Star Trek: Starfleet Academy desembarcou na Paramount+ com a missão de resgatar a vibração clássica da franquia e, logo de cara, trouxe de volta um dos símbolos mais queridos pelos trekkers: as baleias jubarte. O segundo episódio da primeira temporada, Beta Test, recupera a tradição iniciada há quase quatro décadas em A Volta para Casa e faz dos mamíferos marinhos o ponto de encontro de conflito, reflexão e, claro, deslumbre visual.
Mas as grandes estrelas não são apenas as gigantes aquáticas. O capítulo evidencia o talento do jovem elenco, a mão segura do diretor Alex Kurtzman e o texto de Gaia Violo, que harmoniza nostalgia e frescor. O Salada de Cinema acompanhou cada detalhe e analisa, a seguir, como a produção recoloca a Academia no mapa estelar da TV.
Uma visita clandestina que vale cada take
O ponto alto de Beta Test acontece quando Caleb Mir (Sandro Rosta) leva a colega Tarima Sadal (Zoë Steiner) para conhecer a ala de Operações Cetáceas da USS Athena. A sequência, filmada com iluminação suave e uso moderado de efeitos digitais, apresenta as jubartes como personagens silenciosas que observam o drama dos cadetes. A escolha de Kurtzman por enquadramentos fechados nos rostos de Rosta e Steiner, alternados com planos abertos do tanque, cria um contraste entre a fragilidade humana e a imponência dos animais.
Sandro Rosta comprova química instantânea com a câmera; cada hesitação do personagem surge palpável, sustentada por microexpressões que dispensam diálogos expositivos. Já Zoë Steiner faz de Tarima uma Betazoide dividida entre dever político e curiosidade adolescente. Quando ela encara a jubarte principal, o espectador sente o peso de séculos de isolamento cultural. É o tipo de atuação que entrega camadas mesmo em cenas que poderiam virar mera vitrine de CGI.
Direção que equilibra nostalgia e linguagem contemporânea
Alex Kurtzman, também showrunner, dirige o episódio com ritmo conciso. Nada de contemplação exagerada: os oito minutos no observatório resumem narrativa, fan service e desenvolvimento de personagem. A decisão de filmar parte do tanque com efeitos práticos — usando projeções d’água em vez de green screen total — confere textura analógica que remete aos filmes da década de 1980. Ainda assim, a fotografia usa sensores digitais de alta resolução que capturam cada reflexo de luz no metal da nave.
O resultado é um equilíbrio entre passado e presente, condição essencial para qualquer produção que traga Star Trek no título. Kurtzman sabe disso e replica, aqui, o que Leonard Nimoy fez em 1986: usar as baleias como espelho para discutir ecologia, pertencimento e empatia sem precisar transformar o episódio em sermão.
Roteiro de Gaia Violo conecta tradição e futuro
A função de Violo vai além de citar referências. O texto explora a presença das jubartes não só como lembrança de A Volta para Casa, mas como prova viva de que a Federação do século 32 manteve sua aliança com espécies inteligentes não humanóides. Curiosamente, a roteirista evita diálogos enciclopédicos: em vez disso, Tarima verbaliza que as jubartes “existem fora do julgamento”, frase que resume a tese moral do episódio.
Imagem: Divulgação
Ainda no script, pequenos detalhes de worldbuilding roubam a cena. Ao mencionar que esta é a primeira turma em 120 anos a estudar na Terra depois do Burn, Violo abre espaço para futuros conflitos políticos, sem desviar do foco principal. Tudo se encaixa com naturalidade, inclusive as broncas que os cadetes recebem após o tour improvisado — momento que adiciona pitadas de humor e sublinha a rigidez da Academia.
Elenco coadjuvante e a força coletiva do episódio
Além da dupla central, o episódio oferece participações certeiras. Holly Hunter, em aparição breve como reitora, mostra autoridade seca e olhar que atravessa qualquer cadete. Anthony Natale, presidente de Betazed no universo da série, surge por holocomunicação e transmite dilemas geopolíticos em poucas falas. O roteiro não desperdiça nenhum dos veteranos, mas deixa claro que a história pertence aos novatos.
Destaque também para o design de som. Rugidos suaves das baleias foram gravados em registro natural e apenas filtrados para casar com a ambiência da nave. Esse cuidado acrescenta uma camada imersiva que faz o espectador acreditar que está dentro do aquário estelar.
Vale a pena assistir Star Trek: Starfleet Academy?
Se o parâmetro é Beta Test, a resposta é sim. O episódio confirma o potencial da série em equilibrar lições clássicas de Star Trek com um elenco jovem que não teme protagonizar grandes metáforas. As baleias jubarte voltam a ocupar seu espaço mítico, e o público ganha uma amostra de como a franquia pode dialogar com novas gerações sem perder a essência.



