O novo terror da Blumhouse, Obsessão (Obsession), ainda nem alcançou o grande público e já coleciona histórias de bastidores dignas de antologia. A trama ensanguentada sobre desejos que cobram preço alto passou pelos festivais com quase unanimidade crítica — 97% de aprovação no Rotten Tomatoes —, mas precisou ceder ao órgão classificatório para evitar o temido selo NC-17 nos Estados Unidos.
Dirigido e roteirizado por Curry Barker, o longa teve de enxugar uma cena específica, em que o protagonista descarrega meia dúzia de pancadas de cabeça, para garantir o famigerado “R” e, assim, falar com plateias mais amplas. Mesmo enxugado, o momento continua, nas palavras do próprio cineasta, “hardcore pra c***”.
Direção enxuta e aposta no choque
Barker, conhecido pelos independentes The Chair e Warnings, mantém em Obsessão seu estilo de câmera próxima e cortes rápidos. O resultado, segundo quem esteve no TIFF e no SXSW, é um filme em que o ritmo jamais arrefece — cada cena parece sustentada por urgência visceral. Ao quebrar o “Salgueiro de Um Desejo”, objeto místico que move a narrativa, o protagonista sela o pacto que dita o tom do longa: intenso, direto e francamente violento.
O cineasta contou ao Deadline que se recusava a remover qualquer “bash” do polêmico take de esmagamento de crânios. Ainda assim, acabou reduzindo o número de impactos para fugir do NC-17. A decisão, comercial, não compromete a assinatura autoral: o horror segue gráfico o bastante para provocar reações físicas na plateia — situação que Barker gosta de observar do fundo da sala.
Elenco jovem sustenta a tensão
Michael Johnston, lembrado por Teen Wolf, vive Bear, o romântico que topa tudo para conquistar Nikki, interpretada por Inde Navarrette. A química entre os dois conduz a história até os desdobramentos mais sombrios, reforçando o arco “cuidado com o que deseja”. Johnston, que também dubla games como God of War: Sons of Sparta, mergulha em um personagem dividido entre paixão e culpa, investindo em olhares vacilantes e respiração ofegante que acompanham a escalada de horror.
Navarrette, por sua vez, entrega uma Nikki menos vítima e mais catalisadora de tragédias, postura que lembra a maneira como protagonistas femininas contemporâneas vêm sendo retratadas em títulos recentes — como o teen sobrenatural Forbidden Fruits, elogiado em crítica publicada no Salada de Cinema. O resto do elenco — Cooper Tomlinson, Megan Lawless e Andy Richter — surge em participações pontuais, mas suficientes para alimentar viradas gore e reforçar o senso de comunidade que desmorona à medida que o feitiço cobra seu tributo.
Polêmica da classificação indicativa
A cena dos esmagamentos foi o grande obstáculo entre Obsessão e o mercado. Inicialmente com seis ou sete golpes adicionais, o trecho garantiu ao filme o carimbo NC-17, que restringe exibições e, em muitos casos, inviabiliza campanhas publicitárias. Pressionado, Barker removeu parte da sequência. “Eu não queria cortar nada, mas precisei para que o filme fosse visto”, admitiu.
Imagem: Divulgação
Mesmo aparada, a violência continua pesada. O diretor afirma que agora “o número certo” de pancadas gera exatamente a reação desejada: choque, silêncio e, logo depois, suspiros nervosos. Para o estúdio Focus Features, que comprou o longa após o TIFF por mais de 15 milhões de dólares, a modificação significou ampliar horizontes de bilheteria sem diluir a marca Blumhouse de terror extremo.
Recepção nos festivais e expectativa para a estreia
Exibido primeiro em Toronto e depois em Austin, Obsessão arrancou elogios que o chamam de “obra-prima moderna do horror”. Com 108 minutos de duração, o longa foi comparado a sucessos recentes de micro-orçamento que explodiram nas bilheterias, caso de Undertone, da A24, citado em relatório de bilheteria do nosso site.
A expectativa comercial é sólida: carga de curiosidade impulsionada pela polêmica da censura, buzz positivo na crítica e o nome Blumhouse, que raramente falha em transformar pequenas produções em fenômenos rentáveis. O lançamento oficial está marcado para 15 de maio, posicionando o filme em terreno fértil — entre blockbusters de verão e as estreias de meio de ano, quando o público costuma buscar experiências mais “diferentonas”.
Vale a pena assistir Obsessão?
Para quem acompanha o terror contemporâneo, Obsessão reúne ingredientes atrativos: direção segura de Curry Barker, elenco jovem em ascensão e uma cena de violência tão comentada quanto contida na dose certa. A nota próxima da perfeição no Rotten Tomatoes reforça que, mesmo com cortes, a obra preserva impacto e frescor.
Com estreia simultânea em várias praças a partir de 15 de maio, o longa chega ladeado por elogios e pela curiosidade em torno do que ficou — e do que não ficou — na sala de edição. Se você gosta de acompanhar o gênero de forma quase esportiva, reparando em como cada novo título empurra limites de censura e criatividade, marcar sessão para Obsessão parece um movimento inevitável.



