O episódio 3 da terceira temporada de A Casa do Dragão faz algo que a franquia nunca tinha tentado: prende a câmera inteira na cabeça de um único personagem. Depois de um prólogo tenso no Reach, o resto da hora segue exclusivamente o ponto de vista de Rhaenyra Targaryen em seu primeiro dia como rainha — e ela erra mais do que acerta.
É uma escolha arriscada para uma série acostumada a saltar entre castelos e batalhas, mas funciona melhor do que eu esperava. O problema é que, ao concentrar tanto peso em uma só personagem, o episódio também expõe rachaduras que estavam escondidas até agora.
A armadilha do falso Daeron no Reach

Antes de chegar a Porto Real, a série abre com um confronto raro entre Daemon Targaryen (Matt Smith) e Ormund Hightower (James Norton), enviado para negociar a rendição do exército do Reach depois da vitória de Rhaenyra na capital. Ormund comanda 15 mil soldados; Daemon tem três dos maiores dragões do lado negro, Caraxes, Vermithor e Silverwing.
Ormund se ajoelha, mas exige que Daemon leve de volta o jovem Daeron Targaryen, filho mais novo de Alicent Hightower que ainda vive sob sua guarda. É aqui que a trama tropeça um pouco: Daemon aceita levar um garoto que nunca viu antes, interpretado por Charlie Gordon, sem perceber que é um substituto. A cena funciona pela atuação de Smith e Norton, mas a lógica da negociação deixa buracos que o roteiro vai ter que explicar mais adiante.
O primeiro dia de Rhaenyra como rainha desmorona aos poucos
Assim que chega a Porto Real, o episódio se torna praticamente um estudo de caso sobre o peso da coroa. Rhaenyra descobre que o tesouro real foi escondido por Tyland Lannister ainda na temporada anterior, precisa demitir o antigo Conselho Restrito por traição e improvisa uma nova estrutura de poder, colocando Mysaria (Sonoya Mizuno) como mestra dos sussurros enquanto Corlys Velaryon (Steve Toussaint) segue como Mão da Rainha.
A sequência mais forte do episódio é o confronto com Alicent, presa ao lado de Helaena Targaryen. Rhaenyra cobra respostas sobre o ouro desaparecido e acaba aceitando a sugestão de Alicent de declarar Aegon II morto para o reino, já que ele ficou desfigurado após a Batalha de Rook’s Rest. É uma decisão que cheira a erro estratégico, e o próprio episódio já sugere que ela vai cobrar um preço alto.
Pouco depois, o Alto Septão (Simon Chandler) se recusa a coroá-la, deixando claro que a Fé dos Sete não reconhece sua autoridade. A cena expõe o lado mais arrogante da personagem quando ela recorre ao “direito divino” para tentar convencê-lo — e o desconforto de Emma D’Arcy no rosto vende bem essa fragilidade recém-descoberta.

Rhaenyra, atuação e o veredito do episódio 3 de A Casa do Dragão
O que mais impressiona é o trabalho de D’Arcy sustentando uma hora inteira quase sozinha, ajudado por um desenho de som que abafa vozes e distorce ambientes conforme a pressão aumenta sobre a personagem. A cena em que Rhaenyra vê o fantasma do filho morto, Jace, no meio do pátio é o ponto alto emocional do episódio e muda na hora sua decisão sobre o que fazer com o falso Daeron.
Nem tudo funciona: a armadilha de Ormund parece um artifício de roteiro para adiar uma confirmação óbvia, e o pedido de Corlys para legitimar os filhos Alyn e Addam de Hull fica pouco desenvolvido diante de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Ainda assim, é um episódio ousado, que arrisca a estrutura tradicional da série disponível na HBO Max para entregar algo mais intimista.
Como crítica, funciona melhor como estudo de personagem do que como avanço de trama: Rhaenyra vira rainha, mas o episódio 2, que mostrou sua ascensão ao trono, ainda pesa sobre cada decisão que ela toma aqui. A morte de Jace, tratada com mais profundidade em outro momento da temporada, também continua moldando cada escolha da personagem — inclusive a forma como ela lida com o destino de Daeron.
⭐ Nota: 8.5/10



