Kelly Marie Tran chegou à galáxia muito, muito distante em grande estilo. “Star Wars: Os Últimos Jedi” dividiu fãs, mas ofereceu à atriz o tipo de vitrine que todo iniciante sonha em ter. Hoje, ela transita entre animações da Disney, rom-coms e um terror selecionado para Sundance, sem perder de vista o aprendizado que recebeu no set comandado por Rian Johnson.
Nesta matéria, o Salada de Cinema reúne as chaves dessa virada de jogo: a entrega de Tran como Rose Tico, a troca criativa com Johnson, as escolhas ousadas de papel e a recepção da crítica a “Rock Springs”, longa que marca sua estreia como protagonista de um horror de atmosfera densa.
Rose Tico: a faísca que acendeu a trajetória de Kelly Marie Tran
Em “Os Últimos Jedi” (2017), Tran interpreta Rose Tico, mecânica da Resistência que leva esperança ao lado de Finn, vivido por John Boyega. A personagem ganha relevância no terceiro ato, durante a Batalha de Crait, ajudando a dramatizar o embate entre a Primeira Ordem e uma equipe de rebeldes cada vez mais encurralada.
Embora o episódio VIII tenha provocado discussões acaloradas dentro do fandom, o desempenho de Tran chamou atenção pela combinação entre vulnerabilidade e coragem. Rose Tico foge do arquétipo da guerreira invencível e, justamente por isso, soa humana. Esse contraste ofereceu à atriz a chance de mostrar timing cômico, determinação e uma delicadeza que se estende à cena final, quando a personagem reafirma que “lutar pelo que amamos” é mais poderoso do que apenas “combater quem odiamos”.
Parceria com Rian Johnson: mentoria em pleno set de gravação
Em entrevista durante a SXSW, Tran descreveu a experiência em “Os Últimos Jedi” como “um presente”. O diretor Rian Johnson, segundo ela, manteve um ambiente de confiança que foi crucial para quem ainda dava os primeiros passos em longas-metragens. A combinação de roteiro autoral e liberdade para explorar nuances resultou em uma Rose tridimensional, longe de meros coadjuvantes decorativos.
Johnson também colaborou para que a atriz enxergasse a indústria sob outra ótica. Ela relembra que filmar uma superprodução já na estreia “não é um mau começo”. Ao vivenciar processos de pré e pós-produção em larga escala, Tran ganhou repertório para navegar tanto em projetos independentes quanto em blockbusters animados, como “Raya e o Último Dragão”.
Da Disney ao cinema independente: escolhas que ampliam repertório
Depois de “Star Wars”, a atriz deu voz à guerreira Raya, protagonizando a animação da Disney que revisita lendas do sudeste asiático. Em seguida, embarcou em “Os Croods 2: Uma Nova Era”, reforçando a veia cômica. Na TV, contracenou com Elizabeth Olsen na série “Sorry for Your Loss”, provando que o drama contemporâneo também faz parte da sua paleta criativa.
Tran ainda topou a refilmagem da comédia romântica “The Wedding Banquet”, decisão que mostra afinidade com histórias culturalmente específicas. Essa preferência ecoa na declaração da atriz sobre trabalhar com cineastas asiáticos e queer, movimento que, segundo ela, “muda a química do cérebro” ao revelar outras possibilidades narrativas.
Imagem: Divulgação
“Rock Springs”: terror íntimo, fotografia marcada e recepção calorosa
Exibido no Festival de Sundance 2026, “Rock Springs” surge como o passo mais arriscado de Kelly Marie Tran. Dirigido por Vera Miao e fotografado por Heyjin Jun, o longa acompanha eventos de horror que atravessam diferentes séculos. O resultado convenceu a crítica: 75% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios à protagonista, descrita como “mais uma performance arrebatadora”.
A fotografia de Jun, segundo Tran, criou imagens que “mudaram sua percepção sobre o que é possível fazer em cena”. Esse impacto lembra a atmosfera de terror de casa assombrada analisada na crítica do nosso parceiro Imposters – Jessica Rothe brilha em terror de casa assombrada.
O filme também reforça a preferência recente da atriz por sets inclusivos, onde a representatividade não é discurso distante, mas prática diária. Para ela, colaborar com equipes variadas significa “celebrar partes de si que foram ensinadas a odiar”, resposta direta aos ataques racistas sofridos na época de “Os Últimos Jedi”.
Reação do público e possíveis retornos à franquia Star Wars
Desde o fim da trilogia sequencial, Tran voltou à galáxia apenas em animações LEGO, dublando Rose Tico. O universo live-action continua sob especulação, já que futuros projetos — como “Starfighter”, de Shawn Levy, e o filme sobre a Nova Ordem Jedi, com Daisy Ridley — se passam cronologicamente depois de “A Ascensão Skywalker”. Até agora, nenhum sinal oficial de que Rose retornará de carne e osso, mas a base de fãs mantém a esperança viva.
Enquanto isso, a atriz parece confortável no caminho escolhido: alternar produções de estúdio com cinema independente. A estratégia lembra a de veteranos que encontram novos nichos, como Barbara Crampton, que aposta em humor no filme antológico “Grind” ao se definir como a “Betty White do terror”.
Vale a pena revisitar “Star Wars: Os Últimos Jedi”?
Para quem deseja entender o ponto de virada na carreira de Kelly Marie Tran, a resposta é sim. Além de observar a evolução de Rose Tico dentro da Resistência, o filme mostra como direção autoral e atuação comprometida podem sobreviver em meio a polêmicas de franquia. E, no panorama atual da atriz — que vai do épico galáctico ao horror intimista de “Rock Springs” —, assistir (ou reassistir) ao Episódio VIII ajuda a mapear cada escolha que a levou até aqui.



