Valerie Cherish está de volta para um último suspiro diante das câmeras – ou, melhor, de várias câmeras. O Retorno (The Comeback) estreia sua terceira e derradeira temporada neste domingo, 22 de março, às 20h (horário de Brasília) na HBO e na HBO Max.
Ao longo de oito episódios, a produção criada por Lisa Kudrow e Michael Patrick King mergulha na dificuldade de envelhecer em uma indústria que troca de modas na velocidade do scroll. E, para a surpresa de quem temia um adeus sem brilho, o seriado entrega justamente seu ponto alto.
Valerie Cherish revigorada, mas sem abandonar o constrangimento
Agora perto dos 60 anos, Valerie tenta se encaixar em um mercado onde influenciadores dominam as conversas. Kudrow interpreta a atriz com a mesma ignorância confiante que marcou as fases anteriores, porém adiciona uma camada de fragilidade: a sensação de não ter mais tempo a perder.
A mudança surge logo em um breve flashback de 2023. Valerie, que no passado preferiu o amor à carreira, recusa Chicago: The Musical na Broadway e justifica o ato como apoio às greves da WGA e da SAG-AFTRA. A cena resume a personagem: boa de discurso, péssima na leitura de contexto.
Nessa transição, Kudrow transita entre o humor físico — olhares para a câmera, tropeços na etiqueta digital — e instantes de puro desespero, mostrando por que Valerie é um dos grandes estudos de personagem da TV recente. A atriz carrega sozinha momentos que, nas mãos de outro elenco, cairiam no exagero.
Mudança de formato dá fôlego à narrativa
O Retorno nasceu em 2005 com ares de reality-show tosco, câmera tremida e aviso de “raw footage”. A segunda temporada, em 2014, já flertava com o híbrido entre falso documentário e single-cam. Agora, a terceira leva assume de vez a mistura e ganha ritmo.
Kudrow e King alternam imagens “capturadas” por celulares, lives e câmeras profissionais com cenas mais cinematográficas. O recurso evita a fadiga do espectador e espelha o caos de uma Hollywood que vive à procura do próximo formato viral. Essa maleabilidade técnica, sempre a serviço da piada, transforma cada episódio em um produto completo — algo que a série vinha ensaiando desde o antológico final da temporada 2.
Sátira de AI e influencer economy mantém o tom ferino
Com Mickey Deane ausente — o ator Robert Michael Morris faleceu em 2017 —, sobra espaço para novas figuras igualmente caricatas. Um executivo interpretado por Andrew Scott oferece a Valerie um projeto movido a inteligência artificial, enquanto Patience, a social media manager de olhar Gen-Z vivido por Ella Stiller, grava cada respiração da atriz na esperança de conseguir um “collab”.
Imagem: Divulgação
Em vez de moralizar, o roteiro expõe o ridículo em tom quase documental, lembrando o humor de Jury Duty, que também transforma o constrangimento em ferramenta narrativa. A diferença é que Valerie está consciente do show dentro do show, mas continua tropeçando nos próprios passos.
A presença de James Burrows como norte moral do universo de Valerie reforça o choque de gerações: de um lado, o diretor veterano; de outro, métricas de engajamento que mudam antes mesmo de o vídeo subir. A série extrai humor desse abismo e, ao mesmo tempo, sublinha o descompasso emocional de sua protagonista.
Elenco e bastidores afinados potencializam o adeus
Lisa Kudrow domina a tela, porém o trabalho de apoio merece crédito. Damian Young retorna como Mark Berman, marido paciente até ultrapassar o limite; cada suspiro dele comunica o desgaste de viver no circo midiático de Valerie. Lance Barber, por sua vez, resgata Paulie G. com rancor reinventado, lembrando à protagonista que nem todos a enxergam como vítima de um sistema cruel.
Na direção, Clark Mathis garante fluidez à alternância de formatos, enquanto Michael Patrick King equilibra piadas visuais e diálogos incisivos. O texto avança sem pressa, mas jamais perde de vista o alvo: a vaidade intrínseca ao showbiz. Como resultado, O Retorno temporada 3 funciona tanto como estudo de personagem quanto como crônica afiada sobre os bastidores televisivos.
Vale a pena assistir?
O Retorno temporada 3 honra tudo o que fez da série um marco na comédia de constrangimento: humor agridoce, olhar clínico sobre a indústria e uma protagonista inesquecível. Quem acompanhou Valerie Cherish desde 2005 encontrará aqui o fechamento que sempre desejou, enquanto novos espectadores perceberão rapidamente por que ela nunca precisou realmente de um comeback — esteve em cena o tempo inteiro.
Para o Salada de Cinema, esta despedida mostra que, mesmo duas décadas depois, ainda há espaço para séries que riem de si mesmas sem esquecer a humanidade de seus personagens.




