Um filme de terror orçado em apenas meio milhão de dólares acaba de mostrar força digna de blockbuster. Lançado pela A24, Undertone somou US$ 15 milhões após o segundo fim de semana em cartaz e multiplicou por 30 cada centavo investido na produção.
O feito acontece em meio à forte concorrência de Projeto Hail Mary, longa que estreou com cifras estratosféricas. Ainda assim, o desempenho doméstico de Undertone chama a atenção e reforça a tradição da distribuidora em transformar apostas modestas em fenômenos de público.
Fenômeno de bilheteira mesmo com queda expressiva
Undertone chegou aos cinemas em 13 de março de 2026 e arrecadou pouco mais de US$ 9 milhões logo no fim de semana de estreia. Nos dias seguintes, o terror adicionou mais US$ 3 milhões, totalizando US$ 15 milhões apesar de queda de 66,8 % na segunda semana.
O recuo era esperado: o sci-fi Projeto Hail Mary dominou as salas ao abrir com US$ 140 milhões mundiais. Mesmo assim, o saldo parcial de Undertone cobre o orçamento 30 vezes e deve crescer, pois o longa ainda chegará a Austrália e Reino Unido, onde a Vertigo Releasing e a Rialto Distribution cuidam do lançamento.
Direção e roteiro: a mão firme de Ian Tuason
Responsável pelo roteiro e pela direção, Ian Tuason transforma uma premissa íntima em atmosfera sufocante. Inspirado em experiência pessoal, o cineasta acompanha Evy, podcaster cética que retorna à casa da mãe doente e, munida apenas de gravações antigas, mergulha em ruídos macabros que borram o real.
Com 84 minutos de duração, Tuason evita sustos baratos. O diretor prefere construir tensão por meio de silêncios e enquadramentos claustrofóbicos, algo muito elogiado desde a première no Fantasia International Film Festival, em julho de 2025. Pouco depois, a A24 selou um acordo de sete dígitos para distribuir a produção na América do Norte, movida pela precisão técnica vista na sessão canadense.
Atuações em destaque: Nina Kiri carrega a narrativa
No centro da história está Nina Kiri, intérprete de Evy. Com expressão contida e timing certeiro, a atriz transmite incredulidade e crescente pavor sem recorrer a histrionismos. A plateia acompanha cada respiração presa da personagem, sensação potencializada pelo design de som detalhista.
Imagem: Divulgação
O elenco de apoio, formado por Adam DiMarco, Michèle Duquet, Keana Lyn Bastidas, Jeff Yun e Sarah Beaudin, sustenta a protagonista sem roubar a cena – escolha que mantém o foco na jornada emocional de Evy. Esse conjunto de performances recebeu aplausos de parte da crítica, que definiu o longa como “imersivo” e “perturbador” em resenhas que garantiram 72 % de aprovação no Rotten Tomatoes.
Crítica x público: aprovação dividida não freia resultados
Apesar do carinho de analistas, a reação popular ficou no meio-termo: 50 % de aprovação no agregado do Rotten Tomatoes e nota C no CinemaScore. Comentários de espectadores chamam Undertone de “monótono” ou “sem propósito”, em contraste direto com elogios profissionais à construção de atmosfera.
Esse descompasso, contudo, não afeta o rendimento do terror. Após decepções recentes da A24, como How to Make a Killing (US$ 11,5 mi para um orçamento de US$ 15 mi) e o mockumentary The Moment (US$ 5 mi contra US$ 4 mi gastos), Undertone funciona como um alívio de caixa. O estúdio já comemora a perspectiva de lucro ainda maior à medida que novos territórios entrarem no circuito.
Vale a pena assistir?
Para quem busca terror de atmosfera, Undertone entrega suspense gradual, sólida atuação de Nina Kiri e direção precisa de Ian Tuason. Mesmo que o ritmo lento divida opiniões, o resultado confirma o talento do cineasta e justifica a curiosidade em torno de uma possível trilogia mencionada pelo próprio diretor.
Salada de Cinema segue acompanhando a escalada desse pequeno gigante de bilheteria.


