festival de Cinema de Middleburg que esse será seu próximo trabalho em live-action.
O detalhe que torna a notícia mais interessante não é apenas a volta ao formato, onze anos depois de Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível. É que 1906 nasceu como um projeto enorme na Disney/Pixar, ainda em 2007, e esbarrou justamente naquilo que costuma separar sonho de produção: custo, escala e a dificuldade de recriar uma tragédia histórica sem reduzir tudo a espetáculo.
O projeto que ficou grande demais para sair da Pixar
1906 adapta o romance homônimo de James Dalessandro, publicado em 2004, sobre o terremoto de São Francisco e os incêndios que vieram depois. A catástrofe matou mais de 3 mil pessoas e destruiu mais de 80% da cidade, um número que ajuda a entender por que a história exige mais do que um drama de época convencional.
Bird trabalha para tirar essa adaptação do papel há quase duas décadas. O projeto ganhou tração depois de Os Incríveis e Ratatouille, quando o cineasta já tinha força suficiente para propor algo fora da zona de conforto da animação familiar, mas o orçamento cresceu acima do que o estúdio esperava.
A escala de São Francisco é o verdadeiro obstáculo
O desafio de 1906 passa por reconstruir a São Francisco do início do século XX e, ao mesmo tempo, mostrar a destruição causada pelo terremoto e pelo fogo. Não é só uma questão de efeitos visuais caros; é uma questão de controle de tom, porque a história parte de uma tragédia real e de consequências humanas muito concretas.
O formato ainda mexe com a ambição da história
Em julho de 2026, durante a San Diego Comic-Con, Bird comentou que vinha pensando em 1906 como uma minissérie limitada de oito episódios no Disney+.
Por que 1906 marca uma volta diferente ao live-action?
O último live-action dirigido por Bird foi Tomorrowland, lançado em 2015. Antes disso, ele já tinha mostrado domínio de escala em Missão: Impossível: Protocolo Fantasma, um filme que funcionava em parte porque entendia ação como geografia, risco físico e clareza visual, não apenas correria de cena em cena.
Essa experiência importa para 1906 porque o projeto pede justamente alguém capaz de organizar caos. Um terremoto, incêndios em sequência e uma metrópole em colapso podem virar barulho na mão errada; na trajetória de Bird, o interesse costuma estar em transformar movimento em narrativa, seja com uma família de super-heróis, um rato cozinheiro ou Tom Cruise pendurado em um prédio.
Também há um peso de carreira nessa escolha. Bird chegou a recusar a direção de Star Wars: Episódio VII e já falou sobre ter vários filmes não realizados que ainda gostaria de fazer. 1906 entra nesse grupo como um projeto antigo demais para ser tratado como novidade passageira.
Ray Gunn chega antes e mede o momento de Brad Bird
Antes de 1906 ganhar forma para o público, Bird lança Ray Gunn, animação da Skydance Animation que terá exibição limitada em 4 de dezembro de 2026, incluindo sessões em 70mm, e chega à Netflix em 18 de dezembro de 2026. O filme estreou no BFI London Film Festival em 10 de outubro de 2026 e aparece com 71 pontos no Metacritic, um termômetro inicial de recepção crítica.
A premissa de Ray Gunn mistura ficção científica e investigação noir em Metropia, uma cidade retrofuturista habitada por humanos e alienígenas. Sam Rockwell, lembrado por Três Anúncios para um Crime, dá voz ao detetive Raymond Gunn, enquanto Scarlett Johansson, de Jojo Rabbit, interpreta Venus Nova.
Essa proximidade entre os dois projetos ajuda a ler o momento do diretor. Ray Gunn também ficou anos em desenvolvimento, mas chega ao público como uma ideia original enfim concluída; 1906, por sua vez, ainda exige uma decisão industrial mais pesada, porque envolve reconstrução histórica, orçamento alto e um formato que precisa comportar a dimensão do evento.
A dúvida entre filme e minissérie muda o tipo de 1906
Se 1906 virar longa-metragem, Bird terá de condensar desastre, personagens, corrupção, ganância e impacto social em uma experiência de duas horas ou pouco mais. Esse modelo pode favorecer o cinema de grande escala, mas também corre o risco de apertar demais uma história que, pela própria origem literária, parece pedir ramificações.
Como minissérie limitada, a adaptação teria espaço para acompanhar a cidade antes do colapso, a resposta institucional ao desastre e as vidas afetadas depois dos incêndios. Na prática, o formato em oito episódios permitiria dividir a tragédia entre espetáculo, investigação e drama humano, sem transformar tudo em uma sequência contínua de destruição.

O impacto de 1906 também passa por Os Incríveis 3
A confirmação de 1906 chega em um momento em que a relação de Bird com a Pixar também mudou de posição. Ele não está à frente da direção de Os Incríveis 3, embora siga ligado ao novo filme como roteirista e produtor executivo, funções que mantêm sua voz criativa sem colocá-lo no comando diário da produção.
Essa divisão ajuda a explicar por que 1906 chama atenção dentro da indústria. Bird não está apenas escolhendo mais um projeto; ele está priorizando uma obra que exige presença autoral forte e que ficou tempo demais associada ao que poderia ter sido seu primeiro live-action.
Na leitura do Salada de Cinema, a notícia pesa justamente por isso: 1906 não parece uma pausa entre franquias, mas uma tentativa de resolver uma pendência artística antiga. O risco é maior, mas a curiosidade também, porque poucos cineastas de animação chegaram ao live-action com uma ideia histórica tão específica e tão difícil de executar.
Com 1906 agora colocado como o próximo trabalho em live-action de Brad Bird, o ponto a acompanhar é como essa ambição vai ser acomodada: como cinema de grande escala ou como uma narrativa histórica pensada para o streaming. Em qualquer caminho, a força do projeto está justamente no tamanho do desafio que o impediu de acontecer por tantos anos.
Fonte principal: Festival de Cinema de Middleburg.




