Florence Pugh carrega Netflix em A Leste do Éden como poucas atrizes dariam conta de uma protagonista tão ambígua quanto Cathy Ames. Só que boa parte do romance de John Steinbeck que serviu de base para a minissérie nem chegou à tela: uma família inteira, que no livro disputa espaço com os Trask por centenas de páginas, ficou praticamente de fora dos sete episódios.
A escolha não é um detalhe de produção qualquer. Ela redesenha o centro de gravidade de uma história que, no papel, soma mais de 600 páginas e duas gerações de personagens brigando por protagonismo. E já rendeu discussão entre quem leu o romance antes de assistir à adaptação de Zoe Kazan.
O que sobrou da família Hamilton na nova versão de Steinbeck
No livro publicado em 1952, os Hamilton formam quase uma segunda espinha dorsal da narrativa, com capítulos inteiros dedicados à vida do patriarca Samuel Hamilton longe do drama dos Trask. Na série, essa independência narrativa foi reduzida de forma drástica: a trama própria da família perde espaço para concentrar o foco em Cathy.
Isso não significa que os Hamilton tenham sumido por completo. A própria Netflix descreve a série como um retrato da rivalidade entre as dinastias Trask e Hamilton no Vale de Salinas, e Samuel Hamilton segue presente na história, vivido por Ciarán Hinds. O que desaparece é o romance paralelo que Steinbeck construiu em torno dele e de sua família, não a personagem em si.
Na prática, a série troca um painel coral por um retrato mais fechado. Christopher Abbott, conhecido por Poor Things, vive Adam Trask, enquanto Mike Faist, que o público recorda de Challengers, interpreta Charles Trask. Os dois seguem cercados pelos Hamilton, mas sem a camada extra de história que o livro reservava a essa família.

Zoe Kazan dividiu o roteiro para caber Steinbeck em sete episódios
A redução não nasceu de pressa criativa. Zoe Kazan, que já havia escrito para The Plot Against America e The Deuce, assina a criação, o roteiro e a produção executiva ao lado do roteirista Jeb Stuart, parceria que o material de divulgação da própria série não destacou com o mesmo peso.
A produção foi filmada na Nova Zelândia, segundo relatou a Carta Capital, cenário usado para recriar o Vale de Salinas do início do século XX. O elenco também cresce além do núcleo Trask e Hamilton, com nomes como Hoon Lee, Tracy Letts, Martha Plimpton e Joe Anders reforçando a produção, ainda que sem o protagonismo reservado a Pugh, Abbott e Faist.
Kazan afirmou que precisou criar cenas inteiras para transformar pensamentos internos do romance em ação, diálogo e imagem, mas disse ter procurado manter essas invenções ancoradas no texto original de Steinbeck. É esse esforço de tradução, de página para tela, que explica boa parte dos cortes: o que funciona como reflexão literária nem sempre sobrevive ao ritmo de um episódio de televisão.

O risco de apostar tudo em Cathy Ames
A Netflix já deixou claro que não vende a série como tradução literal do livro. O termo usado pela plataforma é “interpretação moderna”, o que abre espaço para reorganizar prioridades sem necessariamente trair o espírito do romance.
Ainda assim, parte do público que leu Steinbeck reagiu ao enxugamento dos Hamilton nas redes, argumentando que a família funciona como contraponto moral aos Trask no livro e que sua ausência pode deixar a trama mais linear do que o material original. É uma leitura de fã, não uma crítica de especialista, mas ajuda a entender por que a escolha de roteiro virou ponto de conversa entre quem conhece a obra.
Quem já terminou os sete episódios de A Leste do Éden sabe que a série preserva um dos pilares do romance até o fim: o conceito de timshel e a conversa final entre Adam e Cal Trask, vivido por Joseph Zada, seguem intactos, mesmo com o encolhimento da trama paralela dos Hamilton.
A minissérie completa de A Leste do Éden chegou à Netflix em 1º de outubro de 2026, dentro de uma leva de estreias que também reforça o catálogo de outubro de 2026 reúne leva forte de suspense nos cinemas e na Netflix. Por ora, não há indicação de continuidade para a história além dos sete episódios já disponíveis, já que o projeto foi concebido como minissérie fechada.
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Fonte principal: Netflix Tudum. Informações complementares: Carta Capital, Cenanauta, Martin Cid Magazine.


